| Em 11/02/2024

Zélia Ludwig: inspirada na infância, hoje é modelo para outras meninas

Professora e pesquisadora Zélia Maria da Costa Ludwig – (Foto: Twin Alvarenga – UFJF)

Zélia Maria da Costa Ludwig, professora e pesquisadora do Departamento de Física da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), aprendeu com a vida a força de um exemplo. Para trabalhar com temas complexos como propriedades óticas e espectroscópicas de materiais cerâmicos, com ênfase em materiais vítreos nanoestruturados para aplicações em optoeletrônica e fotônica, Zélia precisou vencer barreiras menos palpáveis por ser mulher, negra, periférica e sem família com tradição na área da pesquisa. Assim nasceu seu projeto Para todas as meninas na ciência.

No dia 11 de fevereiro, comemora-se o Dia Internacional das Mulheres e Meninas nas Ciências. A data foi aprovada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em 2015, e celebrada pelas Nações Unidas e instituições científicas.

Para conversar com a equipe da FAPEMIG sobre a iniciativa, a pesquisadora desmarcou uma manhã de testes de laboratório com quantum dots ou QD, que são nanopartículas de semicondutores utilizadas para aumentar a precisão e a intensidade das cores em telas, também usados em painéis fotovoltaicos, para geração de energia solar, e em equipamentos para medicina de precisão. Zélia acredita que sua trajetória pode impactar tanto a vida de meninas e jovens cientistas quanto as publicações presentes em seu Currículo Lattes, afinal, não há métrica capaz de mensurar a força de um incentivo.

Trajetória

A pesquisadora rememora seus primeiros contatos com o mundo científico, quando ainda era uma menina curiosa que adorava explorar a oficina de seu pai, que é torneiro mecânico e foi seu primeiro grande incentivador no mundo científico. “Embora ele não gostasse muito que ficássemos lá, por uma questão de segurança, preferiu nos explicar cada equipamento e seus riscos, ao invés de nos proibir de entrar ou de nos colocar medo. Assim, ele não matou a nossa criatividade, mas conseguiu despertá-la ainda mais”, conta.

Mineira, morou na pequena cidade de Francisco Morato, área da periferia de SP – cidade escolhida por seus pais para oferecer um futuro melhor para a família –, e além de manusear os equipamentos da oficina do pai, também lia muito, incentivada por uma tia professora. Depois da educação básica, vislumbrou a graduação e assim chegou à Universidade de São Paulo (USP), onde entrou para fazer Licenciatura Plena em Física e só saiu após o Pós-Doutorado. “Ter a possibilidades de estar na USP, naquela época, foi muito importante para mim. Ainda hoje o processo seletivo é muito concorrido. Lá tive contato com alguns professores que foram decisivos para minha carreira, que me fizeram gostar do ensino, me deram oportunidades de passar o dia inteiro na frente de um equipamento. Também fui para o exterior e aprendi com gente de diferentes países”, lembra.

Do mesmo modo, os obstáculos persistiam em estar no caminho. Sofreu preconceito de diversas formas, mas aprendeu a usar essas situações como uma espécie de teimosia para seguir adiante. Desde 2009, atua como professora e pesquisadora na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde além de conduzir suas inúmeras pesquisas na área da Física, arruma tempo para desenvolver estudos interdisciplinares sobre gênero, raça, maternidade, ciência e sociedade, com a proposta de discutir equidade e os direitos da comunidade negra na academia e na sociedade por meio da desconstrução de conceitos preestabelecidos.

É nesse contexto e com uma combativa trajetória que ela criou o projeto Para todas as meninas na Ciência, que nasceu como Para meninas negras na ciência, mas foi ampliado após a percepção da pesquisadora de que as injustiças na área científica alcançavam meninas de diferentes grupos étnicos e sociais. “Não temos um projeto com financiamento exclusivo para a iniciativa, por isso vamos aproveitando qualquer oportunidade, nas feiras e jornadas acadêmicas de Universidades e em eventos dentro das escolas, para mostrar que vai ter menina fazendo Física, Matemática e mexendo com arduíno (plataforma que possibilita o desenvolvimento de projetos eletrônicos) sim!”, decreta.

Exemplo 

Além de contar com a parceria de pesquisadores de diferentes áreas para desenvolver as atividades do projeto, Zélia se mostra como um exemplo vivo para essas meninas. Não um modelo ideal, mas bem humano, de quem passou e ainda passa por diversas intempéries enquanto mãe, mulher e pesquisadora, mas que também consegue vencer. Nesse contexto, a cientista lembra de um obstáculo vivido por ela na relação com a própria FAPEMIG. “Desde 2012 eu não consigo aprovar projetos na Fundação. Imagine, são mais de dez anos. Não posso ficar sem pesquisar por causa disso. Para driblar essa situação, eu faço inúmeras parcerias com outros pesquisadores e assim consigo continuar fazendo o meu trabalho. Também aprendi que, a cada projeto negado, eu devo escrever mais dois!”, brinca.

Por isso, em suas intervenções no Para todas as meninas na ciência, ela é uma interlocutora real, um modelo que pode ser vislumbrado e desejado por outras meninas como algo bom e possível. Em função dessa atuação, Zélia foi condecorada com o Mérito Comendador Henrique Halfeld (2018), Medalha Rosa Cabinda (2019) e Medalha Nelson Silva (2019), além de ter sido convidada em uma cerimônia de premiação do prêmio Para Mulheres na Ciência – iniciativa da L’Oréal Brasil em parceria com a Academia Brasileira de Ciências e a UNESCO no Brasil – para contar um pouco de sua história e projetos, com o objetivo de incentivar a presença, manutenção e progressão de meninas na Ciência.

Para a pesquisadora, o Para todos as meninas na ciência é apenas um embrião do que ela acredita ser uma situação mais equitativa para as mulheres e meninas da área científica, pois também é preciso educar meninos e homens para que eles compreendam a importância desse espaço na trajetória delas. Por isso ela defende que não basta garantir a entrada das meninas na universidade, na pesquisa, é preciso ter políticas para mantê-las no espaço acadêmico com condições dignas. “Além disso, é preciso ter mulheres de diferentes perfis em cargos de liderança. Precisamos estar nos órgãos consultivos, nas câmaras técnicas de assessoramento, nas chefias dos departamentos, como pareceristas das revistas científicas. Só assim conseguiremos ter uma ciência mais plural”, afirma.

 

Fonte: FAPEMIG (Por: Vivian Teixeira/ Ascom Fapemig)

 

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