| Em 26/11/2025

Fapespa entrega relatório inédito que revela impacto econômico da bioeconomia no Pará

Documento lançado durante a COP 30 mostra que setor movimentou R$ 13,5 bilhões em 2021 e detalha desafios e potencial da sociobiodiversidade amazônica (Foto: Divulgação)

Durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30), realizada em Belém, a Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) entregou, na terça-feira (11), um relatório técnico inédito que mapeia a dimensão econômica da bioeconomia no Pará. O estudo aponta que o setor movimentou R$ 13,5 bilhões em 2021, reforçando seu papel estratégico para o desenvolvimento regional e sustentável da Amazônia.

O documento foi produzido no âmbito da Rede Pará de Estudos sobre Contas Regionais e Bioeconomia, coordenada pela Fapespa, em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa). A iniciativa utiliza metodologias reconhecidas internacionalmente, como as da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para estimar com precisão o valor e a estrutura das cadeias produtivas baseadas na sociobiodiversidade.

Mandioca, açaí, cupuaçu, cacau, pesca e aquicultura, mel e oleaginosas como andiroba, copaíba e dendê estão entre as principais cadeias analisadas. O levantamento demonstra que, a cada R$ 1 investido na bioeconomia, são gerados R$ 1,13 no Produto Interno Bruto (PIB), R$ 0,19 em massa salarial e R$ 0,06 em impostos.

Informalidade e desigualdade nas cadeias produtivas

Um dos principais achados do estudo é a elevada informalidade de cadeias essenciais. A produção de mandioca, por exemplo, tem Valor Bruto da Produção (VBP) estimado em R$ 7 bilhões, mas apenas R$ 10 milhões são registrados formalmente. Isso se deve, em grande parte, ao processamento feito em casas de farinha comunitárias, fora do sistema financeiro e das políticas públicas.

O relatório também evidencia a desigualdade na distribuição da renda. No caso da castanha-do-pará, apenas 2,94% do valor final fica com os extrativistas, enquanto a indústria concentra mais de 95% da riqueza. Por outro lado, cadeias organizadas em cooperativas, como as de óleos de andiroba e copaíba, conseguem reter entre 19% e 32% do valor total, mostrando a importância da organização comunitária.

Cadeias mais estruturadas e fluxos comerciais

O estudo identificou que cadeias como a pesca e a aquicultura apresentam maior grau de formalização, com comercialização para estados como São Paulo, Goiás e Distrito Federal, além de exportações. Já o cacau paraense é majoritariamente escoado para a Bahia, principal polo nacional de chocolate.

A análise, baseada em dados de Notas Fiscais Eletrônicas, permite mapear os fluxos comerciais e apoiar políticas de agregação de valor no próprio território paraense.

Impactos das mudanças climáticas

A pesquisa também aponta os efeitos já visíveis da crise climática sobre a produção agrícola e extrativista. Em regiões como Marabá e São Domingos do Araguaia, queimadas e secas severas têm destruído babaçuais e castanhais. No oeste do Pará, há registros de queda na floração das castanheiras e perdas em cultivos essenciais, como feijão, banana e macaxeira.

Com base em mapas elaborados a partir da plataforma AdaptaBrasil, a Rede identificou áreas de alta vulnerabilidade à seca e baixa capacidade adaptativa, o que reforça a necessidade de ações direcionadas à adaptação climática.

Importância dos dados para formulação de políticas públicas

“O que temos agora é um retrato detalhado da bioeconomia no Pará, que nos permite formular políticas públicas mais eficientes. Uma coisa é propor soluções sem entender a complexidade do setor, outra é ter dados que comprovem sua robustez e importância econômica”, destacou Daniel Silva, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Unifesspa, durante apresentação do relatório.

Para o professor Luiz Gonzaga Feijão, da Ufopa, “a bioeconomia da sociobiodiversidade depende de um bioma saudável e resiliente. Nós produzimos com a floresta, e não contra ela. Por isso, os dados são fundamentais para orientar investimentos e políticas públicas”.

(Foto: Divulgação)

O relatório propõe medidas como:

  • Criação de políticas específicas para a economia informal;
  • Fortalecimento de cooperativas e associações locais;
  • Investimento em adaptação climática em áreas mais vulneráveis;
  • Estímulo à industrialização e agregação de valor dentro do Estado.

A Rede de Bioeconomia também anunciou que, nos próximos meses, lançará uma nova agenda de pesquisas sobre temas como restauração florestal, conflitos territoriais, protagonismo feminino nas cadeias produtivas e desenvolvimento de indicadores avançados para medir a economia da floresta.

Cooperação para o desenvolvimento sustentável

A cooperação entre Fapespa e as universidades paraenses estabelece programas integrados de pesquisa, ensino e extensão, com foco em geração de conhecimento, compartilhamento de dados e desenvolvimento de políticas públicas baseadas em evidências.

“A Rede de Bioeconomia organizada pela Fapespa representa um passo fundamental para mensurar a bioeconomia amazônica de forma inovadora. Essas pesquisas ajudam a consolidar práticas existentes e propõem novas abordagens que podem orientar tanto o setor público quanto o privado em direção ao desenvolvimento sustentável”, explicou Atyliana Dias, diretora de Estatística, Tecnologia e Gestão da Informação da Fapespa.

Fonte: FAPESPA (Por: Manuela Oliveira/Ascom Fapespa)

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