| Em 27/10/2016

Vísceras de peixe para produção de biodiesel

As vísceras do peixe conhecido como tilápia-do-nilo (Sarotherodon niloticus) corresponde a 10% do peso do animal e metade disso é gordura, utilizável como matéria-prima para produção de biodiesel. Na Universidade Federal do Ceará (UFC), projeto coordenado pelo professor José Tarcisio Costa Filho, do Departamento de Engenharia de Teleinformática, do Centro de Tecnologia, desenvolveu uma máquina para extração, caracterização e beneficiamento de resíduos de peixes para obtenção de óleo como subproduto do pescado.

O projeto é resultante da tese de Doutorado de Francisco de Assis da Silva Mota, que também é professor do curso de Engenharia de Produção da Universidade Federal do Piauí (UFPI). O Biopeixe objetiva estudar, especificar, desenvolver e implantar um projeto-piloto envolvendo equipamentos e processos inovadores de extração e de caracterização dos óleos obtidos dos resíduos de peixe (cabeça, nadadeiras e vísceras), sendo o biodiesel uma dentre as várias possibilidades. Atualmente, apenas as vísceras são utilizadas, a viabilidade do aproveitamento de cabeças e nadadeiras ainda está em estudo.

Vantagens

Para os responsáveis pela pesquisa, que tem como coordenador adjunto o professor Jackson de Queiroz Malveira, da Fundação Núcleo de Tecnologia Industrial do Ceará (Nutec), instituição parceira, o aproveitamento do grande potencial do Ceará, ainda não explorado, para a produção de ésteres graxos (biodiesel), a partir da extração e beneficiamento de resíduos de peixe, é altamente justificável. “Trará vantagens econômicas, com a geração de emprego e renda para a piscicultura comunitária do Estado, atendendo à exigência do selo fiscal de que pelo menos 30% de suprimento de óleo possa ser oriundo da agricultura familiar e, nesse caso, da piscicultura comunitária.”

Apesar das vísceras do pescado já estarem sendo utilizadas para a produção do óleo pela Associação dos Pescadores da Barragem Castanhão e pela Cooperativa dos Produtores do Curupati Peixe há pelo menos quatro anos, a máquina desenvolvida na UFC tem melhorado a qualidade do óleo produzido. “A produção era de uma forma bem artesanal, usando lenha para o cozimento desse óleo, o que reduz a qualidade dele. Com a máquina, o nível de acidez fica o menor possível e o óleo fica de melhor qualidade, melhorando significativamente o preço pago pela Petrobras aos produtores”, garante o pesquisador.

Supermercados

Por conta da proximidade com a usina de Biodiesel de Quixadá, da Petrobras, com capacidade prevista de produzir 200 toneladas/dia de combustível, o Parque Aquícola do Castanhão (distante 234 quilômetros de Fortaleza) foi o local escolhido para implantação desse projeto de pesquisa e desenvolvimento. Esse parque engloba os municípios de Alto Santo, Jaguaribe, Jaguaretama e Jaguaribara, sede do parque, onde já está em operação e ocorrem testes finais para viabilizar transferência de tecnologia e treinamento do pessoal local para o manuseio da máquina de extração.

Oriundas exclusivamente do Castanhão, as vísceras também poderão ser reaproveitadas na coleta do descarte do material para abastecimento dos supermercados em toda a Região Metropolitana de Fortaleza. “O descarte das vísceras para esses supermercados, que às vezes chega a um volume até maior do que o Castanhão, também podia ser utilizado e daria um fim mais nobre a esse resíduo”, acredita o pesquisador. Embora ainda haja sobra depois do processamento, o material conhecido como borra pode ser usado para produção de adubo orgânico.

Outros usos

Outros estudos estão sendo desenvolvidos pelo grupo para investigar mais aplicações para o óleo gerado pela máquina. Uma linha pesquisa a utilização do óleo para alimentação animal ou humana. Outra vertente indica a viabilidade da geração de energia a partir do diesel.

Um fenômeno ocorrido em junho na represa alterou a produção de peixes, que chegou a 27 mil toneladas por ano e também do óleo para o biodiesel, segundo o professor do Departamento de Engenharia de teleinformática. “Hoje a máquina tem capacidade para produzir 60 litros por hora, mas infelizmente com o problema da mortandade recente de peixes, ela não está operando a sua capacidade total”, sinaliza. Tarcísio informou que o grupo tem recebido pedidos de aquisição da máquina de extração e beneficiamento de outros estados, tanto do setor privado como de setores públicos. A Ekipar Engenharia, empresa incubada pelo Nutec, está credenciada para fabricação e venda da unidade de extração.

Prêmio

O Biopeixe conquistou a 2º colocação da categoria Tecnologia, Prêmio von Martius de Sustentabilidade 2016, da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha (Deutsch-Brasilianische Industrie – und Handelskammer). A solenidade de entrega da premiação foi realizada na quarta-feira (19), no auditório da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP).

São instituições colaboradoras a Ekipar – Engenharia e Processos Químicos, a Secretaria da Agricultura, Pesca e Aquicultura do Estado, a Petrobras Biocombustíveis e o Banco do Nordeste do Brasil.

Fonte: Mônica Costa – Nossa Ciência

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