| Em 17/11/2021

Consumo de álcool deixa marcas genéticas que podem causar câncer de esôfago

Figura ilustra pesquisa com marcas genéticas associadas ao consumo do álcool na análise de tumores de esôfago no Brasil. (Imagem: divulgação INCA)

Uma pesquisa inédita conduzida por pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer constatou que o álcool deixa marcas físicas – ou assinaturas mutacionais – nas células do esôfago, o que pode ocasionar o tipo mais frequente de câncer no órgão, o carcinoma epidermoide. O estudo foi publicado em 18 de outubro pela revista Nature Genetics. O estudo contou com o apoio da FAPERJ.

A análise faz parte do projeto Mutographs, liderado pela Agência Internacional para Pesquisa em Câncer/Organização Mundial da Saúde (IARC/OMS) e pelo Instituto Sanger do Reino Unido, que conta com um grupo de cientistas de dez países. O Inca representa o Brasil e a América Latina no projeto, com os pesquisadores Sheila Coelho Soares Lima e Luis Felipe Ribeiro Pinto, chefe do Programa de Carcinogênese Molecular e coordenador de pesquisa do Instituto. Ribeiro foi contemplado nos programas de fomento à pesquisa da Fundação intitulados Cientista do Nosso Estado e Programa de Apoio a Projetos Temáticos no Estado do Rio de Janeiro. Sheila, por sua vez, recebe apoio por meio do programa Jovem Cientista do Nosso Estado.

De acordo com os pesquisadores, foram examinados 552 genomas de pacientes com câncer de esôfago de oito países (Brasil, China, Irã, Japão, Kenya, Malawi, Reino Unido e Tanzânia) durante cinco anos. Do total das estruturas genéticas investigadas, 5,4% são de brasileiros pacientes do Inca. No País, um dos fatores de risco mais conhecidos para a doença é o consumo de álcool, seguido pelo uso do tabaco e de bebidas em altas temperaturas, como o chimarrão.

A partir do material coletado, que incluiu amostras de tecido tumoral e de sangue dos pacientes, os pesquisadores procuraram pela chamada “assinatura mutacional”, que é um padrão específico de mutações no DNA de alguns tipos de câncer. A ideia é que, ao sequenciar todo o genoma de um tumor, seja possível encontrar o perfil dessas assinaturas e assim indicar quais componentes foram responsáveis por levar ao desenvolvimento do câncer naquele paciente.

Luis Felipe Ribeiro, chefe do Programa de Carcinogênese Molecular e coordenador de Pesquisa do Inca, e Sheila Coelho Soares: pesquisadores contam com apoio da FAPERJ para a realização de suas pesquisas (Foto: Divulgação/Inca)

De acordo com Ribeiro Pinto, a observação dessas assinaturas confere uma relação causal entre determinados hábitos ou exposições ambientais e o câncer, reforçando dados epidemiológicos que, em geral, não oferecem provas físicas.

“Um caso conhecido é o de câncer de pulmão, em que essa espécie de marca genética é causada pelo tabaco. O que observamos e ficou comprovado nesta análise é que o álcool deixa um rastro específico nos tumores de esôfago. No entanto, seguiremos realizando outros estudos, com novas amostragens, buscando investigar as marcas dos outros agentes conhecidos”, explica o pesquisador.

Mais um fator observado, que também pode estar relacionado a essas marcas mutacionais pesquisadas é o envelhecimento precoce, que pode estar diretamente associado ao baixo índice de desenvolvimento humano dos grupos pesquisados. “Ou seja, além de fatores já destacados, como o consumo de tabaco e de do álcool, o fator em comum e que pode estar por trás das assinaturas observadas nesses cânceres parece ser o baixo nível socioeconômico”, explica Sheila.

Para a pesquisadora, a partir desse tipo de análise, é possível trabalhar de maneira mais precisa na prevenção primária e evitar que a doença se desenvolva.

O câncer de esôfago é o oitavo tipo mais incidente no mundo e o sexto de maior mortalidade, segundo dados da IARC. A maioria dos casos ocorre em países de baixa e média rendas. No Brasil, a doença é a sexta mais incidente, de acordo com dados do Inca, e a quinta de maior mortalidade entre os homens, sem considerar os tumores de pele não melanoma. As regiões Sul e Sudeste são as de maior incidência, com risco estimado de 14,48 e 9,53 casos por 100 mil habitantes, respectivamente.

 

Fonte: FAPERJ (* Com informações da Assessoria de Comunicação Social do Inca)

 

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