| Em 22/07/2020

Estudos da Fiocruz Rondônia sobre envenenamento por serpentes são reconhecidos em periódicos internacionais

(Foto: Edcarlos Carvalho)

Dois importantes estudos do Laboratório de Imunologia Celular Aplicada à Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz RO), tiveram reconhecimento da comunidade científica internacional com publicações de resultados em revistas científicas especializadas. Os dois trabalhos têm em comum o interesse em investigar os mecanismos envolvidos na resposta imunológica aos processos inflamatórios provocados por envenenamento por serpentes.

Um dos estudos foi publicado no periódico Scientific Reports, pertencente ao grupo Nature, baseou-se nos efeitos da enzima L-aminoácido oxidase (Cr-LAAO) em processos inflamatórios decorrentes de acidentes ofídicos. Pela primeira vez, foi mostrada a expressão gênica de vários mediadores pró-inflamatórios que são ativados mediante a ação dessa enzima.

“Os efeitos da Cr-LAAO já vêm sendo estudados há bastante tempo, mas, de forma inédita, evidenciamos a participação de uma enzima intracelular importante em processos inflamatórios, complementando os estudos sobre a resposta do sistema imune frente ao envenenamento por serpentes”, explica Mauro Paloschi, autor da pesquisa e doutorando em Biologia Experimental pelo Programa de Pós-graduação em Biologia Experimental (PPGBIOEXP) da Universidade Federal de Rondônia (Unir/Fiocruz RO).

O estudo também identificou que a enzima Cr-LAAO atua na formação de corpúsculos lipídicos, que são organelas recém-descobertas responsáveis por significativos eventos moleculares durante a inflamação, inclusive para liberação de prostaglandina E2 (uma das moléculas essenciais no processo de dor). As prostaglandinas estão envolvidas em diferentes processos fisiológicos e patológicos, incluindo vasodilatação ou vasoconstrição (contração ou relaxamento da musculatura), além de mediar a resposta do sistema imunológico frente a um agente agressor.

Uma das principais funções das prostaglandinas é a hiperalgesia, ou seja, uma sensibilidade à dor exacerbada, porque elas aumentam a sensibilização de receptores da dor. “Quando a sua produção é aumentada, ocorre maior sensibilidade à dor e à febre, além de incrementar a resposta inflamatória, como acontece no envenenamento por serpentes, portanto esse mecanismo que leva ao aumento da liberação de prostaglandinas é uma chave para entender todo o complexo da resposta imune ao envenenamento”, pontua o pesquisador, que teve o projeto aprovado em editais de financiamento da Fundação Rondônia de Amparo ao Desenvolvimento das Ações Científicas e Tecnológicas e à Pesquisa (Fapero/Capes/CNPq), nos anos de 2016 e 2019.

(Foto: Edcarlos Carvalho)

Em outro estudo, também realizado pelo Laboratório de Imunologia Celular Aplicada à Saúde, e publicado no periódico Toxinsbuscou-se compreender como ocorre o mecanismo de envenenamento no tecido muscular. Por meio da técnica de Western Blot, foi possível chegar à detecção das proteínas formadoras do inflamassoma, um complexo proteico existente no interior das células de defesa, que atua diretamente na produção de moléculas pró-inflamatórias, em casos de infecção por microorganismos e, também, nos envenenamentos ofídicos.

Além disso, a técnica utilizada no estudo identificou a liberação de interleucina 1-Beta, uma importante molécula resultante da ativação do complexo proteico. As imagens processadas em microscopia intravital (imagens de animais ainda vivos) mostram a presença de células imunológicas no local afetado pelo envenenamento e que podem estar relacionadas com a ativação do inflamassoma.

Charles Nunes Boeno, doutorando pelo PPGBIOEXP e autor da pesquisa, esclarece que “embora o estudo tenha sido realizado com modelos experimentais de camundongos, pode-se dizer que os dados obtidos com a pesquisa apresentam-se como um grande avanço na investigação de processos inflamatórios observados no envenenamento por serpentes”. O estudo foi realizado por meio de financiamento do Programa Pró-Rondônia (Fapero/Capes).

Os dois trabalhos foram coordenados pela pesquisadora em Saúde Pública, Juliana Pavan Zuliani, chefe do Laboratório de Imunologia Celular Aplicada à Saúde. De acordo com a pesquisadora “os resultados apresentados, até agora, são extremamente relevantes para o entendimento dos efeitos provocados à saúde, em condições de envenenamento por serpentes, uma vez que acidentes ofídicos afetam, anualmente, milhares de pessoas em todo o mundo, e estão inseridos dentro do quadro de doenças negligenciadas da Organização Mundial da Saúde (OMS)”.

 

Fonte: FAPERO (Texto: José Gadelha)

 

> Siga o Confap nas Redes Sociais:   

FACEBOOK   /   LINKEDIN   /   TWITTER    /    INSTAGRAM   /   YOUTUBE

Leia também

Em 25/02/2026

Governo de Santa Catarina e UFSC inauguram o primeiro laboratório da Rede Catarinense de Robótica, com investimento de R$ 2,5 milhões

A consolidação de uma infraestrutura científica de alto nível marca um novo momento para a robótica no estado, com a criação de uma rede que integra diferentes regiões, fortalece a pesquisa de ponta e já demonstra potencial de aplicação em ações conjuntas com forças de segurança e órgãos de fiscalização. Em Santa Catarina, essa iniciativa […]

Em 25/02/2026

Governo do Pará financia criação da primeira estação de recarga para carros elétricos feita 100% de fibras amazônicas

Um projeto inovador e sustentável, voltado à bioeconomia amazônica, utiliza insumos naturais vegetais da região em 100% de sua estrutura. Com financiamento do governo do Estado, por meio da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), a proposta contemplada no âmbito do programa Centelha II, substitui materiais sintéticos e metálicos, usualmente empregados no […]

Em 25/02/2026

Facepe adere a acordo com o Belmont Forum e amplia participação de Pernambuco em redes internacionais de pesquisa oceânica

A Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (Facepe) aderiu a um Acordo de Cooperação Técnica com o Belmont Forum, ampliando a inserção de Pernambuco em redes internacionais de pesquisa voltadas a desafios globais estratégicos. Por meio desse acordo, a Facepe participa da chamada Ocean II – Towards the Ocean We […]

Em 25/02/2026

FAPEMA lança edição especial da Revista Inovação

Está no ar a edição especial da Revista Inovação dedicada à divulgação científica e à popularização da ciência produzida no estado do Maranhão. O periódico, produzido pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), reúne 40 reportagens que traduzem pesquisas, projetos e trajetórias de pesquisadores vencedores do Prêmio […]