| Em 02/02/2022

Identificado biomarcador de envelhecimento no Sistema Nervoso Central

Imagem do hipocampo de indivíduos, na qual há marcação de lâmina-B1 no núcleo (verde) e astrócito (vermelho) (Imagem: Divulgação)

Grupo de pesquisadores do Rio de Janeiro, São Paulo, Estados Unidos e da Holanda publicou artigo que descreve biomarcador de envelhecimento no Sistema Nervoso Central humano. O artigo saiu no prestigioso periódico Aging cell.

De forma pioneira, o estudo, conduzido por Isadora Matias, bolsista de Pós-Doutorado dentro de um projeto aprovado pelo Departamento de Ciência e Tecnologia, do Ministério da Saúde (Decit/MS), e recém contemplada com bolsa Pós-Doutorado Nota 10 pela FAPERJ, foi realizado em tecidos sadios de cérebro de animais e humanos post-mortem. Os marcadores do envelhecimento, até então descritos, eram em outros tipos de tecidos e células.

O biomarcador descrito é uma proteína, conhecida como lamina-B1, presente em neurônios e nas células do tipo gliais do Sistema Nervoso Central. A pesquisadora Flávia Gomes, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ICB/UFRJ) e Cientista do Nosso Estado pela FAPERJ, coordenadora do projeto, explica que o grupo investiga doenças associadas ao envelhecimento há 10 anos e que, até hoje, não são bem compreendidos os mecanismos de transição entre um cérebro saudável e funcional e um cérebro idoso e, cada vez mais, disfuncional.

“Em nosso estudo caracterizamos, de forma pioneira, um biomarcador da senescência celular, a lamina-B1, no Sistema Nervoso Central, tanto em murinos como em humanos, especificamente em astrócitos. É a primeira vez que esse biomarcador é identificado nessas células de tecido idoso sadio. Não se conhecem bem os marcadores de senescência astrocitária”.

O papel dessa proteína, lamina-B1, normalmente, está relacionado à manutenção do núcleo celular, exercendo funções que incluem desde a manutenção da estrutura do núcleo, seu funcionamento e até o reparo de DNA. No estudo, o grupo descreve que a perda de lamina-B1 ocorre em células do hipocampo de camundongos e indivíduos humanos idosos, especialmente, nos astrócitos.

Flávia Gomes detalha que, dentre os fatores causais do envelhecimento, está a senescência celular, um mecanismo importante, que gera um tipo de célula prejudicial que afeta o equilíbrio e a regeneração do tecido. Vários estudos relatam o acúmulo de células senescentes relacionado à idade em humanos, primatas não humanos e roedores. No entanto, até agora pouco se sabia sobre o surgimento e impacto da célula glial senescente no envelhecimento normal do cérebro, afirma.

Flávia Gomes (à esq.), coordenadora do projeto, e Isadora Matias: grupo investiga doenças associadas ao envelhecimento há 10 anos

No Sistema Nervoso Central, a senescência astrocitária representa um importante fator para as disfunções celulares e cognitivas associadas à idade. O trabalho publicado por Flávia Gomes, Isadora Matias e outros cientistas mostra que a perda dessa proteína, conhecida como lamina-B1, e deformações nucleares são biomarcadores da senescência astrocitária. O grupo também descreveu que astrócitos senescentes apresentam déficits em seu potencial de promover a formação de sinapses e a diferenciação dos neurônios, o que pode favorecer o declínio sináptico associado ao envelhecimento.

O grupo de cientistas estuda a proteína lamina-B1 desde 2017. Gomes conta que o estudo do envelhecimento enfrenta várias limitações experimentais e que, em breve, poderão ser minimizadas com a inauguração de um novo prédio na UFRJ para estudos da temática do envelhecimento. A partir desse empreendimento, espera determinar se a perda de lamina-B1 é um gatilho para o envelhecimento cerebral ou se é o contrário. O questionamento que ainda perdura é: “O que vem antes: o ovo ou a galinha?”.

O envelhecimento é caracterizado por uma mudança progressiva na fisiologia das células cerebrais que pode contribuir para déficits cognitivos, levando à demência e comprometimento da qualidade de vida. A complexidade do cérebro humano e o aumento da longevidade representam desafios para prevenir e adiar os efeitos do envelhecimento. Por isso, o grupo pretende ainda investigar se essas características da lamina-B1 se repetem em modelos de doenças neurodegenerativas como Parkinson e Alzheimer.

Estima-se que em 2.050 o número de pessoas com 60 anos ou mais será o dobro da atualidade, chegando a quase 2,1 bilhões em todo o mundo. Nesse contexto, é esperado um aumento substancial na incidência de doenças associadas à idade, como câncer, diabetes e doenças neurodegenerativas.

O projeto recebeu financiamento do Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde (Decit/MS), da
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (Capes).

 

FONTE: FAPERJ (por Claudia Jurberg/Faperj)

 

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