
Uma formiga sobre o alecrim-do-campo. (Foto: Geraldo Fernandes/Peld-CRSC)
Pela primeira vez um estudo comprovou experimentalmente a existência de uma extensa rede oculta de interações entre espécies. A pesquisa foi desenvolvida no âmbito do sítio de Pesquisas de Longa Duração nos Campos Rupestres da Serra do Cipó (PELD-CRSC) observando uma comunidade de artrópodes (insetos herbívoros, predadores e parasitas) e sua planta hospedeira (Baccharis dracunculifolia) – o alecrim-do-campo, na Serra do Cipó/MG. Os estudos foram desenvolvidos pelo pesquisador Milton Barbosa da Silva Júnior durante seu doutorado na Universidade de Oxford.
Implicações
Pioneirismo
Fernandes explica que o alecrim-do-campo é uma espécie alvo das pesquisas do grupo há décadas. A sua relação com os insetos que interagem com ela como polinizadores, ou aqueles que se alimentam das suas folhas e induzem tumores nos seus brotos já era muito conhecida pelos pesquisadores. A pesquisa nasce da observação de que algumas dessas espécies eram mais abundantes que outras, algo comum em muitos sistemas. “O que fizemos foi, seletivamente, remover uma espécie e observar como surgiriam novos insetos nessa planta […] nós também adicionamos tumores causados por insetos em alecrim-do-campo de outros ambientes e observamos essa dinâmica”. Isso mostrou claramente como a rede de interações tróficas muda dramaticamente diante da supressão de uma espécie ou a adição de outras.
Segundo Fernandes, o desaparecimento de uma pequena espécie pode, inclusive, ter efeitos irreversíveis. “Eu tenho certeza de que este artigo é um bom modelo para demonstrar a fragilidade dos nossos ecossistemas, principalmente, nas regiões tropicais onde nós temos milhares de espécies raras”, explica. Estudos a longo prazo como este são importantes para a viabilidade das grandes descobertas. “Nós colocamos um tijolo nessa grande parede que é o conhecimento. É muito importante que estudos experimentais continuem sendo feitos para compreender a relação de causa e efeito na ecologia”, declara Fernandes.
PELD-CRSC
O sítio de Pesquisas de Longa Duração nos Campos Rupestres da Serra do Cipó – CRSC (Sítio 17) foi criado em 2010 e tem desenvolvido estudos que buscam compreender o efeito das principais mudanças globais sobre a biodiversidade, sua ecologia e evolução. O conhecimento gerado fundamenta políticas que promovem a conservação das espécies, ecossistemas e serviços ambientais em altos de montanhas tropicais. A iniciativa tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).