
Historicamente, o senso comum elegeu, no Brasil, a Amazônia como o grande “pulmão” do país, em relação à absorção de gás carbônico e produção de oxigênio. No entanto, uma área igualmente importante do território nacional para esta tarefa só recentemente, há cerca uma década, tem recebido mais atenção da sociedade e da ciência: a imensa zona costeira, denominada de Amazônia Azul, cuja extensão oficial chega a aproximadamente 700 mil km².
Assim como as plantas terrestres, a flora oceânica (formada pelo fitoplâncton e por microorganismos como o bacterioplâncton, espécies flutuantes na coluna de água marinha) são componentes essenciais para a retirada de gás carbônico (CO2) da atmosfera do planeta. E no Brasil, de acordo com a professora Rozane Valente Marins, coordenadora do grupo de Biogeoquímica Costeira do Instituto de Ciências do Mar da Universidade Federal do Ceará (Labomar/UFC), ainda há pouco conhecimento sobre a capacidade destes organismos retirarem CO2 da atmosfera na zona costeira do país.
A pesquisadora lidera um projeto que tem como principal objetivo amenizar os efeitos de duas deficiências principais existentes no acompanhamento do fluxo de CO2 (gás carbônico) do litoral brasileiro: a pouca quantidade de equipes para fazer a medição e a inexistência de tecnologias nacionais (programas de computador específicos e aparelhos) que possam ser usados na tarefa. O trabalho conta com o apoio da Funcap através do edital Pronex.
“Estima-se que haja em torno de quatro equipes fazendo o trabalho de monitoramento de absorção de CO2 na região costeira em todo o Brasil”, explica a professora, ressaltando que uma dessas equipes é a dos pesquisadores e profissionais do Labomar. Segundo ela, entre as dificuldades para aumentar o alcance do trabalho está o equipamento usado nas medições. Como não existem produtos nacionais, há forte dependência de indústrias e técnicos estrangeiros.
Por isso, o projeto do Labomar, iniciado há aproximadamente três anos, tem como um dos principais objetivos desenvolver uma tecnologia nacional que, além de tornar o trabalho de monitoramento mais ágil, irá possibilitar uma redução significativa de custos com manutenção e assessoramento técnico. A professora lembra que os aparelhos e softwares usados pelo equipe do Labomar, antes do início do projeto, eram todos fabricados na França.
Com esse tipo de aparelho importado, quando acontece algum problema, é preciso enviá-lo para a região Sudeste, onde há técnicos para resolver, ou trazer um profissional para o Ceará. O gasto médio com uma operação dessas fica em torno de 10 mil reais. “Em alguns casos, é preciso mandar sondas para fora do Brasil, porque mesmo no Sudeste não há técnicos capacitados. Aí o custo sobe para 10 mil dólares”, afirma a professora.
O projeto já permitiu avanços. Um dos mais importantes, lembra Rozane, é que o equipamento francês vinha em vários módulos que precisavam ser montados no barco a cada viagem de monitoramento. O trabalho dos pesquisadores do Labomar, desenvolvido em parceria com a empresa Owen Engenharia de Automação, permitiu que eles fossem agrupados em um único rack. Isso eliminou a necessidade de um técnico para fazer a montagem (os módulos têm uma sequência específica de ligação, que demanda um profissional habilitado).
“Como o aparelho é encapsulado, só precisa de um técnico em mecatrônica para trocar algum componente”, afirma Rozane. Ela lembra, ainda, que outro benefício trazido pelo projeto é o acompanhamento, feito pela Owen, do funcionamento dos módulos. Caso algum apresente problema, o sistema da empresa detecta automaticamente e informa o que precisa ser trocado, facilitando o trabalho técnico. O acondicionamento dos módulos em rack único trouxe ainda uma vantagem: a robustez, já que os deixou mais protegidos contra os efeitos corrosivos da salinidade do ambiente marinho.
Até a conclusão do projeto, prevista para 2019, a expectativa é obter um índice de 40% de nacionalização para os equipamentos e de 100% para os softwares que eles executam. Mas Rozane ressalta que a dependência dos técnicos franceses já diminuiu consideravelmente. “A interpretação dos dados também foi outro aprendizado”, acrescenta ela. Os pesquisadores passaram a buscar, com ajuda do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), outro parceiro no projeto, critérios matemáticos mais rígidos, para precisar menos de operadores na execução da tarefa.
A equipe responsável pelo projeto acredita que a produção de um aparelho com componentes nacionais e a configuração em ambiente de hardware gratuito irão favorecer a comercialização do equipamento e o maior uso por pesquisadores nacionais. De acordo com Ítalo Loiola, diretor de projetos da Owen, a expectativa é de que um equipamento pronto para comercialização esteja no mercado até o fim de 2018.
Monitoramento é essencial para o meio ambiente
As medições que o aparelho desenvolvido pelo Labomar permite, têm relação com um grande conjunto de fatores e podem ajudar a melhorar o controle ambiental no Brasil de forma bastante abrangente. A professora explica que quando não havia alterações no fluxo do gás carbônico, havia um equilíbrio entre o gás encontrado na atmosfera e o que era absorvido pelos oceanos.
“Por conta das atividades antrópicas, como a queima de combustíveis fósseis, as emissões de CO2 aumentaram significativamente. Hoje, tem-se uma concentração de CO2 chegando a mais de 400 ppm, um nível que está acima dos valores que existiam na era pré-industrialização, que eram de 300 ppm, em média”, afirma. Essa maior concentração tem como resultado o aumento da absorção, por parte dos oceanos, causando efeitos como acidificação na água, o que altera a vida da fauna e da flora marinhas.
Através do monitoramento do fluxo de CO2 também é possível contribuir para a avaliação dos efeitos da ação humana sobre os rios. “As descargas de rios e os efeitos das atividades relacionadas com a emissão de nutrientes que ocorre nas regiões costeiras podem alterar os balanços de carbono nessas regiões”, informa a professora. É necessário, portanto, monitorar para saber o que realmente acontece e como essas atividades estão afetando a capacidade de absorção de CO2 no litoral.
Fonte: Comunicação Funcap.