| Em 20/08/2025

Minas Gerais investe em autonomia vacinal e mira doenças negligenciadas

(Foto: Divulgação)

O avanço científico na área da saúde em Minas Gerais ganhou impulso durante e após a pandemia. Isso porque, além da emergência sanitária ter exigido soluções imediatas, investimentos na área também facilitaram a transposição de anos de trabalhos com ciência básica em ciência aplicada e o desenvolvimento de tecnologias inéditas no Brasil. 

Exemplo disso é o trabalho do Centro de Tecnologia de Vacinas (CT Vacinas), sediado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e a construção do Centro Nacional de Vacinas, que vem posicionando o estado na vanguarda da produção de imunizantes para doenças negligenciadas com a aplicação de diferentes plataformas vacinais. “A experiência com a Covid-19 e suas variantes mostrou que as vacinas contra a doença chegam ‘atrasadas’ no Brasil. O fato do país poder desenvolver a própria vacina com mais rapidez permite também o combate mais efetivo em situações epidêmicas ou pandêmicas”, explica Ricardo Gazzinelli, pesquisador e membro do comitê gestor do CT Vacinas.

Essa conquista não é apenas acadêmica: significa mais autonomia, redução de custos e imunizantes adaptados à realidade brasileira, beneficiando diretamente a população. Como destaca Gazzinelli, o investimento de longo prazo do Governo de Minas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) foi fundamental para alcançar o patamar atual. Os recursos investidos ainda em 2002, na então Rede Mineira de Biomoléculas, foram o primeiro passo para a estruturação do CT Vacinas. 

Santuza Teixeira, também pesquisadora e membro do comitê gestor do CT Vacinas, reforça que esse apoio é fundamental para a manutenção e fidelização de equipes especializadas. “Formar pessoal leva anos. Não adianta treinar e depois perder para empresas por falta de contratos estáveis. É preciso pensar em sustentabilidade”.

Dados da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) mostram que, de 2020 a 2025 o investimento na área da saúde quadruplicou quando comparado ao mesmo período anterior. Atualmente são 640 projetos em andamento e cerca de R$ 205 milhões contratados, dos quais R$ 12 milhões foram diretamente destinados ao Centro Nacional de Vacinas.

O Centro Nacional de Vacinas também ficará no espaço da BH-TEC. Na foto, o prédio está em construção atrás da coordenadora Santuza Teixeira. (Créditos: Júlia Rodrigues)

Conhecimento impulsionado

“Um dos pontos críticos na pandemia foi a dependência do Brasil de insumos importados na área de saúde. Então surgiu um movimento grande para que o país ganhasse autonomia […] Nós temos as fábricas que funcionam muito com a importação de tecnologia, mas vimos que não foi o suficiente porque acabou atrasando a chegada da vacina no país, elas chegaram muito antes nas regiões que já desenvolviam essa tecnologia”, conta Gazzinelli. 

Segundo o pesquisador, isso impulsionou o desenvolvimento da SpiN-Tecvacina contra Covid-19 que utiliza como base a plataforma vacinal de proteínas recombinantes que utiliza insumos 100% nacionais. “Naquela época [2020] o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) chamou vários grupos para desenvolver projetos para uma vacina de Covid-19. Talvez pelo fato da plataforma vacinal que a gente escolheu trabalhar, conseguimos chegar no resultado que temos hoje”, complementa Santuza Teixeira. Nos testes clínicos de fase 1 e 2, realizados com cerca de 320 voluntários, a SpiN-Tec apresentou desempenho equivalente ao da dose de reforço da Pfizer na produção de anticorpos.

O termo “plataforma vacinal” se refere à tecnologia utilizada para desenvolver um imunizante. Cada plataforma possui vantagens, limitações e indicações específicas para determinados patógenos. “Os outros grupos escolheram plataformas diferentes, o que é muito bom porque, lá atrás, ninguém sabia qual seria a melhor plataforma. Pelo que nós já conhecíamos, pelo que já sabíamos fazer em termos de vacina, selecionamos uma plataforma vacinal que é relativamente barata, não tão simples, mas que conseguiríamos fazer com a estrutura que tínhamos naquele momento no laboratório”, explica a pesquisadora.

Vacinas para doenças negligenciadas

A expertise adquirida com a SpiN-Tec vem sendo aplicada em outros projetos, como é o caso de vacinas destinadas à malária, leishmaniose e doença de Chagas. Essas doenças, classificadas como doenças negligenciadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ainda afetam milhares de pessoas todos os anos, especialmente em regiões mais vulneráveis, mas não receberem a mesma atenção e investimentos que enfermidades de maior impacto global. 

Para a professora Santuza Teixeira, avançar em vacinas contra esses patógenos é não apenas uma questão de saúde pública, mas de justiça social. “Pouca gente fora do Brasil estuda Chagas, por exemplo, e isso significa que precisamos assumir o protagonismo. Se não fizermos aqui, dificilmente alguém fará”, afirma. No CT Vacinas, diferentes plataformas estão sendo aplicadas para criar imunizantes específicos para esses cenários, aproveitando o conhecimento acumulado e novas tecnologias como as vacinas de RNA.

Gabriela Burle, líder da Plataforma de Biologia Molecular do CT Vacinas, explica que há uma complexidade maior no desenvolvimento de vacinas para protozoários, quando comparado às vacinas para vírus. “Vírus é um organismo muito menor do que um protozoário. É um organismo menos complexo e temos uma quantidade muito menor de proteínas que podemos testar como potencial candidato vacinal. Então, é mais fácil desenvolver vacina para um vírus do que para um protozoário. Além disso, os protozoários têm um sistema de evasão do sistema imune do hospedeiro muito mais complexo e elegante que a gente não consegue entender ainda completamente em relação ao vírus. Por isso, são vacinas mais complicadas para desenvolver”.

Nesse sentido, os trabalhos desenvolvidos por Santuza Teixeira ao longo dos anos foram fundamentais para compreender a complexidade do Trypanosoma cruzi, protozoário causador da doença de Chagas e que é transmitido principalmente pelo inseto conhecido como barbeiro. A doença afeta milhões de pessoas na América Latina e, segundo a OMS, cerca de 30% dos infectados podem desenvolver complicações cardíacas graves. A vacina está em estágio pré-clínico, também com a tecnologia de proteína recombinante.

A vacina contra malária utiliza a plataforma de proteína recombinante produzida em leveduras, um microrganismo fácil de cultivar e de baixo custo. Atualmente, há apenas duas vacinas contra a malária aprovadas no mundo, mas ambas foram desenvolvidas para o Plasmodium falciparum, predominante na África, o que diferencia do patógeno Plasmodium vivax, espécie responsável pela maioria dos casos na Amazônia brasileira. “A que existe não funciona bem no Brasil, porque o parasito é diferente. A nossa é específica para o P. vivax e já está pronta para entrar na fase 1 de testes clínicos, aguardando autorização da Anvisa”, explica Santuza. 

As vacinas de RNA também estão sendo exploradas para combater a leishmaniose humana e o vírus influenza H5N1, que provoca a doença conhecida como “gripe aviária”. No caso da leishmaniose, já existe uma experiência prévia com vacinas para cães. “A versão para humanos da vacina de leishmaniose exige estudos mais rigorosos de segurança, mas estamos avançando usando o conhecimento acumulado na plataforma de RNA”, explica Santuza Teixeira.

Já no caso do H5N1, especialistas alertam para a facilidade com que o vírus sofre mutações, com potencial para causar uma nova pandemia. “A ideia é termos uma vacina pronta como uma medida protetiva. Eventualmente, no contexto de pandemia, como foi com a Covid-19, seria mais fácil adaptar a vacina para as mutações com a síntese de um novo RNA”, destaca Gabriela Burle.

Gabriela Burle trabalha hoje no CT Vacinas com biologia molecular e em pesquisas com as vacinas de RNA. (Créditos: Júlia Rodrigues)

Outro projeto de destaque é a vacina de RNA contra dengue, capaz de proteger contra os quatro sorotipos do vírus. Essa é uma vantagem importante, já que outros imunizantes contra a doença enfrentaram desafios por não oferecer cobertura total. “Conseguimos misturar o RNA que codifica a proteína de cada sorotipo e induzir a proteção em camundongos. Agora, o desafio é avançar para estudos em humanos”, relata Santuza.

Para ela, o mais importante é que essas iniciativas mostram a capacidade de aplicar rapidamente o aprendizado de uma vacina para outras. “O que aprendemos com a Spin-Tec, tanto na parte técnica quanto na regulamentação, está sendo usado para acelerar todas as outras. Isso significa que não partimos mais do zero.”

Gargalos e soluções

Apesar dos avanços científicos, o desenvolvimento da SpiN-Tec revelou também um desafio estrutural: a falta de infraestrutura no Brasil para produzir vacinas em condições de qualidade exigidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Parte da produção precisou ser realizada no exterior. “Não havia, no Brasil, um laboratório certificado para produzir a proteína com a qualidade necessária para aplicação em seres humanos. Foi aí que surgiu a ideia: em vez de continuar pagando caro lá fora, construir nossa própria estrutura”, conta Santuza.

O resultado foi o projeto do Centro Nacional de Vacinas, financiado pelo MCTI e Governo de Minas, por meio da FAPEMIG. A Fundação mineira investe, nesse projeto, o total de R$12 milhões. O espaço permitirá não apenas fabricar lotes piloto para testes clínicos, mas também apoiar outros grupos de pesquisa no país. “Com essa estrutura, vamos fazer o caminho completo: da prova de conceito ao estudo clínico de fase 3. Isso é algo raro em universidades”, completa.

A pesquisadora ainda reforça que a trajetória da Spin-Tec e dos novos projetos é um exemplo de como redes de pesquisa e apoio governamental podem gerar resultados concretos para a sociedade. “A gente sempre viu São Paulo com muito mais recursos. Agora, Minas mostra que também pode liderar. Isso nos dá orgulho e esperança”. Com o futuro Centro Nacional de Vacinas e a continuidade dos investimentos, Minas Gerais não apenas reforça sua posição científica, mas também contribui para que o Brasil tenha autonomia no enfrentamento de epidemias e no desenvolvimento de vacinas adaptadas à sua realidade.

Fonte: FAPEMIG (Por: Bárbara Melo/ Ascom Fapemig)

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