| Em 08/11/2019

Combate à violência e à radicalização requer mais transparência das plataformas online

A violência tem diferentes faces na Europa e no Brasil. Enquanto pesquisadores europeus afirmam que o discurso extremista está na raiz de atentados terroristas em países como a Alemanha, no Brasil a desigualdade e o sistema de encarceramento são apontados como alguns dos fatores que fomentam o crime.

Independentemente da forma de manifestação, a violência tem um locus privilegiado na internet, via redes sociais ou plataformas de troca instantânea de mensagens. No Brasil, por exemplo, se expressa por meio de ataques a personalidades e jornalistas; na Europa, por meio de propaganda de grupos radicais que buscam atrair jovens para suas causas.

Esses canais não são a causa da violência ou da radicalização, mas servem de instrumentos estratégicos para grupos extremistas. As soluções para o problema ainda são difíceis de estabelecer, mas devem envolver mais transparência por parte das plataformas on-line e pelo uso de contranarrativas capazes de se sobrepor às narrativas que pregam o ódio e a violência.

A avaliação é de pesquisadores que participaram do 8º Diálogo Brasil-Alemanha de Ciência, Pesquisa e Inovação, realizado nos dias 30 e 31 de outubro pela FAPESP e pelo Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH São Paulo). O evento teve a participação de palestrantes dos dois países, com o objetivo de discutir pesquisas recentes e abordar áreas de interesse comum.

“Esta edição foca na questão da violência, na busca de causas, raízes e abordagens para a prevenção. Como somos cientistas e acreditamos no método científico, promovemos a pesquisa sistemática para revelar essas causas. Tentamos entender as motivações do comportamento humano e as condições sociais, econômicas e políticas que desencadeiam, alimentam e aumentam a violência”, disse Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, durante a abertura do evento.

“O Diálogo tem como principal objetivo reunir cientistas do Brasil e da Alemanha para fazer um intercâmbio de conhecimento e, ao colocá-los em contato, gerar novos projetos de pesquisa binacionais. Este ano, tratamos pela primeira vez do tema da radicalização e da violência, um tópico bastante atual no Brasil, na Alemanha e em muitos países do mundo. Vemos um grande potencial de aprofundar essa discussão”, disse Marcio Weichert, coordenador do DWIH São Paulo e um dos organizadores do evento.

Na primeira palestra, Julian Junk, do Leibniz Peace Research Institute Frankfurt, contou que seu grupo aborda a questão da violência e da radicalização na Europa por meio de estudos de casos, analisando atos terroristas recentes e monitorando grupos on-line que adotam discurso radical.

“Nós tentamos cobrir todos os aspectos da pesquisa sobre radicalização, entre eles a radicalização on-line e o papel da internet. Como se dão os processos de radicalização e quais contramedidas podem ser tomadas, como conter falas perigosas e fornecer contranarrativas na rede”, disse.

Para Junk, a divergência de visões e opiniões nem sempre representa uma ameaça, já que pode ser também uma alavanca importante de progresso social. O problema surge quando a intolerância e o ódio levam ao uso da violência para alcançar objetivos culturais, sociais e políticos.

“Se a radicalização resulta em violência, sua atribuição é completamente destrutiva para a sociedade. Mas, se ela acontece no sentido de possibilitar algo novo, sem implicações violentas, pode aparecer como uma ferramenta de inovação e oportunidades”, explicou.

Embora o terrorismo não seja o foco de pesquisadores brasileiros, o uso da internet para ataques on-line é um tema que vem ganhando destaque nos últimos anos. Daniela Osvald Ramos, professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), falou sobre como as redes sociais têm sido usadas para atacar jornalistas no Brasil.

“O tema está dentro de um escopo maior de pesquisa: a conexão existente hoje entre a violência e o campo da comunicação. Quando se programam robôs e se mobilizam pessoas para atacar um indivíduo, usa-se uma plataforma midiática e o potencial de alcance informativo para uma violência. Diferentemente de outros crimes cometidos pelo computador, como roubo de dados para chantagem, por exemplo, esse tipo de violência é de difícil tipificação”, disse a pesquisadora.

Junk lembrou que “monitorar” ou “controlar” a internet é quase impossível e, por isso, uma das medidas para tentar conter os extremistas é tornar as plataformas de mídias sociais mais confiáveis, responsabilizando-as pelo conteúdo que publicam e exigindo mais transparência. Fora isso, o pesquisador defende que governos e organizações da sociedade civil devem usar a própria lógica da internet, como uso de incentivos e competições, para se contrapor às narrativas extremistas.

Crime organizado

O crime e sua ligação com o discurso político foi outro tema abordado. Uma das apresentações tratou de como o Primeiro Comando da Capital (PCC) adota um discurso político-ideológico para legitimar suas ações.

“Trata-se de uma narrativa político-ideológica de legitimação, construída pelo PCC. Em vez de olhar para os aspectos da dinâmica criminal, mais considerados pela mídia e pelas forças de repressão, tentei fazer uma abordagem levando em conta esses aspectos, presentes desde a origem do PCC até hoje. Acredito que isso é muito importante para entender a permanência do grupo ao longo do tempo”, disse Camila Caldeira Nunes Dias, professora da Universidade Federal do ABC (UFABC) e pesquisadora associada do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela FAPESP e sediado na USP.

Segundo Dias, desde que o PCC foi criado, em 1993, o discurso é o de que os presidiários precisavam se unir para enfrentar um estado opressor.

“Nos últimos 10 anos, houve um processo de descentralização da estrutura organizacional do PCC, qualificado por seus membros de ‘democratização’. Uma estrutura que era hierarquizada, piramidal, se tornou mais descentralizada, com a participação de vários atores. Ao lema, que originalmente era ‘Paz, Justiça e Liberdade’, adicionou-se ‘Igualdade e União’”, disse.

Para Markus-Michael Müller, da Freie Universität Berlin, a reflexão sobre as causas da radicalização e da violência na América Latina deve abordar também o papel das prisões como locais de fomento da radicalização. Para ele, os presídios da região são negligenciados, mal financiados e sobrecarregados.

“Um dos aspectos do cenário de insegurança da América Latina, em termos acadêmicos e políticos, tem sido o sistema penitenciário. Grupos criminosos exploram essa situação, transformando as prisões em locais ideais para recrutar e radicalizar presos comuns, aproveitando-se de sua socialização em uma cultura específica de violência, como é o caso das gangues de rua”, disse.

De olho na prevenção da violência, Müller acredita que medidas preventivas poderiam neutralizar essa radicalização mútua (política e criminal) e seriam um importante ponto de partida para quebrar esse ciclo vicioso e melhorar, de maneira sustentável, a situação da segurança no continente sul-americano.

Lilia Schwarcz, professora do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, apresentou um panorama sobre a violência e o autoritarismo no Brasil e descreveu um país mergulhado no preconceito, na desigualdade social e na falta de oportunidades e de educação.

Para a antropóloga, a educação é a estratégia base no que diz respeito à prevenção da violência, em especial no Brasil. “Acredito que só a educação tem a potencialidade para travar o gatilho da intolerância e da desigualdade existente entre nós”, disse.

A prevenção da violência e da radicalização de conflitos, com exemplos e casos de sucesso da Alemanha, país com longa tradição em estudos e pesquisas sobre a paz e conflitos, foi foco da apresentação de Thomas Fischer, da Universidade Católica de Eichstätt-Ingolstadt (KU).

“Na Alemanha, há uma tendência em prol da paz e da prevenção de conflitos, com apoio de universidades e instituições que colaboram com pesquisas e iniciativas. Nesse âmbito, o Conselho Alemão de Ciências e Humanidades [Wissenschaftsrat] contribui com insights, direcionando pesquisas, qualificações, ensino e apoio a jovens cientistas, além de uma plataforma de networking e colaboração”, explicou Fischer.

No âmbito cultural e educacional, Hans-Christian Jasch, da Casa da Conferência do Wannsee, trouxe as atividades desenvolvidas pela sua instituição, que colabora com a preservação da memória em prol da conexão com o presente.

“Manter a memória viva, com base no conhecimento e na história, é, de certa forma, o espaço para a educação. A Alemanha desenvolve políticas que tratam do passado, da história pública, da cultura da memória e da pedagogia da paz. Esses fatores contribuem na troca de experiências e conhecimentos, além de nos conectar da melhor forma com o presente”, disse.

Participaram ainda do 8º Diálogo Brasil-Alemanha de Ciência, Pesquisa e Inovação Jochen Hellmann, diretor designado do DWIH São Paulo e do escritório regional do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) no Rio de Janeiro, e Axel Zeidler, cônsul-geral da Alemanha em São Paulo.

Entre os mediadores estavam Stefan Kroll, pesquisador do Leibniz Peace Research Institute Frankfurt; Sérgio Adorno, professor da FFLCH-USP e coordenador do NEV, e Vitor Blotta, professor da ECA-USP.

Os outros palestrantes foram Esther Solano, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); Alba Zaluar, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj); Stefan Sieber, do Leibniz Centre for Agriculture Landscape Research; Frederico de Almeida, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp); Brigitte Weiffen, professora visitante da USP; Andreas Amborst, do German National Center for Crime Prevention; e Maria Fernanda Tourinho Peres, da Faculdade de Medicina da USP. Parte das apresentações pode ser conferida em www.fapesp.br/13455.

Fonte: Agência Fapesp,  com informações da Assessoria de Comunicação do DWIH São Paulo. Texto – André Julião

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