| Em 16/01/2016

Novo método poderá melhorar o diagnóstico do câncer de tireoide

Pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Oncogenômica (INCITO), do A.C. Camargo Cancer Center, identificaram um conjunto de genes que servem de biomarcadores para o diagnóstico da forma mais prevalente de câncer tireoidiano.

A descoberta possibilitou a criação de um método preciso, barato e rápido para identificar o carcinoma papilífero de tireoide, para o qual já foi solicitada a patente.

Os resultados do estudo, realizado durante o doutorado de Mateus de Camargo Barros Filho, foram divulgados no The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism.

A pesquisa foi orientada por Luiz Paulo Kowalski, coordenador do INCITO – um dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) apoiados pela FAPESP em São Paulo. Silvia Rogatto, membro do INCT e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu, foi coorientadora do projeto.

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“A biópsia pela punção aspirativa por agulha fina é hoje o principal método para determinar se um nódulo tireoidiano é benigno ou maligno. Mas em torno de 20% dos casos o resultado é indeterminado e, por precaução, o paciente é submetido à cirurgia para retirada da glândula. Análises posteriores, no entanto, revelam que em 60% dos pacientes com diagnóstico indeterminado a cirurgia seria desnecessária”, contou Rogatto.

Embora seja possível fazer a reposição artificial dos hormônios produzidos pela tireoide, comentou Rogatto, a retirada cirúrgica da glândula costuma trazer efeitos adversos e requer tratamento para o resto da vida. “Em alguns casos, a paratireoide deixa de funcionar e o paciente torna-se dependente de suplemento de cálcio. Ocorre um descontrole na absorção de fósforo, magnésio e outros minerais importantes para o organismo”, disse.

Segundo o banco de dados Surveillance, Epidemiology and End Results (SEER), do National Cancer Institute (Estados Unidos), a incidência do câncer de tireoide triplicou nos últimos 35 anos. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) estimou 9.200 casos novos em 2014, sendo 8.050 em mulheres.

Estudos brasileiros indicam que a cidade de São Paulo apresenta uma das maiores taxas, com um aumento de incidência ainda superior ao dos Estados Unidos. Entre as causas apontadas estão a melhora no diagnóstico, graças ao exame de ultrassonografia com punção por agulha fina.

“Esse aumento na incidência de câncer tireoidiano é quase exclusivamente atribuído ao carcinoma papilífero de tireoide (CTP), que é o subtipo mais frequente. Embora esse tumor tenha, de maneira geral, um bom prognóstico, representa um problema de saúde pública por ser muito comum e requerer procedimentos cirúrgicos”, comentou Rogatto.

A busca por biomarcadores

Com o intuito de aumentar a precisão diagnóstica e reduzir o número de cirurgias desnecessárias, o grupo do INCITO iniciou em 2011 uma busca por marcadores moleculares que ajudassem a diferenciar as lesões benignas das malignas.

O estudo foi feito com amostras de tecido tireoidiano extraídas cirurgicamente de mais de 350 pacientes – armazenadas no biobanco do A.C. Camargo Cancer Center. Foram incluídas tanto amostras com diagnóstico de câncer e lesão benigna confirmada histopatologicamente quanto amostras não neoplásicas. Nesta casuística também se encontravam os casos indeterminados.

Por um método conhecido como microarray, os pesquisadores analisaram a expressão de transcritos codificadores de proteína, os RNAs mensageiros.

“Inicialmente fizemos estudos com amostras pareadas, isto é, comparando o perfil de expressão do tecido normal e tumoral de um mesmo indivíduo. Depois comparamos várias amostras de tecidos normais com várias amostras de tumores, não pareadas. Por último comparamos o perfil final das análises feitas com amostras pareadas e não pareadas e encontramos enorme concordância dos resultados”, contou Rogatto.

Em seguida, foi feita a validação dos biomarcadores em um grupo diferente de amostras (138 pares de carcinoma papilífero e tecido não neoplásico adjacente) de tecido tireoidiano com bancos de dados externos, armazenadas no banco do The Cancer Genome Atlas (TCGA), consórcio ligado ao National Cancer Institute que reúne dados genômicos e clínicos de pacientes de diversos países, e do Gene Expression Omnibus (GEO).

“Observamos uma identidade muito grande, mostrando que nossos achados têm validação externa e não são específicos da população brasileira”, disse Rogatto.

Com o auxílio de ferramentas estatísticas, os pesquisadores selecionaram uma lista de genes que permitisse diferenciar nódulos benignos e malignos. As primeiras validações foram feitas por meio de simulações computacionais, até chegar a um grupo de cinco genes que apresentaram alta seletividade e especificidade para identificar o carcinoma papilífero de tireoide.

“Três desses genes estão diferencialmente expressos no tumor e os outros dois servem como referência”, explicou a pesquisadora.

Foi desenvolvido um método para avaliar a expressão desses cinco genes-alvo por meio de um ensaio baseado na PCR (reação da cadeia da polimerase) em tempo real – patenteado pelo grupo do INCITO. Segundo Rogatto, a análise também permite identificar os pacientes com maior risco de comprometimento dos linfonodos cervicais e que, portanto, necessitam de uma cirurgia mais agressiva.

“É possível fazer o ensaio com uma pequena amostra de tecido, com baixo custo. Acreditamos que seria viável desenvolver um kit diagnóstico muito útil para a prática clínica”, disse Rogatto.

Antes, porém, o grupo pretende validar o método com tecido tireoidiano obtido por meio de biópsia. “Estamos aguardando autorização do Comitê de Ética da nossa instituição para testar a metodologia em restos de tecido que sobram após o exame citológico feito após a biópsia”, contou.

Paralelamente, o grupo do INCITO trabalha na validação de outros biomarcadores que permitam diferenciar o carcinoma papilífero de outros subtipos de câncer tireoidiano menos frequentes e mais agressivos, como o carcinoma folicular e o carcinoma anaplásico.

Fonte: Karina Toledo – Agência FAPESP

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