| Em 15/09/2023

Mães obesas têm alteração em componentes do leite materno

Grupo de pesquisa investigou, em testes feitos com animais e com mães, como a obesidade materna induzida por dieta hiperlipídica promove alterações dos endocanabinoides presentes no leite materno (Foto: Divulgação)

Já imaginou que o leite materno pode ser um marcador do risco de obesidade no futuro? Mais de 10 pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que estudam a composição do leite de ratas e de mulheres obesas demonstraram uma associação entre mudanças de seus componentes e maior ganho de massa corpórea dos filhos, entre outros fatores do desenvolvimento.

No estudo clínico, foram acompanhadas 92 mulheres de uma maternidade pública do Rio de Janeiro por cerca de dois anos (2017-2019). Os pesquisadores classificaram essas voluntárias pelo índice de massa corporal (IMC) pré-gestacional e coletaram 149 amostras leite em três momentos distintos. Na primeira semana pós-parto foram coletadas amostras de colostro e um mês ou três meses após o parto foram coletadas amostras de leite maduro. Cerca de 50% das voluntárias incluídas no estudo eram obesas ou tinham sobrepeso e o restante fez parte do grupo controle.

Segundo a líder da pesquisa, Isis Hara Trevenzoli, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ, os resultados mostraram que as mulheres com sobrepeso antes da gravidez ou ganho de peso excessivo durante a gestação apresentaram um nível aumentado de endocanabinoides no leite maduro. Essas moléculas são substâncias canabinoides produzidas pelo próprio corpo humano e podem ser influenciadas pela alimentação, principalmente por gordura da dieta. Só recentemente, pesquisadores internacionais identificaram endocanabinoides no leite materno, mas as pesquisas anteriores contaram com número reduzido de mulheres investigadas. A novidade deste estudo da UFRJ é ter dosado essas moléculas no leite materno em um número maior de lactantes, obesas ou não, e ao longo dos diferentes períodos da amamentação.

Há vários anos, o grupo da UFRJ estuda como a obesidade materna induzida por dieta hiperlipídica promove alterações dos endocanabinoides em animais. O grupo vem caracterizando os impactos desta dieta obesogênica sobre a placenta e a glândula mamária de ratas e as consequências no metabolismo da prole de ambos os sexos em diferentes idades. Os pesquisadores verificaram que quando o sistema endocanabinoide está desregulado no início da vida pode acarretar alterações de desenvolvimento e comportamentais na prole, incluindo a alimentação e, consequentemente o desenvolvimento precoce de obesidade em ratos, similar à obesidade infantil.

Isis Hara Trevenzoli: farmacêutica liderou o estudo, na UFRJ, reunindo cerca de uma dezena de pesquisadores. (Foto: Divulgação)

Agora que as alterações nos índices de endocanabinoides foram comprovadas no leite de mulheres obesas ou com sobrepeso, é preciso avaliar o metabolismo dos bebês e a trajetória dos indivíduos por mais tempo. Entre os próximos passos do estudo, está o acompanhamento dos bebês até um ano de idade e avaliar as escalas de desenvolvimento cognitivo e motor das crianças que receberam leite materno com excesso de endocanabinoides. A hipótese, como nas ratas, é que essas alterações podem potencialmente passar de mães para filhos e influenciar na trajetória dos indivíduos e nos transtornos metabólicos e neuropsiquiátricos como ansiedade.

Os canabinoides são associados a sensação de prazer e, na natureza, estão presentes em espécies de plantas como a Canabis sativa – a planta da maconha – e, nos últimos anos também têm sido recomendados para tratamentos de epilepsia, depressão, dor e adjuvante no câncer. Diferente dos canabinoides de plantas, os endocanabinoides são próprios dos seres humanos e tem impacto no desenvolvimento inicial e, ao longo da vida, no equilíbrio corporal, incluindo aprendizado e memória, nas emoções, no sono e vigília, temperatura, dor, resposta inflamatória, apetite, digestão e metabolismo.

Isis e seus colaboradores do Instituto de Nutrição Josué de Castro da UFRJ, entre eles o professor Gilberto Kac e a pós-doutoranda Ana Lorena Ferreira, ressaltam que, ainda que o metabolismo materno possa alterar componentes do leite, o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida do bebê e complementar até os dois anos de vida permanecem como a melhor nutrição para os infantes.

A pesquisa é pioneira no Brasil e recebeu apoio financeiro de R$ 450 mil reais em diversos editais da FAPERJ e também do programa Universal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

 

Fonte: FAPERJ (Por: Claudia Jurberg/Ascom Faperj)

 

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