| Em 24/10/2025

Tecnologias emergentes podem ajudar a reduzir fila para transplante de rins

O Rio de Janeiro é um dos estados que teve maior prevalência de pacientes em diálise em 2021, com cerca de 17 mil doentes renais em tratamento (Foto: Freepik)

De acordo com a Sociedade Brasileira de Nefrologia, a doença renal crônica afeta mais de 20 milhões de pessoas no Brasil, ou seja, em torno de 10% da população do País. Destas, há mais de 172 mil em diálise, sendo 79% atendidas pelo SUS. O Rio de Janeiro é um dos estados que teve maior prevalência de pacientes em diálise em 2021, com cerca de 17 mil pacientes em tratamento, dos quais cerca de 90% não estão na fila de transplante.

Uma pesquisa conduzida no Instituto Coppead de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppead/UFRJ) pretende auxiliar pacientes renais a terem acesso à fila de transplantes e diminuir a espera por um rim doado no Rio de Janeiro. Dados do Ministério da Saúde indicam que, atualmente, cerca de 78 mil pessoas estão na fila de espera por doação de órgãos e tecidos no Brasil, com maior demanda para rim (42.838), córnea (32.349) e fígado (2.387) em 2024. No estado do Rio de Janeiro, cerca de 7,5 mil pacientes aguardam por transplante, sendo 5,1 mil para córnea, 2,2 mil para rim e 151 para fígado.
 
“Nosso objetivo é ajudar quem precisa de transplante de rim e promover melhor qualidade de vida a esses doentes renais”, explica Bruno Fernandes, doutor em Administração pelo Coppead, que contou com bolsa de Pós-Doutorado Nota 10 da FAPERJ para realizar sua pesquisa. Em sua opinião, as tecnologias emergentes — especialmente a Inteligência Artificial (IA), que tanto tem contribuído para o progresso da ciência — podem “fazer a fila andar”. O objetivo, segundo ele, é identificar os gargalos e as oportunidades de melhoria destes processos de doação-transplante, muitas vezes caracterizados por uma gestão manual e fragmentada dos dados dos pacientes e doadores, dificultando o acompanhamento, a atualização e a correspondência efetiva entre os envolvidos.

O pesquisador, que é orientado pela professora e pesquisadora da Coppead e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Claudia Araujo, Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, iniciou o mapeamento de todo o caminho percorrido pelos pacientes renais para serem incluídos na lista de espera, e o processo de doação-transplante de rins no estado. Dessa forma, poderá identificar gargalos e caminhos para a melhoria dos processos. “O entendimento dos incentivos econômicos é fundamental para redesenhar o processo”, afirma Bruno, lembrando que o transplante é mais custo-efetivo do que a manutenção dos pacientes cerca de três vezes por semana na diálise.

Dentre as tecnologias emergentes, a Inteligência Artificial (IA) despontou como prioridade neste momento, impulsionada pelo crescente interesse da sociedade e, em particular, da comunidade acadêmica, fato evidenciado pelo aumento do número de publicações na área. Com base nisso, os pesquisadores realizaram uma revisão da literatura sobre o tema que reuniu 181 publicações distribuídas em 108 periódicos. Esses números atestam não apenas a profundidade, mas também a amplitude do interesse científico, e reforçam o caráter interdisciplinar da IA aplicada ao transplante, ao aproximar a medicina de áreas como a ciência da computação.

A partir dessa revisão, foram identificadas sete áreas cruciais nas quais a IA já vem produzindo impacto ou apresenta potencial transformador:

  1. Previsão de Comportamentos do Paciente: A IA está sendo utilizada para prever e entender comportamentos cruciais para o sucesso do transplante, como a adesão a regimes medicamentosos e as preferências de tratamento.
  2. Avaliação Radiológica e Patológica: Nesta área, algoritmos de IA estão aprimorando a análise de imagens médicas e biópsias renais.
  3. Previsão da Progressão da Doença Renal Pré-Transplante: Antes mesmo do transplante, a IA pode prever a progressão da doença renal crônica para o estágio terminal.
  4. Previsão de Compatibilidade entre Doador e Receptor de Rim: Um dos gargalos do transplante é a complexa busca pela compatibilidade. A IA está ajudando a analisar dados para estratificar o risco de falha do órgão e otimizar a correspondência entre doadores e receptores.
  5. Otimização da Administração de Medicamentos Imunossupressores: Após o transplante, a IA auxilia na personalização da dosagem de medicamentos imunossupressores, minimizando efeitos colaterais e maximizando a eficácia, e se adaptando às necessidades individuais de cada paciente.
  6. Diagnóstico de Complicações Pós-Transplante: Algoritmos de aprendizado de máquina são empregados para a identificação precoce de uma gama de complicações, incluindo a rejeição do enxerto e infecções.
  7. Previsão de Sobrevivência do Enxerto: Com a IA, é possível estimar com maior precisão a probabilidade do tempo em que o rim transplantado permanecerá funcional.

Segundo os pesquisadores, dos artigos revisados, apenas 10% dos estudos focam na fase pré-transplante, o que aponta para uma oportunidade de aprofundamento da investigação nesta etapa.

Claudia Araujo e Bruno Fernandes: segundo os pesquisadores, dos artigos revisados, apenas 10% dos estudos focam na fase pré-transplante (Fotos: Divulgação)

“Identificamos um problema estrutural que dificulta a indicação do paciente renal para o transplante. A espera do paciente, em média, é de três a quatro anos”, alega Claudia Araujo, que se diz muito grata à FAPERJ pelo apoio constante às suas pesquisas. De acordo com a pesquisadora, ao mapear e identificar os desafios do processo doação-transplante, as potencialidades da IA podem preencher as lacunas e suprir as necessidades da pesquisa. A criação de algoritmos de correspondência entre pacientes e doadores, por exemplo, pode tornar o processo mais eficaz, assim como a telemedicina pode viabilizar um acompanhamento mais regular do paciente, além de facilitar a realização de exames pré-operatórios e a preparação para o transplante. 

Em outra pesquisa, também financiada pela FAPERJ, Claudia mapeou os principais hospitais que atuam em captação e doação de órgãos no Estado do Rio de Janeiro. Participaram do estudo 578 profissionais de saúde que atuam em emergências e CTIs de cinco hospitais fluminenses e têm um papel fundamental, no caso do doador falecido, na manutenção do potencial doador e na abordagem das famílias para apresentar a possibilidade de doar órgãos do ente querido. São eles os primeiros a identificar potenciais doadores, comunicar-se com os familiares e garantir as condições clínicas necessárias para que a doação ocorra. Segundo a pesquisadora, a desinformação – como acreditar que a morte encefálica é reversível ou que o transplante ainda é experimental, o medo de retirada precoce dos órgãos, o temor de desfiguração do corpo e crenças religiosas – reduz as chances de que os órgãos de potenciais doadores sejam efetivamente aproveitados.

Além de graduado em Engenharia de Produção pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Bruno Fernandes possui MBA em Finanças pelo Coppead e em Gestão de Negócios pelo IBMEC, além de cursos de administração em instituições reconhecidas como a Fundação Dom Cabral, Université Paris Panthéon Assas (França) e IE Business School (Espanha). Há 20 anos atuando em Gestão Empresarial e Finanças, e lecionando Estratégia Digital e Inovação, Bruno espera que a pesquisa possa ser continuada. Após o primeiro ano do estudo, ele passou no concurso público e tornou-se professor do Coppead. Certos de que a pesquisa terá continuidade, os pesquisadores esperam dar continuidade ao mapeamento e ao redesenho dos processos, indicando como as tecnologias levantadas podem ser implementadas a fim de reduzir o período de espera por um rim doado e aumentar a eficiência dos gastos públicos.

Fonte: FAPERJ (Por: Paula Guatimosim/Ascom Faperj)

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