| Em 28/10/2016

Pesquisador publica guia sobre emergências médicas causadas por animais aquáticos

A maioria dos acidentes com animais em praias é provocada pelo contato com seres bem menores – como o ouriço-do-mar, que apresenta toxinas que causam dor intensa e inflamações. Para auxiliar nos cuidados nesses e em outros acidentes envolvendo animais aquáticos, o pesquisador Vidal Haddad Junior acaba de publicar, pela editora Springer, o livro Medical emergencies caused by aquatic animals: a zoological and clinical guide.

O trabalho é resultado de mais de 30 anos de pesquisa médica e zoológica do autor, professor do Departamento de Dermatologia e Radioterapia da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp), parte delas realizadas com apoio da FAPESP. Além de casos envolvendo o contato com animais de diferentes espécies em habitats marinhos e fluviais, o livro trata da ingestão de toxinas – como as do peixe baiacu – e de infecções fúngicas e bacterianas em ambientes aquáticos.

“O objetivo era compor e oferecer um guia de referência para os cuidados de emergência em ambulatório, com informações essenciais sobre os problemas mais importantes envolvendo incidentes em praias, rios e outros ambientes em que seres humanos interagem de alguma maneira com a fauna aquática. É o trabalho de uma vida”, diz Haddad Junior.

As informações apresentadas no livro foram coletadas de diferentes fontes, a começar pelo trabalho prospectivo do autor em colônias de pescadores ao longo da costa brasileira e em rios e lagos do país. Os dados sobre lesões em banhistas foram catalogados em séries clínicas, em que cerca de 3 mil lesões foram observadas durante um período de quase 20 anos.

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O conteúdo abrange a identificação das espécies, aspectos clínicos da ocorrência de envenenamentos e lesões, primeiros socorros e cuidados de emergência, as principais alternativas de tratamento e um caso típico representando cada grupo de animais. Os casos são ilustrados por fotografias originais de espécimes e dos ferimentos causados por elas, todas produzidas pelo pesquisador.

Os capítulos são divididos de acordo com grupos zoológicos: invertebrados marinhos e de água doce, como esponjas, medusas, caravelas, anêmonas, corais, sanguessugas, caramujos e estrelas-do-mar; e vertebrados, como peixes e répteis. Um guia clínico é destinado a estudantes e profissionais de Medicina, Ciências Biológicas e outros campos que trabalham em áreas costeiras ou água doce, com orientações sobre como lidar com uma série de emergências médicas causadas por animais aquáticos.

“O interesse pelos ambientes aquáticos cresce à medida que o acesso a praias, rios e lagos é facilitado, especialmente para atividades de recreação e práticas esportivas. Mas esses ambientes costumam ser frequentados por muitas pessoas que não possuem o devido conhecimento sobre as suas particularidades e os riscos das defesas naturais da fauna aquática. Isso pode provocar encontros desagradáveis e para os quais os seres humanos não costumam estar preparados”, alerta Haddad Junior.

De acordo com o autor, entre as causas mais frequentes de ferimentos provocados por animais aquáticos está o contato inadvertido com espécies venenosas, que apresentam toxinas de efeitos deletérios ou traumatizantes, cuja estrutura pode cortar ou perfurar a pele humana com facilidade. Animais venenosos podem não ser peçonhentos – com glândulas que se comunicam com dentes, ferrões, aguilhões ou outras estruturas por onde o veneno passa ativamente –, mas suas toxinas podem causar efeitos danosos se ingeridas, por exemplo.

Os principais animais aquáticos que causam situações de emergência em seres humanos são os dos filos Porifera, ao qual pertencem as esponjas; Cnidaria, das anêmonas e dos corais; Annelida, dos vermes marinhos; Mollusca, dos caramujos e polvos;Echinodermata, dos ouriços-do-mar; e Crustacea, dos caranguejos e camarões.

Para identificar o período em que os acidentes com animais marinhos são mais frequentes, Haddad Junior monitorou ocorrências na cidade de Ubatuba, no litoral paulista. Inicialmente, foram registrados 144 casos ao longo de 18 meses, com picos nos períodos de verão, quando a população da cidade aumenta cerca de 10 vezes. Banhistas constituem mais de 90% das vítimas e a incidência desse tipo de acidente foi observada em um a cada mil entradas em salas de emergência. “Trata-se de um número elevado se considerarmos que na temporada de férias até 5 mil pessoas podem ser atendidas em um único dia”, conta.

Cerca de 50% das vítimas são banhistas que pisam em ouriços-do-mar e apresentam lesões traumáticas. A outra metade das ocorrências é dividida quase que igualmente entre banhistas feridos por cnidários e pescadores vitimados por contato com peixes venenosos, como arraias e bagres.

“As fases iniciais dos ferimentos por peixes são sempre uma emergência para a vítima, especialmente por causa da possibilidade de hemorragia e da dor, que pode ser muito grave e com manifestações sistêmicas presentes, como comprometimento cardíaco, respiratório e urinário. Ocasionalmente, há risco de morte da vítima. As informações e orientações apresentadas no livro são úteis também para a prevenção desses quadros”, diz o autor.

 

Fonte: Diego Freire – Agência FAPESP

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