
Foto: Arquivo.
O ambiente em que vivem exerce efeitos relevantes sobre as condições de bem-estar animal, interferindo no desempenho produtivo e reprodutivo dos rebanhos. O clima atua como fator regulador e limitador da produtividade bovina, podendo refletir de maneira negativa na exploração pecuária. Em Mato Grosso do Sul, o Grupo de Estudos em Reprodução Animal (GERA/MS) realiza várias pesquisas na área, uma delas é tema dessa reportagem. O Gera é composto por pesquisadores da UFMS, UEMS, Embrapa Gado de Corte e Pantanal, Unesp e UFU.
As variáveis climáticas afetam de forma direta e indireta os animais, e a elevada incidência de radiação solar nas regiões tropicais, associada às altas temperaturas e umidade relativa do ar, podem gerar desconforto térmico e estresse por calor em animais mantidos extensivamente em pastagens. “Dependendo da intensidade de radiação solar, podem ocorrer alterações no comportamento animal e modificação de alguns parâmetros fisiológicos, como a temperatura corporal, frequência respiratória, batimentos cardíacos e taxa de sudação”, esclarece Eliane Vianna da Costa e Silva, professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e coordenadora da pesquisa “Aspectos Biológicos, Produtivos e Reprodutivos de Termotolerância em Diferentes Grupamentos Genéticos Bovinos”, aprovada no Programa de Núcleos Emergentes (Pronem) da Fundect.
A pesquisa envolve vários pesquisadores e estudantes, assim como outras pesquisas na mesma área ou áreas afins. Colaboram ativamente nas metodologias as pesquisadoras Fabiana Villa Alves, da Embrapa Gado de Corte, e Fabiana de Andrade Melo-Sterza, docente dos cursos de graduação e pós-graduação em Zootecnia da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul.
O desempenho satisfatório de um animal depende de uma faixa de temperatura denominada Zona de Conforto Térmico (ZTC), que corresponde a limites de temperatura nos quais o animal encontra-se em homeostase, sem a necessidade de uso de artifícios termorreguladores. Quando a temperatura ultrapassa o limite máximo da ZTC, ocorre redução na eficiência dos processos de perda de calor e o animal entra em estresse pelo calor.
“No caso de animais de produção, muitos dos mecanismos de dissipação de calor podem comprometer funções fisiológicas importantes, e nem sempre são suficientes para manter a temperatura em níveis aceitáveis, comprometendo as funções celulares e a taxa de crescimento, produção de leite, sobrevivência embrionária, desenvolvimento fetal e qualidade espermática”, ressalta Eliane.
O ambiente térmico é caracterizado e avaliado a partir de índices de conforto térmico que levam em consideração os principais aspectos climáticos: temperatura do ar, umidade e radiação solar. Além disso, auxiliam no entendimento das interações dos componentes físicos e biológicos dos animais de produção nas diferentes condições ambientais nas quais são avaliados.
Na esfera reprodutiva, são amplamente estudados os efeitos de estressores ambientais, tanto em machos quanto em fêmeas, podendo ser destacada a redução nas taxas de concepção em determinadas épocas do ano como uma consequência desse estresse. “Em touros, o principal prejuízo reprodutivo advindo da exposição testicular a altas temperaturas é o efeito deletério na espermatogênese, que reflete-se na queda da qualidade seminal e pode chegar, inclusive, a infertilidade. Independente da origem genética, o estresse térmico por calor, prejudica a homeostase, leva a alterações endócrinas, e implica em efeitos negativos sobre eventos reprodutivos na fêmea bovina”, afirma Eliane.
“O desenvolvimento embrionário é prejudicado quando as fêmeas sofrem estresse por calor no período do dia da inseminação artificial e até sete dias após a mesma, apresentando menor taxa de viabilidade embrionária e de blastocisto”, descreve Fabiana de Andrade Melo-Sterza. Os estudos sugerem que mesmo vacas Zebuínas têm apresentado alterações decorrentes do estresse por calor na produção de embriões.
Uma vez que grande parte do território brasileiro está localizada na faixa intertropical, colocando os bovinos em constante risco de estresse por calor e ao aumento do interesse de realizar cruzamentos das raças zebuínas com taurinas, é necessário conhecer quais desses grupos genéticos respondem melhor às condições climáticas que dispomos. Em particular em Mato Grosso do Sul, onde os animais, em sua maioria, são mantidos em áreas de pastagem abertas, sem nenhuma proteção ambiental, levando-os a enfrentar estresse por calor que varia em graus mediano e severo, principalmente no período de verão, entre outubro e março.
O projeto de pesquisa está em andamento e irá avaliar parâmetros biológicos, produtivos e reprodutivos de termotolerância em bovinos de diferentes grupos genéticos manejados aos trópicos. Estão sendo trabalhados tanto bovinos zebuínos, europeus e cruzados. “São oferecidas sombras artificial ou natural a bovinos de diferentes genótipos mantidos em diferentes sistemas de pastejo. Os animais são então avaliados sob a perspectiva do desenvolvimento pós-desmama quanto aos aspectos reprodutivos de machos e fêmeas”, explica Fabiana Villa Alves.
O grupo de pesquisa analisa também os diferentes sistemas de oferta de sombra quanto ao conforto térmico e seus efeitos sobre a fertilidade de machos e fêmeas bovinos de diferentes grupos genéticos por meio das variações fisiológicas, hematológicas, bioquímicas e hormonais, tricológicas e suas influências sobre a qualidade seminal, oocitária e fertilidade de fêmeas em Inseminação artificial em tempo fixo.
Integração lavoura-pecuária-floresta
De acordo com estudos recentes, os sistemas de produção que de algum modo promovem modificações ambientais capazes de atenuar o estresse térmico podem favorecer o controle homeotérmico animal e, consequentemente, melhorar o seu desempenho. Uma das alternativas disponíveis é a oferta de sombra, natural ou artificial, capaz de reduzir a carga de calor radiante, em climas quentes, em mais de 30%. “A presença do componente arbóreo em sistemas pecuários seria capaz de proporcionar um microclima mais favorável aos animais e reduzir o efeito do estresse térmico, com potencial melhoria dos índices produtivos”, alerta Fabiana Villa Alves.
As árvores são capazes de atuar como redutoras da temperatura do ar. Elas absorvem parte da energia radiante para o seu processo de fotossíntese, reduzindo a energia transferida para o sistema que resulta no aquecimento do ambiente circunstante. Pesquisas indicam que sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), com eucalipto como componente arbóreo, apresentaram menor temperatura e velocidade do vento, e maior umidade relativa do ar, em relação a sistemas integrados sem árvores, indicando melhores condições microclimáticas para bovinos em pastejo.
Resultados
É necessário que ocorra um aumento no interesse pela implantação de sistemas de produção que atentem ao conforto térmico dos animais e as novas exigências do mercado consumidor, principalmente em relação à produção animal do tipo “ambientalmente correta” e ao “bem-estar animal”.
Entre os resultados da pesquisa, na dimensão ambiental e econômica, esperam-se impactos diretos e indiretos nos índices zootécnicos e intensificação do sistema de produção em pastagens. Comercialmente, existe a possibilidade de abertura de novos mercados aos produtos gerados. “Esperamos que os resultados possam aumentar o interesse na implantação de sistemas de produção sustentáveis, facilitando a implantação, inclusive, de programas como ‘Boas Práticas Agropecuárias (BPA)’, cujo benefício se estende a toda a cadeia”, finaliza a Eliane.
Como parte das pesquisas está a tese da aluna de doutorado, Caroline Carvalho de Oliveira, orientada pela professora Eliane, e que será defendida em junho de 2017. Há também mais duas dissertações de mestrado em andamento e duas de mestrado da UEMS já defendidas.
Sobre
Edital: Chamada FUNDECT/CNPq N° 15/2014 – PRONEM – MS
Título do projeto: Aspectos Biológicos, Produtivos e Reprodutivos de Termotolerância em Diferentes Grupamentos Genéticos Bovinos
Coordenadora: Eliane Vianna da Costa e Silva
Instituição: Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)
Fonte: Comunicação Fundect (texto: Bianca Iglesias).