| Em 14/02/2017

Princípio ativo de vacina contra malária é descoberta de cientistas brasileiros

Está previsto para 2018 o lançamento de uma vacina contra a malária que promete proteção, ao menos parcial, para crianças. O responsável pela produção da substância é o laboratório britânico GlaxoSmithKline (GSK), mas o princípio básico da vacina tem pais muito mais próximos de nós: o casal de cientistas Victor e Ruth Nussenzweig. Ela, uma vienense naturalizada brasileira e ele, paulista, da capital – ambos membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Juntos na ciência e na vida

Victor e Ruth se conheceram na Escola de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e lá se graduaram, em 1953. Em 1958, Ruth fez seu pós-doutorado em bioquímica no Collège de France e, na década de 60, ingressou como professora na Universidade de Nova York (NYU), onde seus estudos sobre malária lhe renderem uma publicação na revista Nature, em 1967. Em 1984, foi nomeada professora titular do Departamento de Parasitologia Médica e Molecular da NYU, a única faculdade de medicina dos Estados Unidos a ter uma cadeira de Doenças Parasitárias.

Victor, após se graduar, fez seu pós-doutorado na Escola de Medicina da Universidade de Nova York (NYU), a mesma universidade onde Ruth passou a dar aulas, e onde passou a ser professor titular no Departamento de Patologia, em 1971, e, em 1987, diretor da Divisão de Imunologia.

Boa parte da história do casal se mistura com as pesquisas sobre a doença. A infecção, que causa calafrios, febre alta, sudorese e dor de cabeça, é causada pela picada do mosquito Anopheles infectado com um parasita. Nos casos mais graves, ocorre a malária cerebral que provoca, além dos sintomas já citados, ligeira rigidez na nuca, perturbações sensoriais, desorientação, sonolência ou excitação, convulsões e vômitos, sendo que o paciente pode até mesmo chegar ao coma. Conhecida por afetar principalmente países tropicais subdesenvolvidos, a malária passou muitos anos sendo considerada uma luta perdida por cientistas. Isto porque pacientes das áreas endêmicas não são naturalmente imunizados mesmo após desenvolver a infecção diversas vezes. Ainda assim, Ruth insistiu em seus estudos e, nos anos 60, descobriu que o esporozoíto – o parasita presente nas glândulas salivares do mosquito transmissor – atenuado em raio-X poderia ser injetado na veia e gerar uma resposta imunológica, protegendo completamente o indivíduo da doença.

Para que fosse comercialmente viável a produção de uma vacina, no entanto, as pesquisas continuaram e Victor, junto de Ruth, descobriu, então, que era, na verdade, a proteína que reveste a membrana do esporozoíto (CSP) que garantia a proteção. Isso possibilitou a injeção de CSP pela via intramuscular. “A alternativa endovenosa era muito difícil, principalmente em crianças que morriam de malária”, explica Victor.

Opção pela pesquisa na academia e não na indústria

Em seguida ao achado da substância que poderia dar origem a uma vacina, a GSK entrou em contato com os cientistas. “Logo depois das nossas descobertas, recebemos a visita do Dr. Joe Cohen, da GSK. Ele queria nos propor um emprego na companhia, mas recusamos”, conta Victor. Segundo ele, eram professores da New York University Medical Center na época e não tinham o intuito de migrar para o ramo da indústria. “Nós somos acadêmicos”, reforça.

Usando como base a molécula de proteína encontrada nos estudos de Victor e Ruth e dando continuidade à pesquisa, a GSK chegou à vacina RTS,S – também chamada Mosquirix – que contém, além do CSP, um adjuvante, que funciona como um potencializador da resposta imune do organismo. A RTS,S age contra o parasita Plasmodium falciparum (maior causador da doença na África) e, por recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da União Europeia, começará a ser usada em campanhas de imunização em larga escala na África Subsaariana, no próximo ano.

Agora, com 88 anos e já semi aposentados, a dupla mantém vivo o interesse pela pesquisa em malária. Ruth, por exemplo, usa muito de seu tempo para se debruçar sobre o estudo do Plasmodium vivax, uma outra espécie de parasita que é frequente na Amazônia. Ele é responsável pela maior parte dos casos no Brasil e, embora, em geral, se manifeste de forma mais branda, pode levar mais tempo para ser eliminado do organismo. Victor explica que o foco do casal sempre foi a pesquisa e isso se mantém: “Continuamos trabalhando até hoje em malária e sempre na universidade”, explica o cientista.

Fonte: Notícias da ABC

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