| Em 29/06/2026

Biodetergente promete prolongar a vida útil de frutas e legumes

Estudo do laboratório na UFRJ busca soluções que promovam a integração academia–indústria no modelo de inovação aberta e valorização de recursos renováveis, promovendo pesquisa aplicada com impacto científico, tecnológico e social (Foto: Divulgação)

As perdas ao longo da cadeia de produção de alimentos são um gargalo a ser superado e geram prejuízos que podem alcançar US$ 540 bilhões em 2026, segundo a consultoria Datagro. Mais de 30% do volume de alimentos entre a colheita e a chegada ao consumidor se perdem, gerando um prejuízo equivalente no faturamento anual da cadeia de suprimentos. No caso de alimentos perecíveis como frutas, legumes e verduras, dados da Embrapa indicam perdas de 30% em média na etapa pós-colheita, principalmente por manuseio, transporte e armazenamento inadequados. Isso, num país tropical como o Brasil, pode acelerar o ataque de fungos e bactérias e a deterioração dos alimentos.  

Mas a pesquisa pode mudar este cenário. O Laboratório de Biotecnologia Microbiana do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LaBiM/IQ/UFRJ), em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), desenvolveu um biodetergente capaz de prolongar a vida útil de frutas e legumes, contribuindo diretamente para a redução do desperdício de alimentos. O produto consegue impedir a ação dos fungos. “É como se o biossurfactante ‘desorganizasse’ a estrutura do fungo, impedindo sua proliferação e aumentando o tempo de prateleira das frutas”, explica a professora titular do Instituto de Química Denise Maria Guimarães Freire. Nos testes, laranjas foram infectadas com injeções de fungos e depois protegidas com o biodetergente aplicado na casca. Após 10 dias, de cada 12 laranjas testadas, 11 ficaram intactas.

A pesquisadora conta que os estudos tiveram início em 2009, época em que a Petrobras identificou uma bactéria em poços de petróleo com potencial para mitigar o efeito de derramamento de petróleo e metais pesados em ambientes terrestres e aquosos. Foi no Laboratório que a bactéria começou a ser estudada em diferentes meios de cultivo e mostrou possuir “1001 utilidades, um verdadeiro Bombril”, alega a pesquisadora, que é Cientista do Nosso Estado da FAPERJ e já contou com diversos apoios da Fundação para conduzir suas pesquisas, como do Programa de Apoio a Projetos Temáticos no Estado do Rio de Janeiro.

Denise Freire explica que não há mais dúvida quanto à eficácia do biodetergente, mas que a produção atual de 100 litros no LaBiM é totalmente insuficiente para atender ao mercado. No caso das laranjas, por exemplo, o produto poderia ser adicionado pelas indústrias à água da lavagem das frutas no pós-colheita, protegendo toda a produção. “Chegamos num estágio em que não conseguimos avançar sem apoio financeiro para viabilizar os testes em campo. É como se estivéssemos à beira de um rio caudaloso, sem ponte para atravessar”, afirma Denise, que já foi procurada por cinco agricultores, incluindo produtores de mamão e morango, interessados no biodetergente. Segundo ela, o próximo passo, também em parceria com a Embrapa, será o teste em grãos como soja, feijão e milho.

Essa pesquisa está alinhada às pesquisas do Hub de Inovação Aberta em Bioprodutos do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT HOI-B), que desenvolve tecnologias limpas e inovadoras para síntese, recuperação, concentração e purificação de bioprodutos. Social e ambientalmente sustentáveis, as tecnologias limpas reduzem resíduos, priorizam sistemas aquosos de baixa toxicidade e biodegradáveis, alinhados à Química Verde e à Economia Circular, como opção aos produtos químicos usualmente utilizados nas mesmas aplicações. O INCT HOI-B atua no desenvolvimento de soluções estratégicas em biotecnologia industrial, integração academia-indústria no modelo de inovação aberta e valorização de recursos renováveis, promovendo pesquisa aplicada com impacto científico, tecnológico e social.



A coordenadora do HOI-B diz que outros antifúngicos estão sendo pesquisados no laboratório, como a levedura Metschnikowia pulcherrima e a substância obtida de outro microrganismo, chamada cerulenina. Ambas se mostraram bastante promissoras nos testes in vitro de biocontrole pós-colheita. Denise destaca outras pesquisas desenvolvidas no Laboratório, como a encomendada pela Sinochem, estatal chinesa especializada em petroquímica, agricultura e energia, entre outros, que, no Brasil, atua principalmente na exploração de petróleo e gás através da Sinochem Petróleo Brasil. A empresa necessitava de um produto que separasse melhor o óleo e a proteína, aumentando a recuperação de ambos sem afetar a produção de etanol à base de milho. Essa pesquisa resultou no registro de duas patentes da UFRJ com a empresa. Em parceria com a empresa de ingredientes para cosméticos Assessa, o LaBiM vem desenvolvendo, com o apoio do INCT, ingredientes sustentáveis a partir de resíduos agroindustriais, promovendo a valorização desses resíduos e a geração de produtos de alto valor agregado.

“O estudo explora o uso de biossurfactantes como uma solução ‘dois em um’: além de aumentar a extração de compostos antioxidantes de coprodutos, eles também atuam como agentes tensoativos na formulação, com menor toxicidade e maior sustentabilidade em comparação aos surfactantes convencionais”.

Denise Freire: segundo a pesquisadora, é como se o biossurfactante ‘desorganizasse’ a estrutura do fungo, impedindo sua proliferação e aumentando o tempo de prateleira das frutas (Foto: Divulgação)

O grande desafio está no apoio dos editais e programas de fomento à transição das pesquisas que já estão em fase de TRL (Technology Readiness Level) alta, ou seja, alto nível de maturidade para o mercado. Este é o caso da produção do biodetergente que já se encontra em TRL 6. O próximo desafio é desenvolver uma formulação inovadora com o biodetergente para ser testada em larga escala. Destaque no ranking Research.com como uma das pesquisadoras mais influentes do mundo em sua respectiva área de conhecimento, a engenheira química Denise Freire destaca que o investimento em novas tecnologias pode gerar retornos muito superiores ao valor inicialmente aportado na pesquisa.

Fonte: FAPERJ (Por: Paula Guatimosim/Ascom Faperj)

Leia também

Em 09/10/2026

Divulgado o 1º resultado da Chamada ERC–CONFAP–2026 

O Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP) publicou, nesta sexta-feira (9), o 1º resultado da Chamada ERC–CONFAP–2026. Lançada em parceria com o Conselho Europeu de Pesquisa (ERC), a chamada tem como objetivo apoiar a mobilidade de pesquisadores doutores sediados no Brasil para integrarem equipes de pesquisa na Europa, em projetos financiados […]

Em 06/10/2026

Fapepi vai investir mais de R$ 3 milhões em startups piauienses através do Programa Centelha 3

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (Fapepi), empenhada em estimular o empreendedorismo e à inovação no território piauiense, teve orçamento de R$ 3.008.000,00 (três milhões e oito mil reais) aprovado para investir na terceira edição do Programa Centelha. A iniciativa, promovida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e pela […]

Em 05/10/2026

O que os movimentos do corpo podem revelar sobre os níveis de ansiedade?

Vida corrida, pressão diária e incertezas fazem parte da rotina de muitas pessoas. Mas será que os movimentos do nosso corpo, registrados por um smartwatch, podem ajudar a identificar diferentes níveis de ansiedade? Foi justamente essa pergunta que levou pesquisadores do Instituto de Computação da Universidade Federal Fluminense (UFF) a investigar se técnicas de Inteligência […]

Em 02/10/2026

Nova ferramenta de IA prevê rota e intensidade de tempestades em curtíssimo prazo

Saber com exatidão a rota de uma tempestade e a intensidade da chuva para os próximos 30 minutos deixou de ser um desafio que exige supercomputadores. Uma nova ferramenta – desenvolvida na Universidade de São Paulo (USP) e denominada TITAN-LSTM – une dados de radares meteorológicos e inteligência artificial para realizar previsões de curtíssimo prazo, […]

Em 30/09/2026

Aplicativo gratuito auxilia portadores do espectro autista nas tarefas diárias

Tudo começou durante uma conversa com um sobrinho de 5 anos, que cuida de um tamagotchi. Para quem não lembra, o tamagotchi é uma espécie de pet digital, um famoso bichinho virtual que virou uma febre mundial nos anos 90. Usado por quem não pode (ou não quer) ter um pet de verdade, também exige […]