| Em 10/06/2026

Impressão 3D e inovação ajudam a reduzir acidentes com agulhas e bisturis em hospitais

Foto da rotulagem com o dispositivo do saca lâmina na caixa de descarte de perfurocortantes. (Fonte: Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Yuri Freitas/ Agência Saúde DF).

Acidentes com agulhas, bisturis e outros materiais perfurocortantes fazem parte da rotina de milhares de profissionais da saúde no Brasil. Muitas vezes silenciosos, esses episódios vão muito além de cortes e ferimentos: envolvem risco de contaminação por doenças graves, afastamentos do trabalho, impactos psicológicos e altos custos para o sistema de saúde.

Foi a partir dessa realidade que nasceu o PROTeMA — sigla para Inovações para Proteção em Segurança no Trabalho via Manufatura Aditiva — projeto fomentado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) por meio do edital Tech Learning, desenvolvido na Universidade de Brasília (UnB), Faculdade de Tecnologia, sob coordenação da professora e pesquisadora Andréa Cristina dos Santos, doutora em Engenharia Mecânica, professora do Departamento de Engenharia de Produção da UnB e coordenadora do Laboratório Aberto de Brasília (LAB), primeira fazenda de impressão 3D do Brasil.

A pesquisa utiliza tecnologias de impressão 3D — também chamadas de manufatura aditiva — para desenvolver dispositivos capazes de reduzir acidentes envolvendo materiais perfurocortantes em ambientes hospitalares. Entre as soluções criadas estão removedores de lâminas de bisturi, removedores de agulhas e abridores de ampolas.

“A inovação em saúde precisa obrigatoriamente se adaptar à cultura organizacional, aos fluxos de trabalho e às restrições do ambiente real para ser efetiva. Existe uma distância perigosa entre o trabalho prescrito e o trabalho real”, explica Andréa Cristina dos Santos.

Andréa Cristina, coordenadora do projeto. (Fonte: acervo do projeto)

Um problema invisível na rotina hospitalar

Segundo dados analisados pela equipe do projeto, o setor de atenção à saúde responde por quase 12% de todos os acidentes de trabalho registrados no Brasil. Desse total, cerca de 39% estão associados a materiais perfurocortantes, como agulhas contaminadas, bisturis e lancetas.
O perigo vai além do ferimento físico. Em muitos casos, o profissional fica exposto ao risco biológico de contaminação por doenças como HIV e hepatites B e C.

“Além do corte físico, o perigo central é o impacto psicológico vivido pelo trabalhador enquanto aguarda os resultados dos testes relacionados à exposição ao material biológico contaminado”, destaca a pesquisadora.

O estudo aponta ainda que cada acidente com material perfurocortante pode gerar custos imediatos de aproximadamente R$ 2 mil em exames, tratamentos profiláticos e procedimentos administrativos.

Como a impressão 3D entra nessa solução

A principal aposta do projeto está no uso da chamada manufatura aditiva, tecnologia popularmente conhecida como impressão 3D.

Na prática, o processo funciona criando objetos camada por camada a partir de um modelo digital desenvolvido no computador. Diferentemente da indústria tradicional, que depende de moldes e grandes escalas de produção, a manufatura aditiva permite fabricar peças personalizadas, rápidas e com baixo custo operacional.

O projeto utiliza principalmente duas tecnologias:

  • FDM (Modelagem por Deposição Fundida): processo em que um polímero plástico é aquecido e depositado em camadas sucessivas;
  • SLS (Sinterização Seletiva a Laser): técnica que utiliza feixes de laser para solidificar pó polimérico e formar o objeto final.

Segundo Andréa, a escolha da tecnologia aconteceu por razões estratégicas.

“A impressão 3D permite fabricar geometrias complexas, alterar o design rapidamente e produzir pequenos lotes de forma economicamente viável. Isso traz uma capacidade de adaptação e personalização que a indústria tradicional não oferece para baixos volumes”, afirma.

Além da flexibilidade, os dispositivos podem ser produzidos localmente, reduzindo custos logísticos e acelerando entregas.

Dispositivo para teste de bancada no Laboratório. (Foto: Divulgação)

Dispositivos criados para a realidade dos hospitais

Ao longo do projeto, a equipe desenvolveu três dispositivos médicos voltados à proteção contra acidentes com perfurocortantes. 

Um deles é o chamado saca-lâminas, acoplado diretamente à caixa de descarte hospitalar. O dispositivo permite retirar a lâmina do bisturi sem contato manual direto, fazendo com que ela caia automaticamente no recipiente de descarte.

Outro exemplo é o abridor de ampolas, criado para evitar cortes nas mãos de profissionais de enfermagem durante a abertura de recipientes de vidro utilizados em medicamentos.

Já o removedor de agulha para seringa odontológica Carpule foi desenvolvido para eliminar a necessidade de reencapar agulhas com as duas mãos — prática considerada uma das principais causas de acidentes em consultórios odontológicos.

“Todos os dispositivos seguem a mesma lógica: criar uma barreira física inteligente entre a mão do trabalhador e o objeto cortante, de forma ergonômica e integrada à rotina hospitalar”, explica Andréa.

Testes, segurança e validação científica

Antes de serem aplicados em ambientes hospitalares, os dispositivos passam por uma série de testes mecânicos, análises de usabilidade e validações técnicas.

O projeto utiliza metodologias internacionais de engenharia de usabilidade e design participativo, permitindo que os próprios profissionais da saúde participem do desenvolvimento e aperfeiçoamento das soluções.
Além disso, a equipe realiza:

  • simulações computacionais;
  • testes de resistência mecânica;
  • análises metrológicas;
  • validações ergonômicas;
  • ciclos interativos de prototipagem junto às equipes hospitalares.

Segundo a coordenadora, a segurança não pode ser pensada isoladamente.

“O projeto foi desenvolvido com os profissionais de saúde, e não apenas para os profissionais de saúde. A segurança surge do funcionamento integrado de todo o sistema hospitalar”, ressalta.

A pesquisa também segue protocolos éticos rigorosos, incluindo validação junto aos Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) antes da implementação em ambiente real.

Menos acidentes, mais economia e proteção

Os pesquisadores estimam que, em um hospital com cerca de 30 mil procedimentos anuais, a adoção em larga escala dos dispositivos possa evitar aproximadamente 360 acidentes por ano.

Além da proteção direta aos trabalhadores, o projeto também pode representar uma redução significativa de gastos públicos relacionados a exames, afastamentos, tratamentos e ações trabalhistas.

“A lógica é simples: o dispositivo tem baixo custo de produção, mas o valor financeiro da segurança que ele entrega é enorme”, afirma Andréa.
Segundo a equipe, um dispositivo produzido por impressão 3D pode custar cerca de R$ 24, enquanto cada acidente pode gerar despesas superiores a R$ 2 mil apenas em procedimentos imediatos.

O impacto também envolve redução do absenteísmo, prevenção de litígios e fortalecimento das normas de segurança ocupacional nos hospitais públicos.

Ciência aplicada e Indústria 5.0 no Distrito Federal

Além da área da saúde, o PROTeMA também contribui para o avanço da chamada Indústria 5.0 — conceito que amplia a visão da Indústria 4.0 ao integrar inovação tecnológica, automação e inteligência digital com foco nas necessidades humanas, sustentabilidade e bem-estar no ambiente de trabalho.

O projeto reúne pesquisadores de diferentes áreas, incluindo engenharia mecânica, engenharia de produção, fatores humanos, ergonomia, metrologia e tecnologias em saúde.
Além disso, o estudo prevê:

  • formação de mestres e doutores;
  • produção científica;
  • desenvolvimento de novos métodos de fabricação;
  • fortalecimento do ecossistema de inovação do Distrito Federal.

Para Andréa Cristina dos Santos, o apoio da FAPDF foi decisivo para transformar uma necessidade concreta dos hospitais em soluções aplicáveis.

“A FAPDF investiu diretamente nas pessoas envolvidas no projeto, permitindo que uma equipe multidisciplinar pudesse desenvolver soluções reais para um problema crítico da saúde pública. Mais do que financiar tecnologia, esse apoio representa um compromisso com a segurança de quem está na linha de frente dos hospitais”, destaca.

Da pesquisa para os hospitais

Os próximos passos do projeto incluem a ampliação dos testes em hospitais públicos do Distrito Federal, a consolidação do nível de prontidão tecnológica dos dispositivos e a criação de uma startup voltada à produção e comercialização das soluções desenvolvidas no laboratório.

Equipe do projeto com apresentação para os profissionais de Saúde. Fonte: Secretaria de Saúde do Distrito Federal. (Yuri Freitas/ Agência Saúde DF).

A equipe também prevê a doação de milhares de caixas de descarte hospitalar equipadas com os dispositivos de proteção para unidades públicas de saúde do DF.

“Nosso objetivo é transformar o fomento à ciência em tecnologia capaz de proteger quem cuida da população diariamente. É ciência aplicada diretamente à vida real”, conclui a coordenadora do projeto.

Fonte: FAPDF (Por: Ascom Fapdf)

Leia também

Em 02/11/2026

CONFAP e pesquisas apoiadas pelas FAPs são destaque no programa Conexão, do Canal Futura

A participação do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP) e de pesquisadores com projetos apoiados pelas Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (FAPs) foi destaque na edição de sexta-feira, 30 de outubro, do programa Conexão, do Canal Futura. Com o tema “Ciência em todo lugar”, o episódio apresentou iniciativas científicas e […]

Em 02/11/2026

Com apoio da Fapt, pesquisa investiga se protocolos internacionais de agrotóxicos protegem espécies brasileiras

O primeiro Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) sediado no Tocantins, o INCT em Ecotoxicologia Terrestre (INCT TerrEcotox), apoiado pelo Governo do Tocantins, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Tocantins (Fapt), desenvolve pesquisas para verificar se os protocolos internacionais de agrotóxicos são capazes de proteger espécies brasileiras que vivem no solo […]

Em 30/10/2026

Idosos mais ativos têm volume cerebral preservado em áreas de memória e raciocínio, mostra estudo

Idosos que praticam mais atividade física têm maior volume cerebral, especialmente em áreas ligadas à memória, cognição e raciocínio, conclui revisão sistemática publicada no Journal of Aging and Physical Activity. Ao reunir dados de quase 2.700 pessoas com 60 anos ou mais, o estudo mostra uma associação consistente entre níveis mais elevados de movimento no […]

Em 28/10/2026

Roupas inteligentes: Inovação na costura transforma tecidos em solução para a incontinência urinária

A tecnologia nem sempre está em circuitos, sensores ou dispositivos eletrônicos. Ela também pode surgir de uma nova maneira de fazer algo que já conhecemos. Na costura, a escolha dos materiais e as técnicas de confecção podem transformar uma peça de vestuário em uma solução para necessidades específicas do cotidiano. Foi uma situação vivida dentro […]