| Em 19/01/2022

Livro celebra cem anos da descrição da jararaca-ilhoa com alerta sobre conservação da serpente endêmica

Uma das adaptações que a jararaca-ilhoa desenvolveu na Ilha da Queimada Grande foi a cauda que se prende às árvores, ideal para a predação de pássaros (foto: João Marcos Rosa/Nitro Imagens)

Exceto por algumas aves migratórias, ninguém é muito bem-vindo na Ilha da Queimada Grande, uma área de 43 hectares coberta de Mata Atlântica, 33 quilômetros distante da costa de Itanhaém, litoral sul de São Paulo. Isolada nessa ilha há 11 mil anos, a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis) se espalha pelo chão e pelas árvores, em plena luz do dia, esperando para dar o bote em passarinhos desavisados, a principal presa para os indivíduos adultos da espécie. Ratos, que são 80% do que é caçado pela jararaca do continente (Bothrops jararaca), não existem ali.

Para celebrar os cem anos da descrição da jararaca-ilhoa em 1921 por Afrânio do Amaral (1894-1982), à época diretor do Instituto Butantan, acaba de ser lançado o livro A ilha das cobras: biologia, evolução e conservação da jararaca-ilhoa na Queimada Grande, de Otávio Marques, pesquisador da mesma instituição que tem apoio da FAPESP.

Escrita em linguagem acessível para o público em geral, a publicação foi financiada pela Fundação, assim como uma série de projetos que tornaram possível conhecer diversos aspectos da biologia e da evolução dessa e de outras espécies brasileiras.

“Graças a um desses projetos, por exemplo, pudemos verificar que a migração da guaracava-de-crista-branca (Elaenia chilensis), por volta de março, e do sabiá-una (Turdus flavipes), entre junho e outubro, são essenciais para a alimentação das jararacas-ilhoas”, conta Marques.

Uma vez que as aves residentes da ilha devem ter aprendido, ao longo de milênios de convivência, a se livrar das jararacas-ilhoas, as serpentes dependem de aves migratórias para se alimentar. Assim, eventos migratórios de certas espécies são imprescindíveis para a subsistência dessa população insular.

“O sabiá-una se desloca do alto para baixo da Serra do Mar em busca do fruto do palmito. No período de disponibilidade desse alimento na baixada litorânea, há abundância de sabiás e alguns migram para a ilha. Se ocorrer a redução do número de palmitos em áreas adjacentes, isso pode impactar diretamente a jararaca-ilhoa. Esse é um exemplo de como a conservação da ilha também depende da de outros lugares da Mata Atlântica”, explica o pesquisador.

A dependência de pássaros para se alimentar levou até mesmo a suposições de que o veneno da espécie insular seria mais eficiente contra aves do que o da sua parente do continente. Estudos mais recentes, no entanto, mostram que as peçonhas de ambas são mais letais em aves, indicando que a característica já estava presente na serpente ancestral.

Há pequenas diferenças entre os dois venenos, porém, elas podem ser suficientes para que novas moléculas com potencial farmacológico sejam encontradas no veneno da B. insularis.

Estudos recentes in vitro desenvolvidos no Instituto Butantan demonstraram que uma molécula presente no veneno da serpente da ilha inibe de forma única a progressão de células tumorais. A busca por possíveis medicamentos não é por acaso. Basta lembrar que da peçonha da B. jararaca foi desenvolvido o medicamento anti-hipertensivo captopril.

Plantel de jararacas-ilhoas é mantido no Instituto Butantan para repovoar a Ilha da Queimada Grande, caso ocorra uma extinção (foto: João Marcos Rosa/Nitro Imagens)

Biopirataria e educação

Outro projeto apoiado pela FAPESP possibilitou a primeira estimativa populacional da jararaca-ilhoa, que constatou uma redução de metade da população da espécie entre os anos 1990 e 2002.

“A redução pode ser natural, mas temos fortes suspeitas de que esteja associada ao tráfico de espécimes da ilha, inclusive por pessoas que alegam ser pesquisadores para desembarcar na Queimada Grande”, diz o cientista.

Parte da Área de Proteção Ambiental Marinha do Litoral Centro, a ilha tem acesso restrito, com o desembarque permitido apenas a pesquisadores. No entanto, relatos de moradores e até mesmo a abordagem de cientistas por traficantes evidenciam a ocorrência de biopirataria no local.

Marques implantou um projeto para manutenção de uma população ex situ, fora do único hábitat natural, que hoje conta com cerca de 50 indivíduos no Laboratório de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan. O objetivo é manter um plantel em condições de repovoar a ilha, caso a população original seja extinta.

Para evitar uma tragédia do tipo, há um projeto que corre em paralelo com as pesquisas. Nele, Marques coordena um trabalho de educação ambiental com a população de Itanhaém, ponto no continente mais próximo da ilha.

Atualmente responsável pela área de difusão do projeto “Desafios para a conservação de anfíbios e répteis escamados, com ênfase na fauna brasileira: de informações básicas às ações de conservação”, o pesquisador organizou com uma equipe visitas às escolas do município litorâneo para falar sobre a jararaca-ilhoa.

Em 2015, inclusive, lançou em coautoria com a jornalista Jussara Goyano, sua esposa, o infantil “Jararaca, sim, com muito orgulho”.

Mais do que apenas falar do animal e de sua importância, porém, o pesquisador agora vai realizar um experimento científico com a participação dos estudantes. Refazendo um ensaio similar ao já realizado no atual projeto que conduz na ilha, os alunos vão construir réplicas de serpentes com massinha de modelar da cor da jararaca do continente (B. jararaca) e da cor da jararaca-ilhoa (B. insularis).

Em seguida, vão distribuir as réplicas por áreas verdes perto das escolas e os pesquisadores as espalharão na Ilha da Queimada Grande. Ao serem atacadas por predadores, as réplicas ficam com marcas de garras e bicos.

Em experimentos anteriores, as falsas cobras de uma mesma cor foram muito mais atacadas no continente do que na ilha, sugerindo que a cor amarelada (mais vistosa aos olhos humanos), os hábitos mais diurnos e arborícolas da ilhoa são possíveis porque não há tanta predação por aves na Queimada Grande, como enfrenta a serpente do continente. No experimento a ser realizado com o envolvimento dos alunos, pretende-se comparar a taxa de ataques de predadores sobre os dois padrões de cores na ilha e no continente para entender melhor por que a cor amarelada foi fixada na jararaca-ilhoa.

“Muitos moradores da região nem sabem que na ilha existe uma espécie de jararaca que só ocorre lá, enquanto poderiam ser porta-vozes na defesa da biodiversidade do local. Nosso objetivo é semear a mensagem da conservação nas crianças e, quem sabe, dependendo do tamanho da amostragem, até mesmo usar os resultados do experimento de que eles participarão em algum trabalho”, conta o pesquisador.

O livro A ilha das cobras: biologia, evolução e conservação da jararaca-ilhoa na Queimada Grande pode ser comprado pelo site: www.editoraponto-a.com/shop.

 

Fonte: FAPESP (por André Julião | Agência FAPESP)

 

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