| Em 27/03/2020

Estudo revela potencial antiglicêmico de pólen produzido por espécie de abelha nativa do Amazonas

“Pólen de Pote” produzido por uma espécie de abelha sem ferrão. (Foto: Érico Xavier)

Um estudo realizado com um modelo experimental animal comprovou que a ingestão de “pólen de pote” produzido por Melipona seminigra, uma espécie de abelha sem ferrão nativa do Amazonas, reduziu significativamente a glicemia de jejum de camundongos alimentados com uma dieta rica em gordura e açúcar.

Com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), a pesquisa científica analisou a composição química de amostras de “pólen de pote” e o efeito da ingestão desse composto na modulação da microbiota intestinal de camundongos.

A pesquisa intitulada “Caracterização química e efeito da ingestão do pólen de pote na microbiota intestinal de camundongos obesos” fez parte da tese da professora Kemilla Rebelo, do curso de nutrição da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), e foi desenvolvida no Laboratório de Nutrição e Metabolismo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp-SP), sob orientação do professor Dr. Mário Maróstica Jr, em parceria com o Laboratório de Genômica e Biologia Molecular da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, e amparada pelo Programa de Apoio à Formação de Recursos Humanos Pós-Graduados para o Interior do Estado do Amazonas (RH-Interiorização–Fluxo Contínuo), edital Nº 003/2015.

‘Pólen de Pote’ 

Na produção do pólen de pote, conhecido popularmente como “samburá”, as abelhas sem ferrão coletam os grãos de pólen das flores formando uma carga polínica, que é transportada até a colmeia e, depositada em potes de cerume onde recebem a adição de substâncias presentes no estômago das abelhas (enzimas, néctar e microrganismos), que favorecem um processo natural de fermentação.

Os potes de cerume (uma mistura de cera com resina vegetal) são construídos pelas abelhas sem ferrão, dentro das colmeias, e servem como depósitos de alimentos (mel e pólen) desses insetos. Por isso, o termo “pólen de pote” é adotado para nomear esse produto.

Valor nutritivo

As amostras de “pólen de pote” foram coletadas em quatro localidades diferentes do Amazonas: Meliponário do Grupo de Pesquisas em Abelhas (GPA) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Ramal do Brasileirinho, Iranduba e Boa Vista do Ramos. Os nutrientes majoritários encontrados nessas amostras foram as proteínas e as fibras dietéticas insolúveis.

A coordenadora do projeto, Kemilla Rebelo, destaca que todas as amostras apresentaram alta quantidade de aminoácidos essenciais, quando comparadas a outros alimentos, como o leite e os ovos de galinha, tidos como as principais fontes dessas substâncias.

Coordenadora do projeto, Professora Kemilla Rebelo. (Foto: Érico Xavier)

A relação de ácidos graxos poli-insaturados com os saturados, encontrada na totalidade das amostras, também foi alta em comparação a outros alimentos, como algumas espécies de peixes de água doce e salgada e, de diferentes cultivares de azeitonas. Uma dieta com alto índice dessas substâncias é recomendada para prevenir doenças cardíacas.

“O “pólen de pote” também é rico em substâncias bioativas como os polifenóis e carotenoides que são compostos com propriedades anti-inflamatória e antioxidante. Diversos estudos já demostraram que alimentos ricos nessas substâncias apresentam efeitos protetores capazes de prevenir ou minimizar os efeitos nocivos dos radicais livres, compostos relacionados ao desenvolvimento de diversas doenças”, disse Kemilla.

Metodologia

Para avaliar o efeito da ingestão do “pólen de pote” in vivo 36 camundongos da linhagem C57BL/6J foram divididos em três grupos experimentais. Um deles foi alimentado com uma dieta com baixo teor de gordura e açúcar, e os outros dois receberam dieta com alto teor de gordura e açúcar durante duas semanas para a indução da obesidade.

Após este período, o terceiro grupo passou a receber uma dieta com alto teor de açúcar e gordura contendo 0,1% de “pólen de pote” por mais 10 semanas. As dietas foram equilibradas para fornecer o mesmo conteúdo energético e, o “pólen de pote” foi a única fonte de polifenóis da dieta.

Os camundongos obesos tratados com o “pólen de pote” apresentaram diminuição significativa da glicemia de jejum, melhora na constante de decaimento da glicose e, uma tendência a aumentar a secreção de insulina plasmática estimulada por glicose.

A modulação da microbiota intestinal consiste na alteração da composição de microrganismos presentes no intestino. Essa modulação depende de diversos fatores, entre eles a dieta, e pode ser benéfica à saúde ou não. Atualmente, estão sendo realizadas várias pesquisas com o intuito de conhecer como modular beneficamente a microbiota, ou seja, como manipular as populações bacterianas para proporcionar efeitos benéficos à saúde.

Melipona seminigra espécie de abelha sem ferrão nativa do Amazonas. (Foto: Érico Xavier)

Importância da pesquisa 

O “polén de pote” é um produto oriundo da Meliponicultura, atividade econômica que consiste na criação racional de abelhas sem ferrão. O conhecimento do valor nutritivo e do potencial efeito benéfico da ingestão deste alimento para a saúde pode impulsionar o desenvolvimento da economia regional e ao mesmo tempo contribuir para a preservação do bioma Amazônia, uma vez que a Meliponicultura é uma atividade ecologicamente sustentável e socialmente justa, com potencial para substituir atividades exploratórias relacionadas ao desmatamento.

RH-Interiorização 

O Programa RH-Interiorização foi substituído pelo Programa de Apoio à Formação de Recursos Humanos para o Interior do Estado do Amazonas (Proint). O objetivo é conceder bolsas de mestrado e doutorado a profissionais graduados residentes no interior do estado do Amazonas há no mínimo 4 (quatro) anos ou que mantenham relação de trabalho ou emprego com instituição municipal, estadual ou federal sediada ou com unidade permanente no interior do Estado, interessados em realizar curso de pós-graduação stricto sensu, em programa credenciado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), em instituições do Amazonas localizadas em município diferente de onde reside o candidato.

 

Fonte:  Fapeam  (Texto: Helen de Melo / Fotos: Érico Xavier)

 

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