O presidente da Embrapii, Jorge Guimarães, disse que os acordos da instituição com as universidades federais são minoria entre os projetos realizados em dois anos da empresa – na 68ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência que se realiza esta semana em Porto Seguro (BA). Nesta quarta-feira, 05, Guimarães discorreu sobre o papel da Embrapii no suporte à inovação no Brasil (SBPC Inovação).
Embora tenham competência para fazer projetos inovadores em parceria com a Embrapii, Guimarães afirmou que uma parte das universidades não está conseguindo se credenciar diante de dificuldades para estreitar relações com o setor privado.
Nesse contexto, Guimarães chamou a atenção para a execução do Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, sancionado em janeiro com oito vetos, e acredita que a legislação terá dificuldade para funcionar nas universidades federais. A avaliação é de que existem procuradorias nas universidades que engessam o setor, dificultando, por exemplo, assinaturas de contratos com as empresas para execução de projetos de pesquisa com enfoque industrial. Os sinais também são de dificuldade de contratação de pesquisadores por tempo limitado.
Do lado da plateia, o novo secretário de desenvolvimento tecnológico e inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), Álvaro Prata, ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), analisou os comentários de Guimarães e acrescentou que a “visão ideológica” em muitas universidades federais, onde a parceria com o setor industrial “não é vista com bons olhos”, é um dos principais pontos que devem inviabilizar o funcionamento do Marco Legal nas universidades federais.
“Muitas universidades não concordam com esse modelo, acham que não devem fazer esse tipo de parceria”, disse e emendou. “Para não falar do quintal dos outros, falo do meu próprio quintal, a Universidade Federal de Santa Catarina que nas dez unidades credenciadas foi a última a assinar o contrato e quase que não assinou (com a Embrapii). Esse é o nosso problema”, declarou.
A Embrapii fechou parceria com vários institutos federais em contrato de gestão com o Ministério da Educação (MEC). Hoje são 28 unidades.
Carência de cientistas e engenheiros
O presidente da Embrapii mostrou o cenário do movimento empresarial em busca da inovação no mundo e a participação dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) em países como França, Taiwan, Austrália e Japão, onde o investimento em P&D é elevado e há 3 mil cientistas por milhão de habitantes.
No Brasil são aplicados 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e existem 700 cientistas por milhão de habitantes. Guimarães voltou a lamentar o fato de a maioria (60%) dos investimentos no setor ser aplicada pelo governo, e 40% pelo setor privado, liderado pela estatal Petrobras.
Conforme disse, nos Estados Unidos quem produz patentes são as empresas, enquanto que uma pequena parcela, de 3%, é aplicada pelas universidades, ao contrário do Brasil. “Nossa empresa investe pouco em pesquisa e desenvolvimento.”
Alguns dos principais objetivos da Embrapii é promover inovação na indústria, em um esforço de reduzir riscos e aumentar recursos em P&D pelo setor empresarial, reiterou Guimarães. A intenção é alavancar os investimentos para 2% do PIB, sob a influência do setor privado e também de estimular o aumento de cientistas. Para fazer acordos com a Embrapii, por exemplo, é preciso ter foco em projetos e plano de ação para seis anos.
Para o novo secretário do MCTIC, Álvaro Prata, o principal problema da área de ciência, tecnologia e inovação no Brasil não é somente de financiamento. Para ele, é necessário dobrar o número de cientistas e engenheiros.
Modelo que dá certo
Prata avaliou o projeto Embrapii e disse que “esse é um modelo que dá certo no Brasil”, porque aponta a direção, fomenta e avalia os passos seguintes, parecido “com modelo Capes”. Ele disse que este ano o MCTIC destinou R$ 59 milhões à Embrapii e acrescentou que esse é um “dinheiro bem empregado”.
Hoje a Embrapii tem acordos com 80 companhias, entre pequenas e médias empresas, dentre as quais Embraer, Natura, Votorantim e Vale. O presidente da Embrapii voltou a chamar a atenção para a ausência de acordos com o setor farmacêutico, apesar do déficit superior a US$ 10 bilhões na balança comercial de fármacos.
A instituição está negociando com o Ministério da Saúde para fazer acordos com o Instituto Butantan, por exemplo, prática que será aplicada também em outros setores, como a área da Defesa. A instituição quer acordos também com a Capes, para contratação de pós-doutorado e com o CNPq, para atrair alunos do Programa Ciência sem Fronteiras.
Mesmo diante da crise econômica, o presidente da Embrapii comemora o número de empresas prospectadas a partir de 2014, cujas contratações somaram R$ 10 milhões, valores que subiram para R 116 milhões, em 2015. Segundo Guimarães, de janeiro a março deste ano os números somam R$ 47,47 milhões contratados. “Apesar da crise, a inovação cresceu no caminho que estamos buscamos.”
Fonte: Viviane Monteiro – Jornal da Ciência