O repórter Reinaldo José Lopes, da Folha de S.Paulo, considera jornalismo e ciência formas de resistência em um mundo em que nem sempre se baseia em evidências e argumentação. Vencedor do 37º Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica, ele fez uma palestra na 69ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na terça-feira (18), em Belo Horizonte (MG) – onde recebeu a condecoração das mãos do secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), Elton Zacarias, no último domingo (16).
Na opinião de Lopes, apesar das dificuldades, ainda vale a pena acreditar na carreira de jornalismo científico. “Em primeiro lugar, porque talvez seja uma das melhores maneiras de se fazer jornalismo propriamente dito, pela possibilidade de testar hipóteses com base em evidências e não em preconceitos políticos, ideológicos ou religiosos”, explicou. “Esse caráter provisório e falseável do que a gente sabe sobre o mundo é crucial para a ciência e o jornalismo. Outra vantagem é a capacidade de criar uma arena de debate público onde o argumento de autoridade não deve ter lugar. É de novo a ideia da base em evidências, de investigar o mundo da forma menos apaixonada possível.”
Para o repórter, outras editorias de jornalismo abrigam uma “armadilha” em busca da aparência de imparcialidade, pela qual os veículos confrontam posições antagônicas sem se importarem com o conteúdo declarado pelos lados do debate. “Mas é uma canalhice muito grande você dar peso igual a coisas que não têm a mesma base de evidência e argumentação”, avaliou, em referência, por exemplo, a discussões em torno de mudanças climáticas e células-tronco.
O jornalismo científico tem, na visão de Lopes, o papel de desanuviar “um ambiente de debate público absurdamente envenenado para ambos os lados, independentemente da narrativa política”. Segundo ele, essa atmosfera tóxica contamina tanto as redes sociais quanto as ruas, ao sobrepor posições ideológicas à racionalidade e à veracidade dos fatos, sem solução aparente. “Se você se limitar a jogar uma montanha de fatos na cabeça da pessoa, ela pode ficar ainda mais entrincheirada em sua posição. Não é trivial.”
Sobre a editoria em si, o repórter lamentou que o jornalismo científico seja um dos primeiros a ser cortado em situações de crise nos veículos e na imprensa. “Somos as pessoas que, em geral, vão perder o emprego antes dos colegas”, afirmou. “Não é à toa que só sobrou um jornal de alcance nacional com uma equipe dedicada exclusivamente à ciência, a Folha de S.Paulo. Existe um argumento de que o importante é que haja uma transversalidade, para cobrir ciência nas diferentes editorias. Segundo essa concepção, daria para falar de ciência em esportes, no caderno de cidades, em política. Não é bem assim.”
Promovido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica é um reconhecimento a jornalistas, instituições ou pesquisadores que atuam para a formação de uma cultura científica e para popularizar atividades de pesquisa entre o grande público. Reinaldo Lopes venceu o concurso na categoria Jornalista em C&T, entre 35 candidatos.
Premiações
Antes da palestra de Lopes, o presidente do CNPq, Mario Neto Borges, destacou os trabalhos dos vencedores do 6º Prêmio de Fotografia – Ciência & Arte e do 14º Prêmio Destaque na Iniciação Científica e Tecnológica, além de convidar o público para um evento em torno do Prêmio Jovem Cientista (PJC), quarta-feira (19), às 10h, no pavilhão do MCTIC na mostra ExpoT&C.
“Uma das coisas mais bonitas dentro das reuniões anuais da SBPC é realmente o envolvimento dos jovens cientistas”, comentou Borges. “Eu tenho falado, desde que cheguei ao CNPq, há sete meses, que uma das nossas prioridades é realmente investir nessa nova geração. Essa moçada aí é que vai realmente continuar lutando pela ciência brasileira e pode fazer a diferença. Vocês, jovens cientistas, são onde depositamos toda a nossa esperança.”
Borges e o diretor de Políticas e Programas de Ciências do MCTIC, Sávio Raeder, entregaram certificados aos seis alunos vencedores do Prêmio Destaque da Iniciação Científica e Tecnológica, além da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), agraciada na categoria Mérito Institucional, e aos contemplados nas duas categorias Prêmio de Fotografia – imagens produzidas por câmeras fotográficas e instrumentos especiais.
Fonte: MCTIC.