| Em 26/12/2025

Quando o Congresso escolhe emendas e descarta o futuro

(Foto: João Pavese/pexels.com)

Artigo de Opinião

Fábio Guedes Gomes[1] e Márcio de Araújo Pereira[2]

Aprovado o Projeto de Lei Orçamentária para 2026, o Congresso Nacional mais uma vez explicita suas prioridades. Áreas estratégicas e fundamentais para o desenvolvimento do país sofreram reduções significativas nas rubricas orçamentárias em relação ao projeto originalmente enviado pelo Poder Executivo. Em contrapartida, as emendas parlamentares foram ampliadas em mais de 20% em comparação a 2025, alcançando a expressiva cifra de R$ 61,4 bilhões.

Manifestações recentes da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) expressam profunda preocupação com o nível de fomento e investimento que o novo orçamento da União destinará às áreas de educação, ciência, tecnologia e inovação (CT&I).

No conjunto, a área de CT&I perdeu aproximadamente R$ 490 milhões em relação à Lei Orçamentária aprovada em 2025. A situação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) é particularmente delicada: mais de 85% de seu orçamento encontra-se comprometido com diferentes modalidades de bolsas de pesquisa, restando recursos claramente insuficientes para o fomento a projetos de desenvolvimento científico e para ações de popularização da ciência.

No caso da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), tudo indica que seguiremos convivendo com um número de bolsas de pós-graduação muito aquém da demanda do sistema, além de valores defasados, incapazes de garantir estímulo adequado e condições mínimas de permanência a estudantes de mestrado e doutorado.

O documento conjunto da ABC e da SBPC, ao evidenciar esses limites, escancara a situação crítica do fomento à ciência brasileira e revela a insuficiente sensibilidade do Congresso Nacional diante de um setor estratégico para o futuro do país.

Por sua vez, a Andifes alerta que o orçamento discricionário das 69 universidades federais para 2026 sofreu uma redução de R$ 488 milhões em relação a 2025. A ação mais afetada foi a assistência estudantil, com um corte de R$ 100 milhões. Trata-se de uma política essencial para garantir a permanência de estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica nas universidades públicas. A redução, superior a 7%, compromete diretamente a nova Política Nacional de Assistência Estudantil (PNAES). Cabe perguntar se os parlamentares têm plena consciência do impacto que esse tipo de programa exerce sobre o futuro de jovens oriundos de famílias de baixa renda.

Infelizmente, a infraestrutura das universidades federais segue em estado precário e tudo indica que a situação tende a se agravar. O sistema resiste, mas permanece como um paciente cronicamente subfinanciado, em uma situação análoga à de um paciente mantido em UTI permanente.

Em síntese, em 2026 essas áreas dependerão de suplementações orçamentárias. Trata-se de uma situação particularmente delicada, pois será um ano politicamente complexo, marcado por eleições e por interesses poderosos, que podem eclipsar completamente o subfinanciamento estrutural da educação superior e da CT&I brasileira.

Diante desse cenário, torna-se difícil acreditar que o Brasil reunirá condições reais para competir com as grandes economias globais enquanto insistir em tratar seu sistema de produção do conhecimento, desenvolvimento tecnológico e inovação empresarial com insuficiência de recursos, descontinuidade orçamentária e uma visão estreita sobre o papel da ciência no desenvolvimento nacional.

Sem uma inflexão clara nessa lógica orçamentária, o país seguirá condenado a um subdesenvolvimento dependente e socialmente excludente.

Por: Fábio Guedes Gomes[1] e Márcio de Araújo Pereira[2]


Fábio Guedes Gomes

[1] Professor de Economia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Ex-Secretário de Educação de Alagoas (2020-2021). Diretor Presidente da Fundação Estadual de Amparo à Pesquisa de Alagoas (Fapeal)

Márcio de Araújo Pereira

[2] Professor de Administração da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). Presidente do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (Fundect)

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