| Em 15/12/2022

Estudo analisa as complicações neurológicas induzidas por gatilhos virais

Estudo desenvolvido no HUCFF/UFRJ analisa doenças neurológicas induzidas por viroses como os arbovírus e o SARS-Cov-2, causador da Covid-19 (Foto: Kjpargeter/Freepik)

Uma pesquisa translacional, que vai da bancada ao leito, em busca de avanços nos mecanismos associados com as complicações neurológicas induzidas por viroses como os arbovírus e o SARS-Cov-2, causador da Covid-19. Este é o objetivo do projeto de Soniza Vieira Alves Leon, médica do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (HUCFF/UFRJ), e professora titular de Neurologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). A ideia é estabelecer ferramentas para o diagnóstico precoce, prevenção e tratamento das diferentes comorbidades neurológicas induzidas por gatilhos virais.

A exposição a fatores ambientais, como as viroses endêmicas e durante a pandemia da Covid-19, tem demonstrado que manifestações neurológicas muito semelhantes a doenças autoimunes, inflamatórias e neurodegenerativas do sistema nervoso central podem se manifestar em alguns pacientes. A semelhança nas caraterísticas clínicas, nos exames de neuroimagem e a presença de biomarcadores no líquor e no plasma contribuem na identificação de possíveis mecanismos compartilhados entre essas doenças e quadros pós-infecciosos em indivíduos geneticamente suscetíveis.

Relatos clínicos e experimentais já demonstraram que a Chikungunya pode ultrapassar a barreira hematoencefálica e atingir o parênquima cerebral. Mas quais são as características morfológicas das lesões cerebrais induzidas pelo vírus? O grupo de Soniza pretende avançar para definir o padrão de infecção causada pelo vírus e por que esse vírus provoca comprometimento neurológico em alguns pacientes. Vale ressaltar que os fatores de risco que determinam quais indivíduos irão desenvolver complicações neurológicas após infecção ainda não foram identificados. Os pesquisadores esperam apontar os padrões radiológicos e morfológicos da infecção do sistema nervoso central pelo Chikungunya, e correlacionar a presença de biomarcadores em sangue periférico e líquor com o comprometimento neurológico induzido pelo vírus.No caso dos indivíduos contaminados pelo Zika, há risco de doenças desmielinizantes inflamatórias do sistema nervoso. São inúmeros relatos mundiais da associação como mielite aguda, neurite óptica, síndrome de Guillain-Barré e encefalomielite aguda disseminada. E no caso das infecções por Covid-19, o grupo de pesquisadores mostrou que as manifestações precoces do sistema nervoso foram associadas a maior risco de letalidade e biomarcadores de neurodegeneração estão associados à algumas manifestações da Covid longa.

Soniza Leon, que vem desenvolvendo estudos sobre doenças que envolvem o sistema nervoso após infecções virais, recebe apoio da FAPERJ por meio do programa Cientista do Nosso Estado (Foto: Divulgação)

O grupo coordenado por Soniza, Cláudia Figueiredo e outros pesquisadores da UFRJ foi agraciado na 7ª edição do Programa de Pesquisa para o SUS, em edital lançado pela FAPERJ, a partir de dados de uma coorte retrospectiva com 345 pacientes internados por suspeita de infecção por arbovírus no Rio de Janeiro e coortes de pacientes graves com Covid-19 e de síndrome pós-Covid ou Covid-longa. Com base nesses pacientes, o grupo realiza estudos de bioinformática para analisar possíveis similaridades moleculares entre antígenos virais e autoantígenos encefalitogênicos associados às doenças desmielinizantes do sistema nervoso central. É importante ressaltar que o espectro das doenças desmielinizantes inflamatórias é amplo, mas a mais frequente é a esclerose múltipla, cujo diagnóstico diferencial inclui cuidadosa pesquisa de marcadores infecciosos.

A ocorrência de endemias virais de desfechos clínicos imprevisíveis é altamente frequente em todo mundo. As epidemias de arboviroses como Zika e Chikungunya que ocorreram no Brasil nos últimos anos, assim como a pandemia da Covid-19, vêm causando de prejuízos irreparáveis à população. “O subreconhecimento das manifestações neurológicas agudas e crônicas induzidas por arbovírus e pelo SAS-CoV-2 geram prejuízos incalculáveis para o SUS. Compreender os mecanismos e fatores de risco associados com essas condições permitirá o avanço na implementação de uma medicina de precisão para diagnóstico e tratamento desses pacientes”, ressaltou Soniza.

O grupo conta com a plataforma de análise de molécula única SIMOA, adquirida por meio do edital Apoio às Instituições de Ensino e Pesquisa Sediadas no Rio de Janeiro, da FAPERJ, uma ferramenta inovadora que identifica no sangue periférico biomarcadores antes analisados somente no líquor, e que são associados ao diagnóstico e monitoramento evolutivo de doenças que envolvem o sistema nervoso, como anticorpos e produtos de degradação de neurônios. Os pesquisadores dispõem ainda de plataformas para sequenciamento genético desses pacientes, e participam da rede do Ministério da Saúde com o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), coordenada pela professora Ana Tereza Vasconcelos.

Soniza Vieira Alves Leon é professora titular de Neurologia, já publicou mais de 130 artigos científicos em revistas de impacto como Frontiers, Nature Medicine, Nature Communication, Multiple Sclerosis Journal e PlosOne, tendo mais de 23 mil visualizações e 3.500 citações. Ela vem desenvolvendo seus estudos com suporte do programa Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, e também é pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e revisora de diversos periódicos internacionais e agências de fomento.

Fonte: FAPERJ (por Claudia Jurberg/Ascom Faperj)

 

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