| Em 13/04/2026

Aquecimento dos oceanos já altera biodiversidade marinha no Espírito Santo, aponta pesquisa apoiada pela Fapes

Estudo da Ufes aponta aumento da temperatura do mar, perda de biodiversidade e riscos para comunidades costeiras. (Foto: Divulgação)

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) acende um alerta para os impactos das mudanças climáticas nos oceanos do Espírito Santo. A pesquisa identificou o aumento da frequência e da intensidade das chamadas ondas de calor marinhas, fenômeno que já provoca alterações significativas na biodiversidade e na estrutura dos ecossistemas costeiros do estado.

Coordenado pelo professor Angelo Bernardino, do Departamento de Oceanografia, o estudo integra o Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração (PELD), iniciativa nacional do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e que, no Espírito Santo, tem o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes).

Ao longo de quase uma década de monitoramento contínuo na região de Santa Cruz, em Aracruz, dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Costa das Algas, os pesquisadores construíram a principal série histórica sobre mudanças climáticas marinhas no estado.

As ondas de calor marinhas são caracterizadas por períodos prolongados de temperaturas acima da média no oceano. Segundo Bernardino, esses eventos têm se tornado mais frequentes e intensos, causando impactos diretos na vida marinha.

“Esse aumento de temperatura provoca mortandade de espécies e perda de biodiversidade, afetando organismos fundamentais para o equilíbrio ecológico dos oceanos”, explica.

Os dados levantados revelam um cenário preocupante. Embora alguns organismos consigam se recuperar após eventos extremos, a pesquisa aponta que não há retorno completo às condições originais. “Observamos uma recuperação parcial, mas não ao estado inicial. Isso indica um processo contínuo de degradação da biodiversidade marinha no litoral do Espírito Santo”, destaca Bernardino.

Primeira autora do estudo, a pesquisadora Ana Carolina Mazzuco, que realizou o trabalho durante o pós-doutoramento no PELD com bolsa de Fixação e Aperfeiçoamento de Doutores no Espírito Santo (PROFIX) da Fapes, afirma que o impacto do calor é ainda maior quando coincide com a maré baixa.

“O estresse térmico aumenta quando os organismos ficam expostos ao ar. A coincidência de ondas de calor com esses períodos cria condições críticas que as espécies locais podem não suportar”, esclarece.

Entre os impactos mais relevantes está a redução de áreas recifais, causada principalmente pelo aumento da temperatura da água. Os corais, que formam esses ambientes, são altamente sensíveis às variações térmicas. Com eventos cada vez mais frequentes, muitas espécies não conseguem se recuperar a tempo, o que compromete toda a cadeia ecológica.

Impactos sociais também preocupam

Além dos efeitos ambientais, o estudo também aponta consequências sociais. Ecossistemas como recifes e manguezais funcionam como áreas de reprodução e alimentação de diversas espécies de interesse comercial. De acordo com Bernardino, a degradação desses ambientes pode impactar diretamente comunidades costeiras.

“A perda desses habitats reduz a disponibilidade de recursos pesqueiros e pode afetar a segurança alimentar de populações que dependem do mar”, ressalta o coordenador.

Os resultados reforçam a urgência de ações de mitigação das mudanças climáticas. Para o pesquisador, a principal medida é a redução das emissões de gases de efeito estufa, responsável pelo aquecimento global e, consequentemente, pelo aumento da temperatura dos oceanos.

“Sem a redução dessas emissões, a tendência é de agravamento desses eventos, com impactos cada vez mais severos sobre os ecossistemas marinhos”, alerta.

Pesquisador celebra apoio contínuo da Fapes

Para Bernardino, o desenvolvimento da pesquisa só foi possível graças ao financiamento público voltado à ciência. Ele fez questão de enfatizar que o apoio da Fapes foi fundamental para a realização de expedições de campo, análise de dados e formação de novos pesquisadores.

Ao todo, o projeto selecionado no PELD aberto em 2020 recebeu R$ 700 mil em recursos, sendo R$ 200 mil exclusivamente da Fapes, por meio do Fundo Estadual de Ciência e Tecnologia (Funcitec).

“O suporte da Fapes é essencial para garantir a continuidade de estudos de longo prazo como o PELD, além de possibilitar a formação de estudantes e a produção de conhecimento científico de qualidade”, pontua o pesquisador.

Para o diretor técnico-científico da Fapes, Celso Saibel, investir em pesquisas como essa é fundamental para compreendermos os efeitos das mudanças climáticas em nossos ecossistemas e anteciparmos seus impactos na sociedade.

“A Fapes tem o compromisso de apoiar estudos estratégicos que gerem conhecimento qualificado e contribuam para a formulação de políticas públicas, especialmente em temas urgentes como a preservação dos oceanos e da biodiversidade marinha”, salienta Saibel.

Fonte: FAPES (Por: Ascom Fapes)

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