
Controlar as superbactérias e desenvolver imunoterapias para o tratamento de enfermidades estão entre os grandes desafios da medicina na atualidade. Este tema de grande relevância, que mobiliza especialistas em busca de soluções inovadoras, está entre os destaques da programação 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que será realizada de 26 de julho a 1º de agosto de 2026, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ).
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada seis infecções bacterianas confirmadas em laboratório apresenta resistência ao tratamento com antibióticos. Para discutir esse cenário, Priscilla Christina Olsen, professora do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, docente permanente dos programas de pós-graduação em Imunologia e Inflamação e em Ciências Farmacêuticas, além de chefe do Laboratório de Estudos em Imunologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ministrará a conferência “As superbactérias e a imunoterapia como uma potencial estratégia terapêutica inovadora”, das 10h00 às 11h30. A atividade será realizada no dia 31 de julho e terá coordenação de Angela Kaysel Cruz, professora titular de Parasitologia Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), campus de Ribeirão Preto.
Olsen apresentará aspectos de sua pesquisa e os desafios enfrentados pelos cientistas que atuam na área. “Esse é um problema que preocupa a comunidade científica há muitos anos. Há mais de uma década, a OMS alerta para a resistência antimicrobiana, frequentemente chamada de ‘pandemia silenciosa’, por afetar diversos países e estar presente em inúmeros hospitais ao redor do mundo. Ao mesmo tempo em que a resistência bacteriana aumenta, há uma escassez de novos antibióticos sendo desenvolvidos. Nos últimos anos, o ritmo de descoberta e aprovação de medicamentos não acompanhou o crescimento da resistência, criando um descompasso que tem contribuído para o aumento da mortalidade associada a essas infecções”, explica.
A pesquisadora destaca ainda que, em 2017, a OMS reforçou a necessidade de os países adotarem estratégias de monitoramento, prevenção e combate à resistência antimicrobiana, além de incentivar pesquisas voltadas ao desenvolvimento de novas alternativas terapêuticas.
Segundo Olsen, suas pesquisas são voltadas para bactérias resistentes a antibióticos, microrganismos capazes de se disseminar rapidamente e que podem ser encontrados em diferentes ambientes. “A grande preocupação é que muitas delas apresentam resistência a múltiplos antibióticos, o que dificulta enormemente o tratamento das infecções que causam. A bactéria que estamos estudando é particularmente relevante nesse contexto. A OMS reuniu evidências de diversos estudos e elaborou uma lista de bactérias consideradas prioritárias devido ao seu potencial de resistência”, afirma.
Segundo ela, uma das principais frentes de atuação científica é, justamente, a busca por novos antimicrobianos. “Existem grupos de pesquisa em todo o mundo investigando tanto substâncias já conhecidas quanto novas moléculas com potencial terapêutico. Muitas pesquisas também exploram compostos de origem natural, como plantas e outros recursos biológicos. Como imunologista, meu interesse está voltado para o desenvolvimento de anticorpos capazes de reconhecer e combater essas bactérias. Esses microrganismos apresentam múltiplos mecanismos de resistência desenvolvidos ao longo de milhões de anos de evolução. Um dos mais importantes é a chamada bomba de efluxo, um sistema que permite à bactéria expulsar substâncias potencialmente tóxicas, incluindo alguns antimicrobianos”, comenta.
Ela explica que essas bombas fazem parte do funcionamento natural das bactérias, mas sua atividade pode ser intensificada em determinadas condições ambientais, favorecendo a sobrevivência dos microrganismos diante dos tratamentos. “Nossa proposta é utilizar anticorpos para reconhecer componentes desse sistema e, assim, auxiliar na eliminação da bactéria. Quando uma bactéria sobrevive a condições adversas, como a exposição de antimicrobianos, ela sofre uma pressão seletiva que favorece os indivíduos mais resistentes. Com o tempo, essas bactérias podem se multiplicar e disseminar seus mecanismos de resistência, tornando o problema ainda mais complexo”, explica.
Sobre sua participação na Reunião Anual da SBPC, Olsen conta que conhece o evento desde a época da universidade, mas só conseguiu participar presencialmente pela primeira vez em 2024, durante a edição realizada em Belém, no Pará. “Tive a oportunidade de trabalhar com o professor Renato Cordeiro, que sempre foi um grande entusiasta da SBPC. Desde que ele me apresentou esse universo, passei a acompanhar de perto o papel da instituição. Participei da 76ª edição da Reunião e foi uma experiência extraordinária. Foi uma oportunidade de enxergar a ciência para além da bancada e da sala de aula, em contato direto com projetos de extensão e com a sociedade. Desde aquela experiência, incentivo colegas e estudantes a conhecerem o evento, porque ele oferece uma experiência muito diferente daquela de um congresso científico tradicional. A diversidade de pessoas, áreas de conhecimento e origens torna o ambiente extremamente enriquecedor”, relata. Cordeiro é pesquisador emérito da Fiocruz e membro do Conselho da SBPC.
Para a pesquisadora, a edição de 2026 será uma oportunidade para expandir o debate sobre temas estratégicos para a saúde pública. “Precisamos ampliar o diálogo com a sociedade, aproximar a ciência da comunidade e fortalecer o apoio a pesquisas que tratam de desafios tão relevantes para a saúde pública”, conclui.
Outros debates
A 78ª Reunião Anual da SBPC ainda contará com outros debates sobre o tema. Veja a seguir:
No dia 29 de julho, Fernanda de Negri (MS), irá ministrar a mesa-redonda “Pesquisa e inovação em saúde no Brasil”. Entre os palestrantes estão Antônio José Roque da Silva, diretor-geral do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), Helton da C. Santiago, professor associado no Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Glaucius Oliva, professor titular do Instituto de Física de São Carlos (IFSC).
No dia seguinte, 30 de julho, a mesa-redonda “Imunoterapias que estão revolucionando o tratamento do câncer e a ciência básica que as fundamenta” será coordenada por Maria Bellio, professora titular da UFRJ, e contará com a participação de Martin Hernan Bonamino, pesquisador do Instituto Nacional de Câncer (Inca), João Paulo de Biaso Viola, pesquisador titular vice-diretor geral do Inca, e Renata de Meirelles Santos Pereira, professora adjunta no Departamento de Imunologia do Instituto de Microbiologia Professor Paulo de Góes da UFRJ.
Participação gratuita
Com o tema central “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão”, a 78ª Reunião Anual da SBPC será realizada entre os dias 26 de julho e 1º de agosto, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ). O encontro reunirá pesquisadores, estudantes, gestores públicos, representantes de movimentos sociais, instituições científicas e o público em geral para debater alguns dos principais desafios estratégicos do Brasil.
A entrada na Reunião Anual da SBPC é livre e gratuita para todas as atividades. Há cobrança apenas para inscrição em minicursos e webminicursos, aquisição opcional do material do evento e apresentação de trabalhos aprovados na Sessão de Pôsteres.
A programação preliminar, assim como informações sobre inscrições e submissão de trabalhos, está disponível no site oficial da 78ª Reunião Anual da SBPC: https://ra.sbpcnet.org.br/78RA/.
Apoiadores
A 78ª Reunião Anual da SBPC é uma realização da UFF e da SBPC, que tem como sócios institucionais a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação de Maricá (ICTIM).
O evento conta com patrocínio da Finep e o apoio da Prefeitura de Niterói, da Faperj, do Governo do Estado do Rio de Janeiro, do Ministério da Educação e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Fonte: SBPC (Vivian Costa – Jornal da Ciência)
