| Em 10/12/2019

Fapeal em Revista apresenta: Lugar de mulher é onde ela quiser

A vice-presidente da SBPC, Vanderlan Bolzani,
durante mesa sobre Mulheres na Ciência
(Foto – Ascom Ufal)

“(…) De árvores tortuosas e exóticas, o cerrado feito mulher, cheio de mistério é enigmática! E o coração não se revela! Lá do pantanal, como as ararinhas azuis, mulheres de todos os cantos e recantos voam livres e formosas, em busca das nuvens num céu de anil! E se lhes cortam as asas, sonham! E vão se arrastando, toando o canto triste de uma jaçanã!”. Esse trecho foi retirado do poema que a cientista, professora, primeira presidente da Sociedade Brasileira de Química (SBQ) e vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Vanderlan Bolzani, escreveu para homenagear e encorajar as mulheres brasileiras.

Mulheres como ela, pesquisadoras, vêm se destacando em diversos segmentos do mundo da ciência e foram grandes destaques durante a 70ª Reunião Anual da SBPC em Alagoas. A programação do evento esteve recheada de exposições, ações educativas, feiras, conferências, seminários, mesas-redondas, debates, sessão de pôsteres e minicursos, e em todas as atividades o público feminino marcou forte presença, dentre elas, a professora e cientista física Márcia Barbosa, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), vencedora do prêmio internacional L’Oréal-Unesco destinado às mulheres de destaque na ciência.

Para ela, o mundo científico ainda é muito masculino e precisa abrir mais espaço e visibilidade ao público feminino. “A ciência é parecida com uma empresa, foram pegas as 500 maiores empresas do mundo e ordenaram por diversidade [de gênero] e descobriram que as empresas com menos diversidade ganhavam menos dinheiro do que as com mais diversidade. Se tem mais mulher, você ganha mais dinheiro, ou seja, diversidade significa eficiência. Tem áreas que é uma engenheira, um par de matemáticas, quatro físicas, os números são muito pequenos ainda”, afirmou a docente.

Lídia Baumgartem, professora do Ichca,
falou que a presença das mulheres na ciência vêm
aumentando (Foto – Ascom Ufal)

Segundo a professora Lídia Baumgarten, do Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Arte (Ichca) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e pesquisadora da Cultura, Memória, Processos Migratórios e Ensino de História, apesar de ainda serem poucas, as mulheres vêm ganhando espaço e entrando com propriedade no mundo da ciência. “Eu venho de uma tradição, dentro da família, de mulheres que não tem o ensino superior e que mal se formaram, então eu sou uma exceção na minha família por ter chegado ao doutorado. Eu vejo o espaço que nós mulheres temos e estamos conquistando como muito positivo, devemos incentivá-las a crescer e ser sujeito da própria história”, disse Lídia.

Assim como Baumgarten, a vice-presidente da SBPC também destaca as posições importantes que as mulheres vêm alcançando: “Eu fui a única presidente da Sociedade Brasileira de Química ao longo de 40 anos. Ao longo de 70 anos tivemos três mulheres na presidência na SBPC, mas nós estamos melhorando, na diretoria atual nós somos maioria”, afirmou.

E Vanderlan ainda complementou: “Eu sou de uma geração onde os livros não contavam histórias femininas, então vocês vão mudar essa história, nós estamos vivenciando uma mudança crescente, lenta, mas crescente, então neste momento é extremamente importante um debate”.

Cientistas em debate

Mulheres na Ciência foi o tema de uma mesa-redonda, realizada durante a Reunião Anual da SBPC. Durante o debate grandes mulheres foram citadas, como a alquimista Maria the Jewess; a aristocrata Margaret Cavendish; e a primeira cientista mulher a ganhar os prêmios Nobel de Física e de Química, Marie Curie. O professor Márcio Barbosa, presente à mesa, relembrou também a contribuição da monja beneditina Hildegard Von Bingen, não só para a ciência, mas para a arte, política e oratória.
De acordo com a docente Vera Almeida e Val, há um decréscimo de mulheres com bolsas de produtividade 1B, que são menos da metade das ofertadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “As mulheres na ciência não sumiram, elas só não foram estimuladas, não foram incentivadas, elas optaram por ter filhos e atrasaram suas carreiras. Elas continuam lá, mas não na estatística da dominância, das que estão em cargos públicos, das que conseguem produzir cientificamente o mesmo que os homens, elas então em outro patamar”, afirmou Vera.

Os casos de assédio sexual sofrido por mulheres dentro da academia também foram discutidos na mesa. Para a professora do Inpa, muitas delas ainda escondem e não denunciam os por medo. “No Brasil há muitos casos e a maioria não é denunciada porque as mulheres, moças e meninas temem por suas carreiras, elas não querem que isso as atrapalhe. Elas são ameaçadas. O assédio moral e sexual é muito comum através da hierarquia estabelecida”, acrescentou.

A mulher negra na sociedade

A temática Mulheres Negras: Vida e Lutas por Reconhecimento teve destaque especial no terceiro dia de realização da 70ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, conforme programação da SBPC Afro e Indígena. A atividade, bastante concorrida, teve como conferencista o professor Alessandro de Oliveira Santos, da Universidade de São Paulo (USP).

Ao contextualizar a diferença existente entre preconceito e discriminação, o pesquisador afirmou que o primeiro é a forma individual do racismo e o segundo consiste na manifestação social do racismo. “Não somos educados para ser cooperativos e sim para vivermos de forma competitiva e a diminuição do preconceito só poderá ocorrer em ambientes cooperativos”, frisou Alessandro Santos.

Na oportunidade destacou o desafio existente para promover na sociedade a igualdade étnico-racial. “A igualdade pertence ao indivíduo e a diferença pertence ao grupo. Enquanto determinados grupos forem tratados de forma desigual, os indivíduos que carregam características desses grupos nunca atingirão a igualdade”, destacou ao reforçar a realidade existente entre preconceito.

Negras foi abordada pela professora Joselina da Silva, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), que realizou uma palestra dinâmica e com participação do público. Na dinâmica, cada vez que Joselina apresentava as mulheres que se destacavam em um telão, solicitava à plateia que repetisse o nome em voz alta de cada uma delas.

A educadora ressaltou que a oportunidade de falar da Organização do Movimento de Mulheres Negras no Brasil é extremamente importante. “Esse é um movimento que tem uma história longa, que podemos marcar desde o momento dos quilombos, que as mulheres já se organizavam enquanto mulheres, se organizavam na luta, e que atravessa todo século 19, entra no século 20, e que tem momentos importantes como atualmente, por exemplo, em todo o território nacional, quando é comemorado no dia 25 de julho, o dia da mulher negra da América Latina e do Caribe e o dia de Tereza de Benguela, uma data nacional reconhecida por lei”, explicou.

Joselina enfatizou ainda que o marco do movimento Mulheres Negras em julho de 2015, quando mais de trinta mil mulheres foram à Brasília realizar a marcha contra o racismo, a violência e pelo bem viver, representantes de uma ampla diversidade de campos: mulheres de terreiro, quilombolas, gestoras políticas, jovens, trabalhadoras, sindicalistas, movimento LGBTT, sociedade civil e de organizações e grupos populares.

Ela, que participou pela primeira vez da Reunião da SBPC, ainda ressaltou a realização da SBPC Afro e Indígena no Campus da Ufal no Sertão. “Para mim é uma honra e ter feito a minha estreia no sertão alagoano é uma imensa satisfação. É muito representativo que essa SBPC Indígena e afro esteja no sertão, que tem uma longa e rica história dos afros-descendentes e da população indígena”, vibrou Joselina da Silva.

Fonte: Comunicação Fapeal

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