
A tecnologia nem sempre está em circuitos, sensores ou dispositivos eletrônicos. Ela também pode surgir de uma nova maneira de fazer algo que já conhecemos. Na costura, a escolha dos materiais e as técnicas de confecção podem transformar uma peça de vestuário em uma solução para necessidades específicas do cotidiano.
Foi uma situação vivida dentro da própria família que levou a costureira Maria José, de 68 anos, a buscar uma alternativa para um problema que afetava a qualidade de vida do irmão. Durante a pandemia da covid-19, familiares que contraíram a doença desenvolveram sequelas, entre elas a incontinência urinária, e passaram a precisar de fraldas descartáveis. Um deles foi Josué, irmão de Maria José.
Mesmo com o uso de fraldas de maior custo, os vazamentos continuavam. Além do desconforto, a situação provocava constrangimento e contribuía para o isolamento de Josué. Diante das mudanças na rotina e da perda de autonomia, ele desenvolveu um quadro depressivo.
Na tentativa de encontrar uma solução, Maria José pesquisou produtos disponíveis no mercado, entre eles os shorts antivazamento. As peças, porém, não correspondiam ao que ela considerava adequado para pessoas acamadas, especialmente em relação ao acabamento e aos cuidados com a pele. “Quando eu vi o short, pensei: ‘Misericórdia, a pessoa já está doente, acamada, com a pele bem sensível. Se usar esse short, é uma escara na certa. A costura grosseira, o elástico, antes de você usar, já estava enrolando dentro”, relatou.
Com mais de 50 anos de experiência na costura, Maria José decidiu desenvolver a própria alternativa. A experiência acumulada no ofício serviu de ponto de partida para uma série de testes com diferentes tecidos e técnicas de confecção. O objetivo era encontrar uma solução que ajudasse a conter os vazamentos sem deixar de lado o conforto de quem usaria a peça.
Depois de experimentar diferentes combinações, ela chegou a um short composto por quatro camadas de tecidos com propriedades específicas, como absorção, impermeabilidade e respirabilidade, além de características antiodor, antifúngicas e antibacterianas. Entre os materiais utilizados estão o algodão orgânico produzido na Paraíba e o modal, fibra têxtil de origem celulósica. A costureira também desenvolveu um acabamento com costuras embutidas, pensado para reduzir o atrito com a pele e o risco de lesões.
A peça funciona como uma barreira protetora usada sobre a fralda descartável, com o objetivo de evitar vazamentos. Para Josué, a solução contribuiu para recuperar a autonomia e a convivência social afetadas pelas dificuldades que enfrentava.
Foi Michele Wadja, filha de Maria José, quem percebeu que a criação da mãe poderia ultrapassar o contexto familiar. O que começou como uma tentativa de melhorar a qualidade de vida de Josué também poderia representar uma alternativa para outras pessoas que enfrentam situações semelhantes.
A partir dessa percepção, Michele sugeriu inscrever a iniciativa no Programa Centelha Paraíba, executado pelo Governo da Paraíba, por meio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (Fapesq) e Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior (Secties). Selecionado entre os projetos vencedores, o Roupas Inteligentes recebeu apoio para ampliar sua estrutura e avançar no desenvolvimento da solução.
Com a conquista, o projeto adquiriu máquinas computadorizadas para as etapas de preparação e corte dos tecidos. O conjunto inclui equipamentos para estender o tecido e realizar o corte das peças, ampliando a capacidade produtiva da empresa.
A iniciativa também ganhou visibilidade em eventos internacionais de tecnologia. Com apoio da Secties e da Fapesq, a startup participou do Web Summit, em Lisboa e no Rio de Janeiro. A presença nos eventos ampliou a exposição do projeto e possibilitou o contato com novos públicos e potenciais parceiros.
À frente da startup como CEO, Maria José vê em sua trajetória uma demonstração de que a inovação não tem idade. Aos 68 anos, ela conta que voltou a sentir o entusiasmo de quando era mais jovem, mesmo diante das críticas que recebeu por continuar trabalhando. “Antes, muitas pessoas da terceira idade me criticavam. Como eu, depois de velha, esperando a morte chegar, ia trabalhar? Pra deixar pra quem? Como elas me veem hoje, não sei. Mas me sinto com 30 anos de novo. Oportunidade de inovar tem, incentivo tem, basta você querer”, refletiu.
A trajetória do projeto apoiado pelo Centelha Paraíba mostra como o conhecimento prático pode se transformar em inovação e responder a necessidades reais. Atualmente, a startup possui quatro patentes registradas na linha de produtos anti-vazamento, que protegem legalmente suas criações.
O Programa Centelha é uma iniciativa nacional do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI, Finep, CNPq), executado na Paraíba pela Fapesq.
Fonte: FAPESQ (Por: Nathália Aguiar/Ascom Fapesq)
