| Em 18/03/2021

FAPEMIG promove evento sobre frutas do cerrado

Foto: DCOM/UFLA

A FAPEMIG promoveu na tarde da última sexta-feira (12) o Workshop Frutos do Cerrado. O evento buscou ouvir pesquisadores que trabalham com a temática, especialmente os apoiados pela Fundação, com o intuito de verificar os estágios de desenvolvimento de seus projetos.

O encontro online buscou, ainda, prospectar para a Secretária de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Sede) possibilidades de parcerias, assim como transferências de tecnologias e exploração econômica de produtos e processos a partir dos frutos do Cerrado.

Segundo o presidente da FAPEMIG, Paulo Beirão, há um interesse do Estado em desenvolver novos produtos a partir da nossa biodiversidade, de forma a possibilitar a geração de renda em regiões como o semiárido, onde a agricultura tradicional é de difícil implementação. “A ideia é usarmos o que já temos de nativo. Pode parecer algo sonhador, mas há alguns anos poucas pessoas conheciam o açaí, que é produto da biodiversidade da Amazônia”, desta.

A gerente de Inovação da FAPEMIG, Cynthia Barbosa, lembra que o Cerrado é o maior bioma de Minas Gerais. Nesse contexto, há um grande potencial para o desenvolvimento de produtos e processos inovadores. “A possibilidade de trabalharmos essa região, de forma sustentável, desenvolvendo pesquisas, tecnologias e inovação é de extrema importância, uma vez que pode gerar benefícios socioeconômicos e ambientais”, explica.

Já sobre a metodologia de como se dará a prospecção de empresas e a promoção de encontros futuros Barbosa informa que isso ainda será definido. “A princípio, a Sede terá um papel imprescindível e proativo nessa ação e a FAPEMIG estará à disposição da Secretaria para contribuir no que for necessário, considerando seu papel como agência de fomento”, conta.

Além dos pesquisadores e enviados da Sede, estiveram presentes no evento online representantes da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento (SEAPA), Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado Minas Gerais (Emater), Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) e Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig).

Frutas do Cerrado em foco 

Segundo Paulo Beirão, para a realização do workshop a Fundação fez um levantamento em seu banco de dados, por meio de palavras-chaves e identificou, nos últimos 10 anos, 64 projetos que tinham alguma ligação com a biodiversidade do Cerrado. Os trabalhos tinham sido desenvolvidos na Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), na Epamig, no Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM) e nas federais de Minas Gerais (UFMG), Alfenas (Unifal), Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), Ouro Preto (Ufop), Uberlândia (UFU), Lavras (Ufla) e Viçosa (UFV).

Um dos projetos identificados na análise foi o da professora Cláudia Vieira da UFMG, que trabalha, em parceria com a UFVJM, na utilização de subprodutos do Cerrado e da Caatinga na elaboração de produtos de panificação e massa. De acordo com a pesquisadora, há o conhecimento de que a população local consome os frutos de forma in natura ou produzidos a nível doméstico. “Entretanto, no caso das cooperativas que elaboram sucos e poupa de frutas ou produzem óleos, os resíduos gerados são destinados exclusivamente para a alimentação animal”, informa.

Dessa forma, a professora buscou produzir conhecimentos para respaldar a produção de pães, bolos e massas alimentícias para que fossem elaborados produtos com qualidade nutricional e tecnológica. “Também buscamos a realização de análise microbiológicas e toxicológicas, que ainda não existe, assim como um estudo de viabilidade econômica. Uma vez que não adianta elaborarmos o produto e não vê a sua aplicabilidade para a comunidade”, destaca.

Há mais de três horas de Belo Horizonte, o professor Eduardo Vilas Boas também trabalha pesquisando o potencial funcional, sensorial e nutricional dos frutos do Cerrado, como o pequi, gabiroba e araçá. Segundo o pesquisador, são mais de vinte anos de estudos desenvolvidos pela Universidade Federal de Lavras que identificou que a agregação de valores para produtos do Cerrado é possível e tem altas chances de sucesso. “Já desenvolvemos inúmeros produtos como farinhas, poupas congeladas, geleias, barras, iogurtes, sorvetes. Além de pães enriquecidos que, inclusive, foram testados em um processo de aceitação em escolas e poderiam ser utilizados na merenda escolar”, exemplifica.

O professor destaca, ainda, que existem frutos do Cerrado que superam, do ponto de vista nutricional, alguns frutos conhecidos como superfrutas, como a uva, o morango e o mirtilo. “Por exemplo, a gabiroba chega a ter vinte vezes mais vitamina C que frutos cítricos, chegando próximo de uma acerola”, conta.

Cerrado nas indústrias  

No entanto, a potencialidade da nossa biodiversidade não fica restrita a produção de comidas, é o que mostra o estudo de Miria Reis. Especialista em filtração com membranas, a pesquisadora paraibana atua no departamento de Engenharia Química da Universidade Federal de Uberlândia e ficou surpresa ao conhecer o pequi. “Comecei a trabalhar com ele, com o araçá roxo, o jenipapo e o cajá-manga e vi que os estratos dessas frutas são ricos em compostos oxidantes e fenólicos”, conta.

A partir disso, nosso grupo passou a analisar o processo de extração desses bioativos utilizando diferentes tecnologias como micro-ondas e ultrassom. “Obtemos os compostos fenólicos a partir dessa extração e utilizamos uma membra seletiva para fazer um suco clarificado. A aplicação desse conhecimento pode ser usada para a produção de produtos farmacêuticos e cosméticos com vitamina C”, informa.

O estudo ainda utiliza outra matéria prima mineira: as cerâmicas. “As membranas podem deixar o processo caro, mas padronizamos um método onde trabalhamos com a fabricação de membranas de cerâmica. Elas são de baixo custo, pois utiliza material das nossas minas gerais como bauxitas e aluminas”, ressalta Reis.

Já Adriano Aguiar Mendes desenvolveu, entre 2010 e 2014, um estudo sobre a aplicação do óleo da macaúba na produção de biodiesel. O pesquisador do Instituto de Química da Universidade Federal de Alfenas trabalhou com a extração do óleo tanto da castanha quanto da poupa da fruta. Na ocasião, o projeto permitiu a atuação não apenas com o biodiesel, mas também com componentes que são utilizados na indústria farmacêutica. “Isso motiva o nosso retorno ao estudo da macaúba, porém, agora, de uma forma mais ampla com aplicação também em produtos biolubrificantes e plastificantes”, informa.

Desenvolvimento sustentável  

(Foto: Mateus Hidalgo/Creative Commons)

Além da produção de produtos e novas tecnologias é necessário haver também uma preocupação com o desenvolvimento sustentável dessa economia. É o que mostra o estudo do pesquisador da Universidade Estadual de Montes Claros, Mario Marcos. O professor estudou uma forma de valora economicamente o serviço de polinização de pequi feito pelos morcegos mariposas. Além de determinar o manejo racionado do Cerrado. “Verificamos, por exemplo, quanto do Cerrado deveria ser preservado em uma dada propriedade para manter uma boa produção de pequis”.

Segundo Mario Marcos, apesar de toda a importância econômica do pequi, o papel dos polinizadores na produção de frutos – tanto em quantidade como qualidade – só foi estudado uma vez, em 1993, em Brasília. “Não havia informações sobre Minas Gerais, então fizemos um estudo preliminar entre 2017 e 2018 em áreas do Cerrado degradas e preservadas dentro do Parque Estadual Veredas do Peruaçu, no Norte mineiro”.

Os resultados mostraram que o deposito de pólen é maior em áreas preservadas, mostrando um efeito negativo da degradação humana em áreas de polinizadores, ou seja, os impactos humanos estão afetando as populações ou a movimentação de morcegos mariposas. “O que pode ter um efeito a longo prazo”, ressalta Mario Marcos. Já sobre o número total de sementes viáveis não diferiu entre as áreas. “Uma surpresa que tivemos é que os frutos e sementes foram mais pesados em áreas degradas, pode ser um efeito de correção da fertilização do solo”, informa.

O estudo identificou, ainda, que 67% da polinização de sementes se devem a ação dos polinizadores. “O estudo de Brasília, em 93, indicou 70%, ou seja, um número similar. Isso significa que em um cenário catastrófico, com perda total de polinizadores devido a desmatamento do Cerrado, a plantação do pequi decresceria em 67%, ocasionando uma perda de até R$15,3 milhões e comprometendo a renda de diversas famílias que sobrevivem do extrativismo”, destaca. 

 

Fonte: FAPEMIG  (Texto: Tuany Alves/Ascom Fapemig)

 

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