| Em 30/08/2017

Com apoio da Funcap, pesquisadores de laboratório da UFC desenvolvem tecnologia nacional para monitoramento dos oceanos

Historicamente, o senso comum elegeu, no Brasil, a Amazônia como o grande “pulmão” do país, em relação à absorção de gás carbônico e produção de oxigênio. No entanto, uma área igualmente importante do território nacional para esta tarefa só recentemente, há cerca uma década, tem recebido mais atenção da sociedade e da ciência: a imensa zona costeira, denominada de Amazônia Azul, cuja extensão oficial chega a aproximadamente 700 mil km².

Assim como as plantas terrestres, a flora oceânica (formada pelo fitoplâncton e por microorganismos como o bacterioplâncton, espécies flutuantes na coluna de água marinha) são componentes essenciais para a retirada de gás carbônico (CO2) da atmosfera do planeta. E no Brasil, de acordo com a professora Rozane Valente Marins, coordenadora do grupo de Biogeoquímica Costeira do Instituto de Ciências do Mar da Universidade Federal do Ceará (Labomar/UFC), ainda há pouco conhecimento sobre a capacidade destes organismos retirarem CO2 da atmosfera na zona costeira do país.

A pesquisadora lidera um projeto que tem como principal objetivo amenizar os efeitos de duas deficiências principais existentes no acompanhamento do fluxo de CO2 (gás carbônico) do litoral brasileiro: a pouca quantidade de equipes para fazer a medição e a inexistência de tecnologias nacionais (programas de computador específicos e aparelhos) que possam ser usados na tarefa. O trabalho conta com o apoio da Funcap através do edital Pronex.

“Estima-se que haja em torno de quatro equipes fazendo o trabalho de monitoramento de absorção de CO2 na região costeira em todo o Brasil”, explica a professora, ressaltando que uma dessas equipes é a dos pesquisadores e profissionais do Labomar. Segundo ela, entre as dificuldades para aumentar o alcance do trabalho está o equipamento usado nas medições. Como não existem produtos nacionais, há forte dependência de indústrias e técnicos estrangeiros.

Por isso, o projeto do Labomar, iniciado há aproximadamente três anos, tem como um dos principais objetivos desenvolver uma tecnologia nacional que, além de tornar o trabalho de monitoramento mais ágil, irá possibilitar uma redução significativa de custos com manutenção e assessoramento técnico. A professora lembra que os aparelhos e softwares usados pelo equipe do Labomar, antes do início do projeto, eram todos fabricados na França.

Com esse tipo de aparelho importado, quando acontece algum problema, é preciso enviá-lo para a região Sudeste, onde há técnicos para resolver, ou trazer um profissional para o Ceará. O gasto médio com uma operação dessas fica em torno de 10 mil reais. “Em alguns casos, é preciso mandar sondas para fora do Brasil, porque mesmo no Sudeste não há técnicos capacitados. Aí o custo sobe para 10 mil dólares”, afirma a professora.

O projeto já permitiu avanços. Um dos mais importantes, lembra Rozane, é que o equipamento francês vinha em vários módulos que precisavam ser montados no barco a cada viagem de monitoramento. O trabalho dos pesquisadores do Labomar, desenvolvido em parceria com a empresa Owen Engenharia de Automação, permitiu que eles fossem agrupados em um único rack. Isso eliminou a necessidade de um técnico para fazer a montagem (os módulos têm uma sequência específica de ligação, que demanda um profissional habilitado).

“Como o aparelho é encapsulado, só precisa de um técnico em mecatrônica para trocar algum componente”, afirma Rozane. Ela lembra, ainda, que outro benefício trazido pelo projeto é o acompanhamento, feito pela Owen, do funcionamento dos módulos. Caso algum apresente problema, o sistema da empresa detecta automaticamente e informa o que precisa ser trocado, facilitando o trabalho técnico. O acondicionamento dos módulos em rack único trouxe ainda uma vantagem: a robustez, já que os deixou mais protegidos contra os efeitos corrosivos da salinidade do ambiente marinho.

Até a conclusão do projeto, prevista para 2019, a expectativa é obter um índice de 40% de nacionalização para os equipamentos e de 100% para os softwares que eles executam. Mas Rozane ressalta que a dependência dos técnicos franceses já diminuiu consideravelmente. “A interpretação dos dados também foi outro aprendizado”, acrescenta ela. Os pesquisadores passaram a buscar, com ajuda do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), outro parceiro no projeto, critérios matemáticos mais rígidos, para precisar menos de operadores na execução da tarefa.

A equipe responsável pelo projeto acredita que a produção de um aparelho com componentes nacionais e a configuração em ambiente de hardware gratuito irão favorecer a comercialização do equipamento e o maior uso por pesquisadores nacionais. De acordo com Ítalo Loiola, diretor de projetos da Owen, a expectativa é de que um equipamento pronto para comercialização esteja no mercado até o fim de 2018.

Monitoramento é essencial para o meio ambiente
As medições que o aparelho desenvolvido pelo Labomar permite, têm relação com um grande conjunto de fatores e podem ajudar a melhorar o controle ambiental no Brasil de forma bastante abrangente. A professora explica que quando não havia alterações no fluxo do gás carbônico, havia um equilíbrio entre o gás encontrado na atmosfera e o que era absorvido pelos oceanos.

“Por conta das atividades antrópicas, como a queima de combustíveis fósseis, as emissões de CO2 aumentaram significativamente. Hoje, tem-se uma concentração de CO2 chegando a mais de 400 ppm, um nível que está acima dos valores que existiam na era pré-industrialização, que eram de 300 ppm, em média”, afirma. Essa maior concentração tem como resultado o aumento da absorção, por parte dos oceanos, causando efeitos como acidificação na água, o que altera a vida da fauna e da flora marinhas.

Através do monitoramento do fluxo de CO2 também é possível contribuir para a avaliação dos efeitos da ação humana sobre os rios. “As descargas de rios e os efeitos das atividades relacionadas com a emissão de nutrientes que ocorre nas regiões costeiras podem alterar os balanços de carbono nessas regiões”, informa a professora. É necessário, portanto, monitorar para saber o que realmente acontece e como essas atividades estão afetando a capacidade de absorção de CO2 no litoral.

Fonte: Comunicação Funcap.

Leia também

Em 26/06/2026

Iniciativa Amazônia+10 lança chamada de R$ 107 milhões para fortalecer sociobioeconomia da Amazônia

A Iniciativa Amazônia+10, em uma parceria estratégica entre o Fundo Amazônia e o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP), anuncia o lançamento da primeira chamada do Programa Desafios da Amazônia. Com um investimento total de R$ 107,1 milhões, a chamada financiará projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, voltados à criação de […]

Em 26/06/2026

Bioinseticida amapaense à base de pimenta alcança 100% de eficácia no combate às formigas-de-fogo em pesquisa do Programa Doutor Empreendedor

Uma observação do cotidiano foi o ponto de partida para uma pesquisa que hoje se destaca como exemplo de inovação apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amapá (FAPEAP). Coordenado pela pesquisadora Dra. Darley Calderaro Leal Matos, do Instituto Federal do Amapá (IFAP) – Campus Laranjal do Jari, o projeto resultou no […]

Em 26/06/2026

Projeto goiano produz combustível derivado de resíduos e aponta novo caminho para a sustentabilidade

Um projeto inovador desenvolvido por uma empresa genuinamente goiana está mostrando que o que antes era considerado lixo pode se tornar parte da solução para desafios ambientais, econômicos e sociais. Selecionada pelo edital 12/2024 do Programa Tecnova III, a iniciativa propõe transformar rejeitos sem valor econômico em combustível alternativo para a indústria cimenteira, o que […]

Em 26/06/2026

Programa de Estímulo a Vocações Científicas tem nova chamada

A FAPESP anuncia a participação em uma nova chamada de propostas do Programa Aristides Pacheco Leão de Estímulo a Vocações Científicas (PAPL) da Academia Brasileira de Ciências (ABC). A chamada está aberta a membros titulares e afiliados da ABC, que podem manifestar interesse em receber e supervisionar discente de graduação de outro estado para realização […]

Em 25/06/2026

DAAD lança chamada de 2026 do programa de auxílio para doutorandos brasileiros com bolsa nacional

O Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) abriu as inscrições para a edição de 2026 do programa de auxílio destinado a doutorandos brasileiros que já possuam bolsa de estudos concedida no país. A iniciativa oferece financiamento complementar à bolsa nacional concedida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) ou por uma Fundação […]

Em 26/06/2026

Fapeam representa fundações estaduais no lançamento do Observatório Nísia Floresta da Capes

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) lançou na quinta-feira (25/6), o Observatório Nísia Floresta, em evento na sede da instituição, em Brasília. A iniciativa é fruto de uma parceria com o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), e as FAPs, incluindo a Fundação de Amparo à Pesquisa […]