| Em 04/02/2021

FAPESP lança Centro Brasileiro para o Desenvolvimento da Primeira Infância

Iniciativa tem a parceria da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e do Insper e o objetivo de desenvolver pesquisas para subsidiar políticas públicas (foto: Miguel Boayayan/Pesquisa FAPESP)

A FAPESP lançou ontem (03/02) o Centro Brasileiro para o Desenvolvimento na Primeira Infância (CPAPI), em parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e com sede no Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), em São Paulo.

O CPAPI – que irá operar nos mesmos moldes dos dez Centros de Pesquisa em Engenharia/Centros de Pesquisa Aplicada (CPE/CPA) já implantados pela FAPESP em parceria com empresas – terá como missão realizar pesquisa na área de mensuração do desenvolvimento da primeira infância (DPI), integrar dados de DPI registrados por diferentes fontes, organizar cursos e oficinas de e-learning para profissionais do setor público, estudantes do ensino médio ao doutorado sobre o impacto do DPI na evolução para a adolescência e vida adulta. Para tanto, contará, por um período de até dez anos, com recursos da ordem de R$ 16 milhões aportados pelos três parceiros.

“Concebido como um centro de pesquisa orientado à missão, o CPAPI utilizará a abordagem multidisciplinar para buscar solução para um problema tão complexo como o desenvolvimento na primeira infância”, disse Luiz Eugênio Mello, diretor científico da FAPESP, no evento de lançamento do CPAPI.

Coordenado por Naércio Menezes Filho, professor do Insper e da Universidade de São Paulo (USP), o Centro desenvolverá pesquisas que oferecerão subsídio para políticas públicas e para práticas profissionais voltadas ao desenvolvimento de crianças nos seis primeiros anos de vida.

“Ações preventivas adotadas nessa fase podem gerar impactos que vão acompanhar a criança ao longo de sua vida, não só na saúde, mas também nos aspectos comportamentais, desempenho escolar e futuro profissional”, afirmou Menezes Filho.

Uma das iniciativas do Centro será desenvolver uma plataforma para armazenar informações coletadas junto a um grupo de criança e integrar esses dados a registros administrativos de educação e saúde.

“Começaremos com um piloto em um município nos primeiros três anos, combinando os instrumentos já disponíveis, como a Caderneta de Saúde da Criança, com dados administrativos de saúde e educação”, adiantou Menezes. A plataforma de dados com essas informações estará disponível a todos os gestores do setor público que implementam os programas de visitas domiciliares no país.

O impacto das ações de monitoramento sobre o desenvolvimento infantil será avaliado por meio de metodologia que permite comparar as diferenças entre coortes nascidas antes e depois da intervenção no município com as do grupo de controle em outros municípios.

O Centro também irá coletar medidas biológicas, como padrão de sono, redes neurais funcionais, escores de risco poligênico e marcadores epigenéticos para examinar sua correlação com as medidas da Caderneta de Saúde da Criança e a evolução ao longo da vida.

Adicionalmente, serão implementadas intervenções complementares para melhorar as habilidades de pais e profissionais de diferentes setores que estão próximos das famílias, desde o pré-natal até os 6 anos de idade.

“Realizaremos, ainda, intervenções com os Agentes Comunitários de Saúde e avaliaremos os seus impactos nas medidas de desenvolvimento da primeira infância usando ensaios clínicos randomizados”, explicou Menezes.

Soluções baseadas em evidências

A Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, parceira do projeto, integra uma coalizão internacional formada por outras seis instituições que há dez anos desenvolve projetos com o objetivo de melhorar as condições de desenvolvimento da infância e de construir pontes entre o conhecimento científico e a sociedade. Integram essa coalizão a Fundação Bernard van Leer; o Center on the Developing Child, da Universidade Harvard; o David Rockfeller Center for Latin American Studies; o Insper; o Porticus América Latina e a Faculdade de Medicina da USP.

“A ciência resulta de práticas e de pesquisas consistentes e, com o apoio da FAPESP, poderemos aplicar esse saber para subsidiar políticas públicas”, afirmou Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, durante o evento de lançamento do Centro. Ela lembrou que a pesquisa contribuiu, por exemplo, para conectar o desenvolvimento cognitivo e o aprendizado nos anos 1940, e, nos anos 1970, também para articular esses fatores com teorias da psicologia, e que esse conhecimento embasou artigos da Constituição de 1988 que priorizaram a infância e, dois anos depois, também o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que definiu a diferença entre crianças e adolescentes.

O Insper integra a coalizão desde sua criação, há dez anos. “Fui convencido por Jack Shonkoff [diretor do Center on the Developing Child da Universidade Harvard, também presente no evento]”, disse Claudio Haddad, presidente do Conselho Deliberativo do Instituto. Na fase inicial, seminários, workshop e outras atividades envolvendo estudiosos, funcionários públicos e lideranças produziram ótimos resultados. “Agora, precisamos continuar neste esforço de envolver a gestão e políticas públicas que precisam seguir a ciência e desenvolver soluções baseadas em evidências.”

Para Roberta Ricardes, responsável pela área técnica da Saúde da Criança na Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, a constituição do CPAPI será “um marco”. O desenvolvimento infantil é uma preocupação desde o início dos anos 2000, quando o tema foi incorporado ao Plano Estadual da Saúde, ela afirmou. “Foi um desafio enorme implantar o programa em 101 municípios do Estado.” O programa, atualmente, conta também com a participação de profissionais da área da Educação e utiliza a Caderneta de Saúde da Criança para reunir informações de várias áreas envolvidas.

O evento de lançamento do CPAPI, que também contou com a presença de Sylvio Canuto, pró-reitor de Pesquisa da USP, foi seguido de um painel com o tema “Desafios brasileiros e perspectivas globais para o desenvolvimento infantil”, do qual participaram Marcia Castro e Aisha Yousafzai, da Universidade Harvard, e Flavio Cunha, da Rice University, nos Estados Unidos.

Assista o evento de lançamento e o painel: 

 

Fonte: FAPESP (Texto: Claudia Izique | Agência FAPESP)

 

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