| Em 17/06/2019

Pesquisa realizada na Uerj apresenta o “DNA” isotópico da lama que contaminou o Rio Doce

Foto: Divulgação/Uerj.

Resultados de pesquisa coordenada pelo geólogo Claudio Valeriano, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), publicados em maio passado na revista acadêmica Applied Geochemistry, pela primeira vez apresentam o “DNA” isotópico da lama que contaminou a bacia do Rio Doce em decorrência do rompimento da Barragem do Fundão, propriedade da Samarco Mineração, controlada pela Vale e pela BHP Billiton, ocorrido em Mariana (MG), em novembro de 2015. Segundo o pesquisador, o desastre lançou mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro no ambiente, contaminando toda a extensão do Rio Doce e ocasionando óbitos. Todo o povoado de Bento Rodrigues foi dizimado, a captação de água para abastecimento de várias localidades foi proibida, houve danos irreversíveis à pesca artesanal e à agricultura, gerando enorme impacto socioeconômico e ambiental. ”A mineradora sempre colocou em dúvida se os metais pesados encontrados na bacia do Rio Doce eram dos rejeitos da lama da barragem. Isto porque, realmente, o rio já estava poluído e a lama se misturou a outros sedimentos. Os novos resultados poderão resolver a questão no futuro, a depender dos resultados isotópicos dos sedimentos que estão sendo coletados na região de Abrolhos”, explica o pesquisador.

O estudo foi conduzido no Laboratório de Geocronologia e Isótopos Radiogênicos (Lagir), da Faculdade de Geologia, em colaboração com o professor Heitor Evangelista, do Instituto de Biologia (Ibrag), ambos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), e com pesquisadores do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) e da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Cientista do Nosso Estado, da Faperj, Valeriano coletou amostras da lama depositada às margens do córrego Santarém e dos rios Gualaxo do Norte e Carmo, afluentes do Rio Doce, por 80 quilômetros de extensão a partir do local do acidente, passando pelo povoado de Bento Rodrigues até a localidade de Barra Longa.

Segundo o pesquisador, os equipamentos do Lagir mediram a composição isotópica de neodímio (Nd) e estrôncio (Sr) existente na lama com os rejeitos da mineração da Samarco, que possuem uma assinatura isotópica peculiar, com o mesmo “DNA” do minério de ferro utilizado pela mineradora. “A composição isotópica da lama tem especial utilidade no rastreamento deste poluente, que vem preocupando ambientalistas pela sua potencial ameaça aos ecossistemas marinhos adjacentes à foz do Rio Doce, especialmente devido à presença de metais pesados como mercúrio e arsênico”, garante Valeriano. O estudo passou a ser uma importante ferramenta para detectar a presença da lama, a partir de Barra Longa até a foz do Rio Doce, e novas amostragens e análises estão em andamento.

Não à toa, os primeiros resultados da investigação chamaram a atenção do também pesquisador da Uerj Heitor Evangelista, do Laboratório de Radioecologia e Mudanças Globais (Laramg). Ele coordenou uma pesquisa no Parque Nacional de Abrolhos, localizado a 250 km da foz do Rio Doce, e descobriu que o rompimento da barragem de Mariana causou danos nos corais. Metais pesados, como zinco e cobre, foram encontrados em amostras de corais recolhidas no arquipélago em 2017 e 2018, deixando uma espécie de rastro químico, mesmo após a lama ter se dissipado. Ou seja, segundo o professor, não foi lama que chegou a Abrolhos, mas os metais pesados que estavam presentes nela. O pesquisador explica que os corais são organismos extremamente sensíveis a qualquer material que esteja na água, e os metais encontrados no interior dos corais foram os mesmos encontrados em alta densidade no rastro da lama.

A pesquisa também deverá dar uma importante contribuição para a avaliação dos estragos causados pelo rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, propriedade da Vale, em Brumadinho, em janeiro deste ano. O vazamento de 13 milhões de metros cúbicos de sedimentos provocou o maior acidente de trabalho do Brasil:  soterrou mais de 250 pessoas (245 mortos e 25 desaparecidos, de acordo com os números oficiais), principalmente funcionários e colaboradores da Vale. A tragédia também ocasionou enormes danos ambientais no leito e às margens do Rio Paraopeba e existe a ameaça de os sedimentos atingirem o Rio São Francisco. “Estou muito otimista, pois acredito que este trabalho poderá ser usado como referência para estudos em Brumadinho”, diz Valeriano, que atualmente está na Áustria, fazendo um estágio sênior, e retornará ao Brasil em outubro.

O pesquisador conta que desde o início dos anos 2000, quando foi fazer pós-doutorado no Canadá, pensava em criar o Lagir, o que se concretizou em 2008, quando foi selecionado em edital da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Primeiro laboratório de Geocronologia isotópica do Estado do Rio de Janeiro e o quinto do Brasil, o Lagir oferece suporte analítico a projetos de pesquisa interna e externas nas áreas de saúde, recursos minerais, petróleo/gás, meio ambiente e geologia por meio de metodologias de datação de rochas e minerais e de geoquímica de isótopos radiogênicos. O laboratório iniciou suas pesquisas com rochas duras e vem diversificando e ampliando os tipos de amostras analisadas, como sedimentos, aerossol e até fósseis de dentes humanos.

Em 2016, seis meses após o acidente de Mariana, aproveitando que estava em uma banca de mestrado em Ouro Preto, o pesquisador resolveu alugar um carro e fazer as coletas de amostras da lama disseminada pelo rompimento da barragem de Mariana. A partir de 2017, obteve apoio da Faperj, por meio do programa Cientista do Nosso Estado, para o projeto “Reservatórios Isotópicos na da margem continental Sudeste do Brasil: investigando os padrões de fornecimento sedimentar e dispersão ao longo das bacias sedimentares antigas e atuais”, que provê recursos financeiros para o estudo de caso do acidente ocorrido em Mariana.

Os resultados preliminares, apresentados em Brasília, chamaram a atenção do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio), levando a equipe da Uerj a passar a integrar a Câmara Técnica de Monitoramento Ambiental do Ecossistemas Marinhos. Com o objetivo de mitigar e compensar os danos causados pelo acidente, a partir da assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) pela Samarco, foi criada a Fundação Renova, que administra recursos da ordem de R$ 2 bilhões. A Fundação reúne cerca de sete mil técnicos e especialistas de diversas áreas de conhecimento, dezenas de entidades com atuação socioambiental e de conhecimento científico do Brasil e do mundo. Valeriano diz que dezenas de pesquisadores de diversas áreas, incluindo biologia e sociologia, vêm dosando o teor de arsênico e mercúrio presentes nos peixes e frutos do mar, pois o acidente em Mariana teve consequências sérias e duradouras. “Ano após ano, a pluma que chega ao oceano após o período de cheia dos rios leva mais veneno”, preocupa-se o pesquisador, que não vê a hora de retomar suas pesquisas.

Fonte: Comunicação Faperj (texto: Paula Guatimosim).

Leia também

Em 30/07/2026

CONFAP celebra 20 anos em solenidade especial durante a 78ª Reunião Anual da SBPC

O Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP) celebrou, nesta quarta-feira (29), seus 20 anos de atuação em uma solenidade especial realizada durante a programação da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), no Campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ).  O evento reuniu […]

Em 30/07/2026

Análise de diamante superprofundo revela como água pode chegar mais fundo ao interior da Terra

Dentro de um diamante de apenas 3 milímetros de comprimento, em uma impureza microscópica, uma equipe de pesquisadores brasileiros descobriu a primeira evidência direta de que a goethita, o mineral responsável pela cor marrom dos solos, pode resistir a pressões e temperaturas extremas até chegar ao interior do planeta. A goethita é formada no solo […]

Em 29/07/2026

Novo centro de pesquisa usará relógios e anéis inteligentes para detecção precoce de doenças

Os relógios e anéis inteligentes costumam ser vistos apenas como acessórios para contar passos, calorias ou monitorar o sono, mas no Viva Bem: inteligência artificial para saúde e bem-estar eles são considerados peças-chave para o avanço da medicina preventiva. O novo Centro de Pesquisa Aplicada (CPA), fruto de uma parceria entre FAPESP, Unicamp e Samsung, vai usar […]

Em 28/07/2026

Estudo investiga os caminhos para o tratamento da osteoartrite

A osteoartrite é uma doença degenerativa crônica que causa o desgaste progressivo da cartilagem que reveste as articulações. Afeta principalmente joelhos, quadris, mãos e coluna, provocando dor mecânica, rigidez e limitação de movimentos, especialmente em idosos e pessoas obesas. Apesar dos avanços da Medicina, os tratamentos farmacológicos atualmente disponíveis apresentam eficácia limitada, e nem sempre […]

Em 27/07/2026

Cobertura do 72º Fórum Nacional CONFAP e da 78ª Reunião Anual da SBPC

O Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP) e as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) participam, entre os dias 26 de julho a 1º de agosto, da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na Universidade Federal Fluminense (UFF), Campus Gragoatá, em Niterói (RJ). Em meio […]

Em 23/07/2026

Estudo propõe novo método para remoção de coral invasor no Brasil

Pesquisadores paulistas testaram com sucesso uma possível nova arma de combate ao coral-sol, uma espécie invasora que ameaça a biodiversidade marinha em diversos pontos da costa brasileira. Armados com um jato de ar comprimido, eles removeram o tecido vivo de colônias de coral-sol no arquipélago de Alcatrazes, uma área protegida no litoral norte de São […]

Em 21/07/2026

Divulgado o resultado da chamada Marie Skłodowska-Curie (Intercâmbio de Pessoal) 2026

As Ações Marie Skłodowska-Curie (MSCA) divulgaram, nesta terça-feira (21/07), o resultado da chamada Marie Skłodowska-Curie (Intercâmbio de Pessoal) 2026, iniciativa voltada ao fortalecimento da cooperação internacional em pesquisa e inovação. Por meio desta chamada, a Comissão Europeia destinará 97,9 milhões de euros para financiar 84 projetos, com o objetivo de fortalecer a colaboração internacional, intersetorial […]

Em 17/07/2026

CONFAP e FAPs levam programação especial à 78ª Reunião Anual da SBPC, em Niterói

O Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP) e as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) participarão da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que será realizada entre os dias 26 de julho e 1º de agosto de 2026, na Universidade Federal Fluminense (UFF), Campus Gragoatá, […]

Em 13/07/2026

CONFAP e CDTI lançam chamada 2026-2027 para apoiar projetos colaborativos de pesquisa e inovação tecnológica entre instituições do Brasil e da Espanha

O Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP) em parceria com o Centro para o Desenvolvimento Tecnológico e a Inovação da Espanha (CDTI) lançou, nesta segunda-feira (13/07), a chamada CONFAP & CDTI 2026-2027, destinada ao apoio de projetos colaborativos de pesquisa e inovação tecnológica entre instituições do Brasil e da Espanha.  A […]

Em 07/07/2026

Novo centro de pesquisa usará relógios e anéis inteligentes para detecção precoce de doenças

Os relógios e anéis inteligentes costumam ser vistos apenas como acessórios para contar passos, calorias ou monitorar o sono, mas no Viva Bem: inteligência artificial para saúde e bem-estar eles são considerados peças-chave para o avanço da medicina preventiva. O novo Centro de Pesquisa Aplicada (CPA), fruto de uma parceria entre FAPESP, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) […]