
Acidentes com agulhas, bisturis e outros materiais perfurocortantes fazem parte da rotina de milhares de profissionais da saúde no Brasil. Muitas vezes silenciosos, esses episódios vão muito além de cortes e ferimentos: envolvem risco de contaminação por doenças graves, afastamentos do trabalho, impactos psicológicos e altos custos para o sistema de saúde.
Foi a partir dessa realidade que nasceu o PROTeMA — sigla para Inovações para Proteção em Segurança no Trabalho via Manufatura Aditiva — projeto fomentado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) por meio do edital Tech Learning, desenvolvido na Universidade de Brasília (UnB), Faculdade de Tecnologia, sob coordenação da professora e pesquisadora Andréa Cristina dos Santos, doutora em Engenharia Mecânica, professora do Departamento de Engenharia de Produção da UnB e coordenadora do Laboratório Aberto de Brasília (LAB), primeira fazenda de impressão 3D do Brasil.
A pesquisa utiliza tecnologias de impressão 3D — também chamadas de manufatura aditiva — para desenvolver dispositivos capazes de reduzir acidentes envolvendo materiais perfurocortantes em ambientes hospitalares. Entre as soluções criadas estão removedores de lâminas de bisturi, removedores de agulhas e abridores de ampolas.
“A inovação em saúde precisa obrigatoriamente se adaptar à cultura organizacional, aos fluxos de trabalho e às restrições do ambiente real para ser efetiva. Existe uma distância perigosa entre o trabalho prescrito e o trabalho real”, explica Andréa Cristina dos Santos.

Um problema invisível na rotina hospitalar
Segundo dados analisados pela equipe do projeto, o setor de atenção à saúde responde por quase 12% de todos os acidentes de trabalho registrados no Brasil. Desse total, cerca de 39% estão associados a materiais perfurocortantes, como agulhas contaminadas, bisturis e lancetas.
O perigo vai além do ferimento físico. Em muitos casos, o profissional fica exposto ao risco biológico de contaminação por doenças como HIV e hepatites B e C.
“Além do corte físico, o perigo central é o impacto psicológico vivido pelo trabalhador enquanto aguarda os resultados dos testes relacionados à exposição ao material biológico contaminado”, destaca a pesquisadora.
O estudo aponta ainda que cada acidente com material perfurocortante pode gerar custos imediatos de aproximadamente R$ 2 mil em exames, tratamentos profiláticos e procedimentos administrativos.
Como a impressão 3D entra nessa solução
A principal aposta do projeto está no uso da chamada manufatura aditiva, tecnologia popularmente conhecida como impressão 3D.
Na prática, o processo funciona criando objetos camada por camada a partir de um modelo digital desenvolvido no computador. Diferentemente da indústria tradicional, que depende de moldes e grandes escalas de produção, a manufatura aditiva permite fabricar peças personalizadas, rápidas e com baixo custo operacional.
O projeto utiliza principalmente duas tecnologias:
- FDM (Modelagem por Deposição Fundida): processo em que um polímero plástico é aquecido e depositado em camadas sucessivas;
- SLS (Sinterização Seletiva a Laser): técnica que utiliza feixes de laser para solidificar pó polimérico e formar o objeto final.
Segundo Andréa, a escolha da tecnologia aconteceu por razões estratégicas.
“A impressão 3D permite fabricar geometrias complexas, alterar o design rapidamente e produzir pequenos lotes de forma economicamente viável. Isso traz uma capacidade de adaptação e personalização que a indústria tradicional não oferece para baixos volumes”, afirma.
Além da flexibilidade, os dispositivos podem ser produzidos localmente, reduzindo custos logísticos e acelerando entregas.

Dispositivos criados para a realidade dos hospitais
Ao longo do projeto, a equipe desenvolveu três dispositivos médicos voltados à proteção contra acidentes com perfurocortantes.
Um deles é o chamado saca-lâminas, acoplado diretamente à caixa de descarte hospitalar. O dispositivo permite retirar a lâmina do bisturi sem contato manual direto, fazendo com que ela caia automaticamente no recipiente de descarte.
Outro exemplo é o abridor de ampolas, criado para evitar cortes nas mãos de profissionais de enfermagem durante a abertura de recipientes de vidro utilizados em medicamentos.
Já o removedor de agulha para seringa odontológica Carpule foi desenvolvido para eliminar a necessidade de reencapar agulhas com as duas mãos — prática considerada uma das principais causas de acidentes em consultórios odontológicos.
“Todos os dispositivos seguem a mesma lógica: criar uma barreira física inteligente entre a mão do trabalhador e o objeto cortante, de forma ergonômica e integrada à rotina hospitalar”, explica Andréa.
Testes, segurança e validação científica
Antes de serem aplicados em ambientes hospitalares, os dispositivos passam por uma série de testes mecânicos, análises de usabilidade e validações técnicas.
O projeto utiliza metodologias internacionais de engenharia de usabilidade e design participativo, permitindo que os próprios profissionais da saúde participem do desenvolvimento e aperfeiçoamento das soluções.
Além disso, a equipe realiza:
- simulações computacionais;
- testes de resistência mecânica;
- análises metrológicas;
- validações ergonômicas;
- ciclos interativos de prototipagem junto às equipes hospitalares.
Segundo a coordenadora, a segurança não pode ser pensada isoladamente.
“O projeto foi desenvolvido com os profissionais de saúde, e não apenas para os profissionais de saúde. A segurança surge do funcionamento integrado de todo o sistema hospitalar”, ressalta.
A pesquisa também segue protocolos éticos rigorosos, incluindo validação junto aos Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) antes da implementação em ambiente real.
Menos acidentes, mais economia e proteção
Os pesquisadores estimam que, em um hospital com cerca de 30 mil procedimentos anuais, a adoção em larga escala dos dispositivos possa evitar aproximadamente 360 acidentes por ano.
Além da proteção direta aos trabalhadores, o projeto também pode representar uma redução significativa de gastos públicos relacionados a exames, afastamentos, tratamentos e ações trabalhistas.
“A lógica é simples: o dispositivo tem baixo custo de produção, mas o valor financeiro da segurança que ele entrega é enorme”, afirma Andréa.
Segundo a equipe, um dispositivo produzido por impressão 3D pode custar cerca de R$ 24, enquanto cada acidente pode gerar despesas superiores a R$ 2 mil apenas em procedimentos imediatos.
O impacto também envolve redução do absenteísmo, prevenção de litígios e fortalecimento das normas de segurança ocupacional nos hospitais públicos.
Ciência aplicada e Indústria 5.0 no Distrito Federal
Além da área da saúde, o PROTeMA também contribui para o avanço da chamada Indústria 5.0 — conceito que amplia a visão da Indústria 4.0 ao integrar inovação tecnológica, automação e inteligência digital com foco nas necessidades humanas, sustentabilidade e bem-estar no ambiente de trabalho.
O projeto reúne pesquisadores de diferentes áreas, incluindo engenharia mecânica, engenharia de produção, fatores humanos, ergonomia, metrologia e tecnologias em saúde.
Além disso, o estudo prevê:
- formação de mestres e doutores;
- produção científica;
- desenvolvimento de novos métodos de fabricação;
- fortalecimento do ecossistema de inovação do Distrito Federal.
Para Andréa Cristina dos Santos, o apoio da FAPDF foi decisivo para transformar uma necessidade concreta dos hospitais em soluções aplicáveis.
“A FAPDF investiu diretamente nas pessoas envolvidas no projeto, permitindo que uma equipe multidisciplinar pudesse desenvolver soluções reais para um problema crítico da saúde pública. Mais do que financiar tecnologia, esse apoio representa um compromisso com a segurança de quem está na linha de frente dos hospitais”, destaca.
Da pesquisa para os hospitais
Os próximos passos do projeto incluem a ampliação dos testes em hospitais públicos do Distrito Federal, a consolidação do nível de prontidão tecnológica dos dispositivos e a criação de uma startup voltada à produção e comercialização das soluções desenvolvidas no laboratório.

A equipe também prevê a doação de milhares de caixas de descarte hospitalar equipadas com os dispositivos de proteção para unidades públicas de saúde do DF.
“Nosso objetivo é transformar o fomento à ciência em tecnologia capaz de proteger quem cuida da população diariamente. É ciência aplicada diretamente à vida real”, conclui a coordenadora do projeto.
Fonte: FAPDF (Por: Ascom Fapdf)
