| Em 06/03/2019

Museu Nacional Vive: exposição no CCBB reúne peças resgatadas após o incêndio

Foto: Lécio Augusto Ramos.

Das cinzas e escombros, ressurge mais de uma centena de peças que sobreviveram às chamas do incêndio que atingiu o prédio principal do Museu Nacional/UFRJ, em 2 de setembro de 2018, na Quinta da Boa Vista, São Cristóvão. Resgatadas após meses de um intenso e contínuo trabalho arqueológico, realizado debaixo de sol e chuva, por cerca de 50 servidores da instituição, as 103 peças – milagrosamente inteiras ou parcialmente danificadas – podem ser vistas na exposição “Museu Nacional Vive – Arqueologia do Resgate”, em cartaz até o dia 29 de abril, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no centro do Rio.

A exposição, que foi aberta ao público nesta quarta-feira, dia 26 de fevereiro, ocupa duas salas do segundo andar do CCBB e apresenta, ao todo, cerca de 180 itens. Além das 103 peças resgatadas depois do incêndio, os visitantes podem conhecer outras 73, que foram preservadas por estarem fora da área do fogo ou por estarem emprestadas para outras instituições, naquela ocasião. O conjunto contempla todas as áreas de pesquisa da instituição: Antropologia, Botânica, Entomologia, Geologia e Paleontologia, Invertebrados e Vertebrados.

Primeira apresentação pública de tantos itens do resgate, a mostra reafirma, depois do pessimismo inicial, um clima de confiança de que muito ainda há de ser recuperado dos destroços. “Graças a um trabalho heroico dos servidores do museu é que hoje podemos ver parte do material resgatado e, felizmente, ainda há muito mais por vir. Essa exposição é uma demonstração clara de que o ‘Museu Nacional vive’”, disse o diretor da instituição, Alexander Kellner. O museu é uma unidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) dedicada ao ensino, pesquisa e extensão.

Kellner lembrou que o dia 2 de setembro de 2018 ficará para sempre encravado no coração das pessoas, em especial aquelas que militam na área científica e cultural. “O incêndio deixou uma ferida mal cicatrizada, daquelas que doem de forma indefinida, trazendo um sentimento de angústia e de luta profundas. Como foi possível para uma nação deixar a sua instituição museal mais antiga, com mais de dois séculos de existência, arder nas chamas do descaso? Ano após ano, gestão após gestão, clamores não ouvidos para a necessidade de ação. Essa não veio. Quando a finalização e a promessa de recursos expressivos se transformaram em realidade, já era tarde. Aquela noite de domingo materializou o pesadelo que perseguia a todos. Mesmo os mais pessimistas teriam dificuldade de imaginar tamanha destruição”, lamentou.

Mesmo diante das adversidades, ele afirmou que o caminho da reconstrução do Museu Nacional e o da resiliência é a opção da maioria dos servidores da instituição. “A maior prova está sendo apresentada aqui nesta exposição, resultado da ação direta e indireta de quase uma centena de pessoas, servidores ou não do museu, que fazem com que a instituição funcione no dia a dia”, reconheceu. No entanto, Kellner ressalvou que apenas os esforços e a dedicação de cada um desses servidores não serão suficientes para reconstruir essa instituição bicentenária. “O desafio, que já era muito complicado antes daquele domingo fatídico, agora é impossível de ser superado sem uma ampla participação da sociedade brasileira e internacional”, disse o diretor, destacando o financiamento concedido pelo CCBB para a realização da exposição. “Antes disso, foi fundamental a liberação de recursos expressivos por parte do Ministério da Educação, por meio de uma verba emergencial que tornou e torna possíveis as ações de resgate, ao promover o estabelecimento das condições de segurança dentro e fora do Palácio. O apoio do governo da Alemanha também foi fundamental, ao disponibilizar verba logo nas primeiras horas do resgate, e também o apoio da Unesco, pela experiência dessa importante organização para estabelecer as primeiras medidas pós-tragédia”, acrescentou.

Kellner ponderou ainda sobre os desafios para viabilizar a reconstrução efetiva do Museu Nacional. “Claro que a dúvida sobre se o museu será reconstruído de forma plena algum dia paira sobre todos nós. O desafio e a necessidade de recursos são enormes. Temos que aprender com nossos erros para que a tragédia não se repita. Não será o mesmo museu em termos físicos, mas ele terá a mesma alma, o mesmo espírito. O de um museu de História Natural e Antropologia que, por mais de dois séculos, realizou e continua realizando contribuições ao desenvolvimento científico e cultural que transcendem as fronteiras brasileiras”, afirmou.

O presidente da Faperj, Jerson Lima Silva, reconheceu a importância da exposição. “A exposição do Museu Nacional no CCBB tem um significado muito especial frente à grande perda para a humanidade causada pelo incêndio. As peças expostas são o resultado do incansável trabalho dos pesquisadores e servidores do museu e do apoio de organismos nacionais e internacionais, mostrando que o Museu Nacional está vivo. A Faperj se soma a este esforço através de um edital de apoio emergencial aos pesquisadores do museu, que será outorgado agora em março”, disse Lima Silva.

Por sua vez, o gerente geral do CCBB Rio, Marcelo Fernandes destacou que a exposição dá ao púbico da capital fluminense a oportunidade de ter contato com peças do acervo do Museu Nacional que muitos pensavam que nunca mais poderiam ter. “Apresentar ao público parte do trabalho de resgate do acervo do museu é algo muito especial não só para o CCBB, mas também para todas as instituições culturais do Brasil e do mundo e para a população de uma forma geral, que viu e sofreu com o incêndio que destruiu uma história de 200 anos. Com esta exposição, celebramos o reinício do museu”, completou Fernandes.

O trabalho de resgate vem sendo conduzido pela equipe coordenada pela arqueóloga e professora Claudia Rodrigues Ferreira de Carvalho, que foi diretora do Museu Nacional, de 2010 a 2018. “Quando eu soube, no dia seguinte ao incêndio, que o prédio tinha resistido e continuava de pé, foi um elemento que deu a mim e a todos os servidores e pesquisadores força para continuarmos a resistir. Todos os membros da equipe de resgate do Museu Nacional não se imaginam hoje em nenhum outro trabalho, e se dedicam a essa tarefa mesmo com uma temperatura de 46 graus de sensação térmica, respirando poeira. Nesse momento de resiliência estamos trazendo de novo aquilo que estava no acervo do museu para a sociedade”, disse Claudia, que também é curadora da exposição.

O acervo total do museu, antes do incêndio, tinha cerca de 20 milhões de peças. Desde o início do resgate, aproximadamente 2,3 mil registros de possíveis partes do acervo foram retirados do Museu Nacional. “Esses registros correspondem muitas vezes a massas que aglutinam mais de uma peça, o que eleva a expectativa em relação ao número que ainda pode ser retirado”, explicou Claudia. Ela acredita que, se tudo correr bem, a escavação deve terminar até março de 2020. A partir de então, terá início a etapa de detalhamento das peças retiradas e dos danos causados pelo desabamento.

Sobre as peças resgatadas
Entre as peças resgatadas estão vasos e ânforas romanos e etruscos da coleção de D. Pedro II e da Imperatriz Teresa Cristina; pequenas esculturas de faiança do Egito Antigo e objetos em cerâmica da Ilha de Marajó, entre outras. No térreo do CCBB, está o Meteorito Santa Luzia, que caiu do espaço em Luziânia, Goiás, em 1922, e homenageia o antigo nome da cidade. Ele pesa cerca de duas toneladas, mede 136 x 80 x 40 cm e é composto por 95,33% de ferro, mais níquel, cobalto, fósforo, cobre e outros elementos.

A grande sala do segundo andar apresenta a Arqueologia do Resgate, em que peças recuperadas guiam o percurso associadas a outras preservadas. O público encontrará animais taxidermizados; crânios de rinoceronte e boto; peixes, tartarugas, sapos, pouquíssimos insetos – por serem um segmento muito afetado pelo incêndio –; corais, conchas e crustáceos. O crânio de um jacaré-açu foi resgatado inteiro dos escombros e é um dos destaques da mostra. Além dele, há outros exemplares resgatados, que caracterizam as coleções de D. Pedro II e da Imperatriz Teresa Cristina – vasos, ânforas e lamparina romanos e etruscos e peças mochica e chimú, do Peru.

Esculturas de Shabti de Haremakhbit de faiança, do Egito Antigo, de 1380 a.C., se salvaram e estão em exibição. Shabti são pequenas estatuetas, colocadas nas tumbas, representando servos cuja função era substituir o morto em seus trabalhos na pós-vida. Ainda no mesmo espaço estão as coleções regionalistas, como as peças em pedra em forma de ave e peixe (zoólitos) de Santa Catarina, cerâmica Marajoara, elementos ligados aos rituais dos orixás como flechas, argolas africanas do século XIX, agogô e búzios do Benin; bonecas Karajá, panelas do Xingu e um conjunto de miniaturas de cerâmica da Região Norte-Nordeste.

Da biblioteca que não foi atingida pelo incêndio, a exposição traz a publicação Meteorito de Bendegó, de José Carlos de Carvalho, de 1888. É o relatório apresentado pela comissão formada por ordem de D. Pedro II para remoção e transferência do meteorito Bendegó para o Museu Nacional. A peça, de cinco toneladas, foi descoberta, em 1784, nas proximidades da cidade de Monte Santo, na Bahia.? O texto é bilíngue, em português e francês, encadernação de luxo com símbolo do império na capa. O exemplar está disponível na biblioteca digital do Museu Nacional.

Do herbário, um dos cinco mais importantes do mundo, há um conjunto de amostras de plantas prensadas das coleções de D. João VI, D. Pedro I, Dom Pedro II, da Imperatriz Teresa Cristina, da Princesa Isabel e de grandes expedições estrangeiras ao Brasil, como a missão francesa. Com a diversidade de itens resgatados e preservados, o público terá a sensação de visitar uma versão do Museu Nacional e conhecer raridades do acervo da instituição.

Fonte: Comunicação Faperj (texto: Débora Motta).

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