| Em 21/08/2024

Projetos incentivam a participação feminina nas carreiras STEM

Estudantes reunidas durante a abertura do projeto ‘Ciência, coisa de menina’, em agosto de 2023 (Créditos: Renata Piacentini/Unifal)

O Dia Internacional da Igualdade Feminina, comemorado no próximo 26 de agosto, relembra as conquistas e suscita debates importantes para reflexão acerca dos desafios para o alcance da equidade de gênero no mundo. Segundo o Relatório Global sobre a Lacuna de Gênero – 2024 do Fórum Econômico Mundial, o Brasil encontra-se na 70° posição no ranking que compara o progresso de 146 países, considerando quatro dimensões: oportunidades econômicas, saúde, liderança política e educação.

Esta discussão revela alguns desafios pela frente. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), 33,3% é a porcentagem média global de pesquisadoras nas ciências. Número que fica ainda mais expressivo quando falamos das áreas de conhecimento que envolvem ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, na sigla em inglês) – no total, ainda segundo a Unesco, as mulheres são, nesse contexto, 35% dos estudantes em todo o mundo.

A subrepresentatividade das mulheres nas áreas STEM, segundo o Fórum Econômico Mundial, significa uma “dupla desvantagem em relação as transições tecnológicas e de força de trabalho”. As mulheres passam a ocupar empregos de menor crescimento e remuneração, sendo mais suscetíveis a serem afetadas por mudanças negativas a curto prazo. As mulheres ainda são um quarto dos líderes em áreas não STEM, e um décimo nas áreas STEM, de acordo com dados do LinkedIn.

O que explica esses números? O que ainda distancia as meninas e mulheres de seguirem as carreiras nas chamadas “áreas duras”? O relatório da Associação Americana de Mulheres Universitárias (AAUW) elencou que entre as principais razões estão: estereótipos de gênero –associação equivocada de que determinado gênero tem ou não habilidades inatas a uma determinada função; cultura dominada por homens – quando a cultura é pouco inclusiva ou flexível para o acolhimento de mulheres e suas necessidades; ansiedade matemática – a aversão e medo relativos a atividades que envolvam a matemática e a escassez de exemplos – poucos exemplos de mulheres em papeis STEM na mídia e cultura popular em que as meninas possam se inspirar.  

Ciência, coisa de menina

Estudantes participam da oficina sobre rotas fermentativas.
Estudantes participam da oficina sobre rotas fermentativas. (Créditos: Renata Piacentini / UNIFAL)

Renata Piacentini Rodriguez coordena o projeto de divulgação científica Ciência, coisa de menina – Ciência para alunas de ensino médio e ingressantes da Unifal-MG, que busca romper essas barreiras ainda na fase escolar. Piacentini explica que as meninas se afastam das áreas exatas no decorrer da sua trajetória.  

Para a farmacêutica e bioquímica, padecemos por uma cultura em que o papel da mulher está associado a um lugar de cuidado e movida pela ideia de que as mulheres são menos propensas a carreiras associadas às áreas duras. As meninas ainda se deparam com o desafio da representatividade carecendo de exemplos – outras figuras femininas que inspirem a escolha pelas áreas STEM.

Por isso, o projeto oferece oficinas e palestras para meninas estudantes do ensino médio da rede pública e particular de Poços de Caldas. Em um ano e meio de projeto, foram alcançadas 70 estudantes. Durante os eventos que ocorrem no campus da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), são realizados desafios e premiações. O projeto já promoveu oficinas sobre fermentação, física, computação e ecologia. Durante as dinâmicas, as estudantes são orientadas por tutoras representadas por estudantes da Unifal e mentoradas por pesquisadoras experientes das áreas STEM.

Atualmente, o “Ciência, coisa de menina” conta com apoio da FAPEMIG, por meio da Chamada 005/2022 – Apoio a Ações de Divulgação da Ciência, da Tecnologia e da Inovação, que destinou R$ 6 milhões a propostas que buscaram promover a disseminação e a democratização de informações sobre a produção do conhecimento científico e tecnológico no Estado de Minas Gerais.  

Um lugar no pódio

Formação da Equipe Hybrid Fórmula-e. (Créditos: Fábio de Jesus/UFLA)

Além de ter exemplos para espelharem-se, as meninas precisam sentir-se e acolhidas em iniciativas que incentivem a sua participação. Este é caso da Hybrid Fórmula-e, a equipe de competição da Universidade Federal de Lavras (UFLA), fundada em 2018, sob a coordenação do professor Henrique Leandro, da Engenharia Mecânica, e do professor Fábio Domingues de Jesus, da Engenharia de Controle e Automação.  

Seu objetivo tem sido reunir os melhores estudantes de graduação para projetar e construir um veículo elétrico de competição para participar da Fórmula SAE Brasil. Na última edição da SAE Brasil & Ballard Student H2 Challenge, a equipe esteve em 4º lugar, além de receber dois prêmios importantes: prêmio de realização (equipe com maior evolução) e equipe com maior participação de mulheres, pelo segundo ano consecutivo.  

Segundo Fábio de Jesus, no início de cada semestre, a equipe apresenta o projeto para as calouras dos cursos de Engenharia Mecânica e de Engenharia de Controle e Automação. “Logo na apresentação, muitas já se identificam e se veem capaz de   desenvolver seus sonhos, além de aumentar a autoestima, percebem que são capazes de realizar os cursos de engenharia e reafirmam que escolheram a profissão correta”, compartilha.

“Para a Engenharia de Controle e Automação, a inclusão de mulheres traz uma diversidade de perspectivas e abordagens para a resolução de problemas. Isso pode levar a soluções mais inovadoras e eficazes, já que diferentes pontos de vista são considerados”, conta Fábio.

Luiza Goulart Silva (Ufla) é capitã da equipe. Ela conta que integrou o grupo no início de 2023 ao ver na iniciativa a oportunidade de colocar em prática os conhecimentos teóricos e preparar-se para lidar com demandas técnicas, mas também para desenvolver a capacidade de trabalhar em equipe e responder bem sob pressão. Além da prestar apoio à equipe nas demandas do dia a dia, ela também está à frente do projeto de programação do código de controle da célula a combustível.

“Infelizmente, mesmo com muitos avanços nos últimos anos, ainda há um estereótipo de que engenharia é para os homens e não para as mulheres, e isso acaba afastando-as dos cursos. O incentivo de mulheres para ingressarem em Engenharia de Controle e Automação é realizado de diversas formas, desde trabalhos com equipes de competição, como a Hydrid, como palestras e eventos somente com mulheres”, compartilha Luiza.

O Projeto, desenvolvimento e construção de um veículo elétrico do tipo Fórmula recebe apoio da FAPEMIG por meio da Chamada 006/2019 – Programa Santos Dumont. A iniciativa destinou R$ 1,6 milhão a projetos de iniciação tecnológica, que permitiam ao discente aplicar/testar as teorias acadêmicas por meio da execução de projetos de cunho prático e possibilitar a participação das equipes discentes em competições tecnológicas de caráter educacional.

A Hybrid Fórmula-e segue com os olhos no pódio. A equipe busca constantemente aprimorar suas tecnologias e conhecimentos, com a visão de se posicionar entre as três melhores equipes nacionais e as vinte melhores do mundo. “O nosso foco para 2025 é estar no pódio! Para isso, temos como metas desenvolver um centro de pesquisa do hidrogênio, consolidar a imagem da equipe e colocar o carro para funcionar”, garante Luiza. 

Fonte: FAPEMIG (Por: Júlia Rodrigues/ Ascom Fapemig)

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