| Em 03/05/2017

Pesquisadores desenvolvem medicamento para tratamento da sepse com substâncias da casca da laranja

Foto: Divulgação.

Um estudo está sendo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Sergipe (UFS) com algumas substâncias que estão presentes na casca da laranja (Citrus sp). O objetivo do estudo é produzir formulações farmacêuticas incorporados com nanotecnologia para o tratamento da sepse em neonatos, que é caracterizada por manifestações múltiplas, e que pode determinar disfunção ou falência de um ou mais órgãos ou mesmo a morte, sendo considerada uma das 10 principais causas de mortes de pacientes em Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

A sepse representa um grande desafio para os sistemas de saúde em todo o mundo em vários aspectos, especialmente no aspecto socioeconômico, sendo considerado um problema de saúde pública mundial. No Brasil, a sepse tem alta incidência e possui uma alta taxa de mortalidade, principalmente em crianças recém-nascidas e idosos. A sepse é uma resposta sistêmica do organismo a uma infecção, que pode ser causada por bactérias, vírus, fungos ou protozoários. Normalmente, o sistema imunológico entra em ação para atacar a infecção e impedi-la de se espalhar.

Segundo o professor da UFS e coordenador do projeto e do Laboratório de Neurociências e Ensaios Farmacológicos (LANEF), Lucindo José Quintans Júnior, a sepse é uma condição clínica que a depender do estágio que o paciente estiver, as chances de recuperação são baixas e em alguns casos, os medicamentos hoje disponíveis no mercado não mostram eficácia no tratamento.

Como alternativa de tratamento, um estudo está sendo realizado com a casca de laranja, rica em compostos polifenólicos tais como os flavonoides (potentes antioxidantes), para a criação de um medicamento menos tóxico e eficaz no tratamento da sepse. Segundo o professor Lucindo Quintans, Sergipe é um estado rico em produtos naturais com ação farmacológica muito importante e ainda pouco explorados, como é o caso da laranja, onde Sergipe é um dos maiores produtores brasileiros, ocupando a quarta posição no ranking nacional de produção de laranja. As cascas e o bagaço da laranja são basicamente inexplorados, mesmo sendo abundantes em flavonoides. O custo do isolamento dos compostos polifenólicos e a falta de estudos contribuem para o incipiente uso da casca e do bagaço da laranja em Sergipe.

“O projeto trabalha com algumas substâncias que estão presentes na casca da laranja, principalmente os flavonoides que são substâncias antioxidantes e que podem possuir ações neuroprotetoras, cardioprotetora, anti-inflamatória e analgésica”, explica o professor.

O professor Lucindo ainda destaca que o estudo é muito importante, pois a sepse já foi caracterizada como um problema de saúde pública mundial e especialmente o Brasil que registra um crescente número de casos. A incidência da sepse grave aumentou 91,3% nos últimos 10 anos.

Estudo
A bolsista de pós-doutorado e doutora em Bioquímica em pela UFGRS, Luana Heimfarth, também faz parte do projeto, explica que a proposta é aproveitar um insumo que seria destinado ao lixo, como é o caso da casca da laranja, e transformar num benefício para população.

Ela conta que o principal objetivo do projeto é criar, a partir de substâncias presentes na casca da laranja, um medicamento menos tóxico e mais seguro, que seja capaz de auxiliar no tratamento da sepse, principalmente a neonatal, para assim, diminuir a mortalidade e as sequelas decorrentes dessa doença.

“Queremos desenvolver uma formulação que tenha baixa toxidade, principalmente, para bebês recém-nascidos e que venha diminuir a mortalidade e também diminuir o que a gente chama de morbidade. Muitas vezes a criança sobrevive, mas fica alguma sequela como um problema cognitivo, na área de aprendizado, na memória e dificuldade na escola”.

O professor Lucindo Quintans ainda explica que a formulação que está sendo desenvolvida não terá como foco principal o efeito antimicrobiano (uma das principais fontes de quadros de sepse), mas o uso seria depois que a sepse já está instalada, a fim de tentar reverter o processo inflamatório que ocorre.

“Aliando à tecnologia farmacêutica a nanotecnologia a gente está incorporando estes produtos naturais em formulações farmacêuticas, tentando minimizar esse processo inflamatório para que o próprio sistema imunológico do paciente possa contribuir para recuperá-lo, podendo assim ser utilizada como adjuvante, ou seja, junto com outras medicações que já existem ou como medicamento principal” explica o professor.

O projeto está na fase inicial onde estão sendo desenvolvidas formulações que estão na fase de caracterização e busca pela melhor dose efetiva. A parte pré-clínica, que é o estudo realizado em animais de experimentação, já está começando a ser realizado e até o final do ano a expectativa é ter o resultado da primeira etapa.

“Nos testes preliminares, os resultados são promissores e a gente já conseguiu inibir boa parte do processo inflamatório, mas ainda numa fase preliminar, mas o estudo está numa fase muito promissora já que os resultados alcançados até o momento estão em conformidade com nossa hipótese inicial”, ressalta Lucindo.

Importância do Incentivo
O projeto é fruto do programa de pós-doutorado desenvolvido pela Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (Fapitec/SE), que concede auxílio financeiro e uma bolsa. O professor Lucindo destaca que a Fapitec/SE é essencial para fomentar esse tipo de pesquisa, que tem uma aplicação direta para a população e a possibilidade de geração de recursos, caso o medicamento seja aprovado, e formação de recursos humanos nas áreas que auxiliam no desenvolvimento do Estado.

“Se você imaginar que se não houvesse o aporte da Fapitec/SE esse projeto não poderia ser realizado, deixando de valorizar a ciência do Estado. Iniciando esse projeto junto com a Fapitec eu tenho a possibilidade de aprovar com outros órgãos de fora de Sergipe, como, por exemplo, o CNPq, a CAPES e a FINEP ou órgãos de fomentos internacionais. Então, acredito que o fomento da Fapitec foi essencial para o desenvolvimento desse projeto, para formação de recursos humanos e a consolidação da ciência e tecnologia no Estado”.

Fonte: Comunicação Fapitec/SE.

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