| Em 26/06/2026

Projeto goiano produz combustível derivado de resíduos e aponta novo caminho para a sustentabilidade

O combustível alternativo poderá substituir o coque de petróleo e o carvão mineral, altamente poluentes, que são utilizados nos fornos das indústrias de cimento. O CDR será uma composição de rejeitos provenientes dos processos de reciclagem (Foto: Divulgação)

Um projeto inovador desenvolvido por uma empresa genuinamente goiana está mostrando que o que antes era considerado lixo pode se tornar parte da solução para desafios ambientais, econômicos e sociais. Selecionada pelo edital 12/2024 do Programa Tecnova III, a iniciativa propõe transformar rejeitos sem valor econômico em combustível alternativo para a indústria cimenteira, o que vai colaborar para reduzir emissões de gases de efeito estufa, custos urbanos e a pressão sobre aterros sanitários, se apresentando como uma resposta concreta a um dos maiores desafios urbanos: o destino final dos rejeitos.

A proposta conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) que investiram quase R$ 500 mil no projeto. O projeto é coordenado pelo engenheiro ambiental e mestre em energias renováveis Nelson Siqueira Neto, proprietário da RNV Serviços Sustentáveis Ltda.

O objetivo é desenvolver e validar o novo Combustível Derivado de Resíduos (CDR), alternativa ao coque de petróleo e ao carvão mineral utilizados atualmente nos fornos das indústrias de cimento, dois dos combustíveis mais intensivos em carbono. O novo combustível dará um destino aos rejeitos das cooperativas de catadores de resíduos recicláveis e da usina de reciclagem de resíduos de construção civil, materiais que normalmente seguem para aterros sanitários por não possuírem valor comercial. Além desses resíduos, o CDR também utilizará rejeitos da indústria farmacêutica e biomassa de cavacos de madeira oriundos da reciclagem de resíduos da construção civil, atendendo às exigências técnicas da indústria cimenteira.

O público-alvo do novo combustível são as grandes indústrias cimenteira por contarem com grandes fornos rotativos de clínquer, como os da Intercement (Cezarina-GO) e Votorantim (Edealina-GO e Sobradinho-DF).

Neto explica que seu projeto, intitulado “Destinação final com aproveitamento energético de rejeitos advindos de processos de reciclagem com a inserção de resíduos industriais”, surgiu da necessidade de solucionar o alto volume de rejeitos das cooperativas de reciclagem e de usinas de entulhos que iam parar no aterro. “A solução foi unir esses materiais com resíduos industriais e usar a biomassa de madeira para diluir os contaminantes, criando uma “receita” termoquímica perfeita”. O CDR será uma composição de rejeitos secos de cooperativas, como plásticos e papelão, resíduos da reciclagem dos resíduos de construção civil (RCC), resíduos de outros processos de reciclagem e resíduos industriais.

O diferencial do projeto está na blendagem (engenharia de formulação – processo técnico que busca o equilíbrio ideal entre diferentes tipos de resíduos e biomassa para garantir eficiência energética e segurança na queima. “Esse cuidado é essencial, principalmente na incorporação de resíduos industriais, como os do setor farmacêutico, que exigem controle rigoroso de elementos como o cloro”, afirma o empreendedor.

“O Edital Tecnova III nos permite investir em um controle interno avançado e análises laboratoriais contínuas para assegurar a qualidade do combustível, avaliando parâmetros como umidade, cinzas, cloro e medindo o poder calorífico”, explica Neto. As etapas de fabricação incluem triagem, trituração, peneiramento e testes constantes, tanto na entrada quanto na saída dos materiais, além da validação em fornos de cimenteiras. A cimenteira também afere a qualidade no recebimento do produto”. O processamento, a triagem e o controle laboratorial dos resíduos acontecem na Grande Goiânia, em unidades localizadas em Aparecida de Goiânia e Senador Canedo. Já os testes de queima são realizados em cimenteiras.

Neto destaca que o processo está em plena execução. “A fase de trituração e blend piloto foi concluída com sucesso. Atualmente, o projeto está na fase de otimização da capacidade produtiva, testes de queima e controle laboratorial contínuo. Queremos refinar nossa qualidade de laboratório, concluir as validações com as cimenteiras e otimizar a planta produtiva,” destaca Neto.

Recentemente o empresário esteve na Alemanha fazendo um benchmarking com o setor de resíduos para dar continuidade ao processo de inovação da empresa que está em busca de novas tecnologias para um melhor aproveitamento energético dos resíduos. “Estamos conhecendo novos equipamentos, novas tecnologias e principalmente novos processos para melhorar os nossos no Brasil. Tudo que vivemos até agora é que o “futuro” já existe, o que temos que fazer agora é torná-lo aplicável à nossa realidade. O DNA da inovação está em nossa empresa desde a inovação. Estamos sempre em busca de nos reinventarmos com a inovação”, destacou.

Na Alemanha conhecendo novos processos e tecnologias (Foto: Divulgação)

Lixo como matéria-prima

Toneladas de resíduos que passam por cooperativas de reciclagem ainda não encontram reaproveitamento e acabam em aterros sanitários. Em Goiânia e região metropolitana, esse volume é significativo.

Os resíduos/rejeitos dos processos de recilagem são captados pela RNV junto às cooperativas parceiras da empresa, como a Cooperfami, Coopermas e Cooperrama, que geram cerca de 1.200 toneladas mensais de rejeitos, enquanto a usina de reciclagem de resíduos da construção civil da Empresa RNV, em Aparecida de Goiânia, de propriedade de Neto, somam outras 250 toneladas mensais.

A meta inicial do projeto é processar 25% do volume das cooperativas (cerca de 300 toneladas/mês) e alcançar uma produção total contínua de 1.250 toneladas de CDR mensais.

Sustentabilidade na prática

Os benefícios do projeto conectam diferentes dimensões da sustentabilidade. No aspecto ambiental, a iniciativa reduz significativamente o volume de resíduos enviados aos aterros, prolongando sua vida útil e diminuindo a emissão de metano. Ao substituir combustíveis fósseis, também contribui para a redução das emissões de dióxido de carbono na indústria cimenteira.

Do ponto de vista econômico, há potencial para diminuir custos públicos com coleta e destinação de resíduos, além de criar um combustível padronizado e competitivo para o setor industrial. Já no campo social, o impacto é direto: mais de mil catadores vinculados a cooperativas podem ser beneficiados. O que antes representava custo, o descarte de rejeitos, passa a ser incorporado a uma cadeia produtiva, fortalecendo a renda e a inclusão socioprodutiva.

Economia circular em ação

A iniciativa materializa, na prática, o conceito de economia circular ao transformar resíduos em insumos energéticos. Também responde a desafios históricos da gestão de resíduos urbanos, especialmente em grandes cidades, onde o descarte irregular e a sobrecarga dos aterros ainda são problemas recorrentes.

Goiás como protagonista da inovação sustentável

A RNV já atua há 16 anos no setor produzindo agregados reciclados e biomassa energética. A matriz e núcleo de inovação ficam em Senador Canedo, com operações de entulho em Aparecida de Goiânia e Catalão. A empresa produz anualmente 150 mil toneladas de agregados reciclados da construção civil e cerca de 600 toneladas mensais de biomassa energética limpa (cavacos de madeira). Agora, com o novo projeto, a empresa amplia sua atuação e posiciona Goiás como referência em soluções sustentáveis aplicadas à indústria pesada.

A equipe técnica do projeto conta ainda com João Rodrigues Barbosa Neto, engenheiro responsável pelo business intelligence do projeto, Lorenna Fernanda, no apoio Técnico e Aline Lopes da Silva, responsável pela área técnica e controle laboratorial.

Tecnova III

O projeto de Nelson Siqueira Neto foi contemplado no edital Tecnova III e recebeu R$ 499.692,04 como subvenção econômica (recurso que não precisa ser reembolsado) e contou com uma contrapartida individual de R$ 34.416,00, totalizando um investimento de R$ 534.108,04. Segundo o empreendedor, o fomento público viabilizou o salto tecnológico do projeto. Lidar com a química complexa de resíduos industriais/farmacêuticos traz um “risco tecnológico”. “O edital Tecnova paga a conta da ciência e das análises laboratoriais para encontrarmos a receita ideal, algo que o mercado tradicional dificilmente apoiaria”, explica.

O edital Tecnova III tem como objetivo apoiar, por meio da concessão de recursos de subvenção econômica, o desenvolvimento de produtos (bens ou serviços) ou processos inovadores – novos ou significativamente aprimorados, pelo menos para o mercado nacional – de empresas brasileiras para o desenvolvimento dos setores econômicos considerados estratégicos nas políticas públicas federais e aderentes à política pública de inovação do estado de Goiás. Além de recursos destinados ao desenvolvimento de produtos ou processos inovadores, são disponibilizados recursos adicionais para aceleração e internacionalização das empresas selecionadas.

O objetivo principal do Programa de Subvenção Econômica é promover um significativo aumento das atividades de inovação e o incremento da competitividade das empresas e da economia do País. Desta forma, o edital visa apoiar projetos de inovação, que envolvam significativo risco tecnológico associado a oportunidades de mercado. Foi destinado pelo edital, um valor global de R$ 16.127.334,00, sendo R$ 12.095.500,00 do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – FNDCT/FINEP e R$ 4.031.834,00 da Fapeg. Foram submetidas 102 propostas e aprovados 28 projetos, o que representa uma taxa de aprovação de 27,4%, que receberam valores variando de R$ 424 mil a R$624 mil.

A Fapeg tem trabalhado para fortalecer o ambiente de inovação em Goiás, oferecendo suporte desde a concepção das ideias inovadoras (Centelha), passando pelo Trilhas da Inovação, edital lançado para apoiar as startups recém-constituídas a partir do Centelha, mas que precisam de reforço para inserir ou ganhar espaço de mercado, chegando ao Tecnova, que investe um volume maior de recursos em forma de subvenção econômica para apoiar projetos de inovação que envolvam significativo risco tecnológico, mas que apresentam soluções que vão gerar grandes impactos na economia goiana e na vida da população.

Os projetos aprovados têm potencial inovador, o que vai ao encontro do que é o objetivo do programa, “que é apoiar o desenvolvimento de inovação, a competitividade das micro e pequenas empresas inovadoras no estado e fazer com que essas inovações cheguem ao mercado de uma forma mais rápida. O prazo de execução das propostas é de 36 meses (resultado divulgado em novembro de 2024) e ao final os produtos e serviços resultantes desses projetos têm que estar prontos para o mercado e colocados à disposição da população.

Fonte: FAPEG (Por: Ascom Fapeg)

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