| Em 31/05/2017

Estudo sobre Helicoverpa armigera , fomentado pela Fapeg, é publicado na revista Nature

A revista científica britânica Nature publicou, em março deste ano, um artigo científico em que pesquisadores brasileiros e de outros países discutem, por meio de características moleculares a origem da espécie Helicoverpa armigera no Brasil. Este estudo teve a participação da professora da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (UFG), Cecília Czepak, que forneceu amostras da espécie para que a pesquisa fosse possível.

A presença da lagarta foi identificada recentemente no País e tem surpreendido produtores e pesquisadores pelo seu alto poder de destruição, causando prejuízos, principalmente, às lavouras de milho, soja e algodão. O artigo foi publicado na revista Nature em parceria com o Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation (CSIRO), órgão para pesquisa científica na Austrália, parceiro também na pesquisa.

As amostras foram coletadas em algumas localidades do Brasil, especialmente em Goiás e o trabalho contou com a colaboração de uma equipe formada por outros professores, pesquisadores, técnicos e alunos. Esta pesquisa e outras que estão em andamento sobre a lagarta têm fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) e contrapartida da UFG.

O projeto de pesquisa intitulado Manejo Integrado de H. armigera no Estado de Goiás recebe fomento da Fapeg desde junho de 2014 e a professora doutora ressalta que “sem esse tipo de apoio dificilmente chegaríamos ao patamar de conhecimento que já alcançamos, porém precisamos fazer mais ainda, pois estamos apenas começando e há muito o que fazer em relação a essa praga em Goiás”.

Registro da praga
A professora conta que há tempos a comunidade científica vinha observando esta praga nas lavouras de soja e tomate, porém, relata como esta espécie tem semelhanças morfológicas muito próximas a outras, pensava-se se tratar de apenas surtos de populações resistentes. “Com o passar dos meses percebemos o comportamento da espécie. A agressividade com que atacava as culturas, principalmente as partes reprodutivas, como frutos e grãos, preocupou-nos. Passamos a questionar se ali não havia algo de diferente. Foi então que coletamos amostras desses espécimes e enviamos para identificação”, salienta.

Segundo a professora, com a ajuda do taxonomista do Instituto Uiraçu, da cidade de Camacan (BA), Dr. Vitor Becker, especialista em taxonomia de lepidópteros, soube-se que aquelas amostras se tratavam, na verdade, da espécie H. armigera. “A partir daí, iniciou-se um processo de notificação no Ministério da Agricultura, Pecuária e Irrigação (Mapa), pois sendo uma espécie quarentenária, não poderíamos relatá-la sem antes obtermos a autorização do Mapa. Feito isso, publicamos um artigo, alguns meses depois, sobre a primeira ocorrência dessa praga no Brasil”, conta Cecília Czepak. Uma espécie quarentenária, segundo definição da Embrapa, é um organismo de natureza animal ou vegetal que estando presente em outros países ou regiões, mesmo sob controle permanente, constitui ameaça à economia agrícola do país ou região importadora exposta.

A comunicação científica com o primeiro registro de ocorrência de H. armigera no Brasil, que era considerada, até o momento, uma praga quarentenária A1, foi feita em 2013 pela equipe a qual a pesquisadora está ligada, por meio de um artigo publicado na Revista Pesquisa Agropecuária Tropical da Universidade Federal de Goiás (UFG)R (Goiânia, v. 43, n. 1, p. 110-113, jan/mar 2013). A notificação ocorreu nos Estados de Goiás, na cultura da soja; Bahia, em tiguera de soja; e Mato Grosso, na cultura do algodoeiro.

Origem e biossegurança

A pesquisa da origem da H. armigera no Brasil, publicada na Nature, por pesquisadores do CSIRO, tendo como coautores quatro brasileiros e dentre eles a professora Cecilia Czepak, está baseada principalmente em estudos de DNA mitocondrial e no cruzamento de dados sobre a comercialização agrícola do Brasil com diferentes países dos diversos continentes. A pesquisa detectou a ocorrência de 20 halotipos, originados de seis estados brasileiros, sendo que oito desses são novos, ou pelo menos desconhecidos até o momento. A professora explica que, com o cruzamento das informações de comércio exterior e DNA mitocondrial, pode-se inferir que os espécimes de H. armigera presentes no Brasil tiveram origem na Europa, Ásia e África.

Para Cecília Czepak, a importância maior da pesquisa está na biossegurança. Ela explica que com este trabalho foi possível detectar falhas importantes no sistema quarentenário brasileiro e alertar o Brasil e o restante dos países, para a possibilidade de riscos para a agricultura, com a entrada de novas pragas, principalmente levando em consideração a globalização e a facilidade com que o comércio entre os países se dá. “Da mesma forma como a H. armigera entrou, outras pragas poderão ser introduzidas se não houver uma mudança generalizada nas questões relacionadas à comercialização entre países”, alerta.

“Ficou claro neste estudo que H. armigera está a mais tempo do que se pensava no Brasil, e o que é pior, não foi apenas uma única entrada, e sim várias e em diferentes pontos do País. Também não foi fruto de bioterrorismo, mas sim fruto do descuido na fiscalização dos produtos agrícolas importados pelo governo brasileiro”, avalia.

Potencial destrutivo
A lagarta H. armigera tem atacado um número cada vez maior de plantas, inclusive as que se desenvolvem de forma voluntária ou que são cultivadas na entressafra. A praga atinge mais de 180 espécies de plantas hospedeiras, podendo alimentar-se de praticamente todas as culturas de interesse econômico, como soja, milho, tomate, feijão, algodão, sorgo, hortaliças e citros. A lagarta apresenta ainda uma ampla capacidade adaptativa e reprodutiva. Uma mariposa fêmea, por exemplo, pode depositar até 1.500 ovos por ciclo, de forma isolada, e migrar a uma distância de até mil quilômetros, comprovando sua alta capacidade de dispersão. E se alimenta de folhas e caules, mas têm preferência por brotos, inflorescências, frutos e vagens.

Para Cecília Czepak, a pesquisa “passa a ser importante para o Estado, porque Goiás é o maior produtor de tomate do Brasil e a H. armigera, ao se disseminar pelo País, principalmente para todas as regiões de Goiás, tornou-se praga-chave para essa cultura e outras tantas”. Ela explica que a H. armigera é uma praga quarentenária de importância mundial, que já ocasionou prejuízos de bilhões no mundo, e no Brasil, desde a sua notificação oficial em 2013, os relatos da sua presença são frequentes em várias culturas, sempre obrigando o produtor a se empenhar mais no seu controle.

Nesse ponto, os prejuízos financeiros para os agricultores, o uso indiscriminado de agroquímicos, inclusive inseticidas contrabandeados que acabam selecionando espécimes resistentes, são algumas consequências provenientes da presença da praga. Cecília Czepak alerta para a necessidade da parceria entre academia, governo e produtor para o controle e manejo do inseto. Ela explica que os trabalhos de pesquisa constam de coletas em todo o Estado de Goiás para mapear a praga nas diferentes localidades e culturas.

Parcerias e apoio no mapeamento
A pesquisadora também conta com parceria da professora Karina C. A. Godinho e alunos da graduação e pós-graduação da Escola de Agronomia, do Laboratório de PD&I de BioProdutos/LPPN (UFG) da Faculdade de Farmácia e UEG. Tem ainda a parceria efetiva, principalmente relacionada à coleta, identificação e análise dos dados dos seguintes órgãos: Agrodefesa, Emater, Lanagro/GO, Superintendência do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento em Goiás, Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Científico e Tecnológico e de Agricultura, Pecuária e Irrigação de Goiás (SED), Federação da Agricultura do Estado de Goiás (FAEG) e também o CSIRO na Austrália, que tem ajudado na identificação molecular das amostras coletadas.

A pesquisadora também reforça o apoio imprescindível dos produtores que, em caso de suspeita devem comunicar para que se possa fazer a coleta e a identificação dos espécimes suspeitos. Segundo ela, a Escola de Agronomia e a Agrodefesa trabalham em parceria para prestar assessoramento ao produtor no sentido de planejar ações fitossanitárias, pois produtos usados e aplicados de forma indiscriminada acabam selecionando indivíduos resistentes. A aplicação constante de inseticidas para controlar as pragas, além de não gerar os resultados esperados pode causar problemas à saúde do trabalhador rural, à sua família, aos consumidores dos produtos e ao meio ambiente.

Fonte: Assessoria de Comunicação Social da Fapeg (texto: Helenice Ferreira / fotos: Arquivo da pesquisadora).

 

Leia também

Em 12/03/2026

Projeto apoiado pela Fundect usa nanotecnologia para ampliar efeito de quimioterápicos

Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), com apoio do Governo do Estado, por meio da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação) e da Fundect (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul), avançou no desenvolvimento de […]

Em 11/03/2026

Projeto apoiado pela Fapt é selecionado em programa nacional de empreendedorismo feminino

Um projeto desenvolvido no Tocantins foi selecionado entre as 50 iniciativas escolhidas na categoria Tração do programa Empreendedoras Tech, voltado a mulheres que lideram negócios inovadores de base tecnológica. A proposta conta com apoio do Governo do Tocantins, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Tocantins (Fapt), dentro das ações do Programa Centelha 2 […]

Em 11/03/2026

Edital Fapesb, Secti e IEL incentiva fixação de pesquisadores em empresas baianas

Ampliar a presença de pesquisadores no ambiente empresarial e transformar conhecimento científico em soluções concretas para o setor produtivo são os principais objetivos do Edital Fixação de Profissionais de P&D no Ecossistema Produtivo Baiano, lançado nesta segunda-feira (2), em Salvador. A iniciativa é resultado de uma articulação entre a Fundação de Amparo à Pesquisa do […]

Em 11/03/2026

FAPDF lança Programa Deep Tech com R$ 9,8 milhões para transformar pesquisa científica em negócios no Distrito Federal

A Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) lança o Programa Deep Tech FAPDF, a nova iniciativa estratégica da Fundação voltada à criação e aceleração de negócios de base científico-tecnológica deep tech no Distrito Federal. Com investimento total de R$ 9,8 milhões, o programa busca transformar projetos científicos em startups deep tech de […]

Em 11/03/2026

Funcap lança edital 04/2026 – Mulheres Empreendedoras

A Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), órgão vinculado à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Educação Superior (Secitece), informa o lançamento do edital 04/2026 – Mulheres Empreendedoras. Com investimento total de R$ 1 milhão, a iniciativa busca ampliar a participação feminina na área de inovação, promovendo projetos com potencial de impacto […]

Em 09/03/2026

Funcap lança edital 03/2026 do Programa de Apoio à Realização de Eventos Científicos

A Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), órgão vinculado à Secretaria da Ciência, Tecnologia e Educação Superior (Secitece), informa o lançamento do edital 03/2026 – Programa de Apoio à Realização de Eventos Científicos, que tem como objetivo apoiar congressos, simpósios, seminários, ciclos de conferências e outros similares relacionados à ciência, à […]

Em 12/03/2026

Inscrições abertas para o Prêmio CBMM de Ciência e Tecnologia 2026

A Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) abriu, na segunda-feira (9), as inscrições para o Prêmio CBMM de Ciência e Tecnologia 2026. A iniciativa reconhece o legado de profissionais que se dedicam à produção científica e tecnológica brasileira. Poderão concorrer profissionais que tenham desenvolvido produtos, processos, metodologias e/ou serviços inovadores nas áreas de Ciências […]