| Em 08/07/2020

Projeto integrará o estudo do coronavírus e seu hospedeiro

(Foto: Divulgação MCTI)

A geneticista Ana Tereza Ribeiro de Vasconcelos, pesquisadora do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), coordenará a Rede C1, formada a partir do edital de Ação Emergencial Projetos para Combater os Efeitos da Covid-19, uma parceria entre a FAPERJ e a Secretaria Estadual de Saúde. O projeto, intitulado “Corona-ômica – RJ: Plataforma computacional integrativa para caracterização de determinantes virais e do hospedeiro na Covid-19 utilizando abordagens ÔMICAS no estado do Rio de Janeiro”(www.corona-omica.rj.lncc.br/ ), também agrega a “Rede One Health para o monitoramento genômico e análise da dispersão em tempo real de SARS-CoV-2 com acesso universal da informação”, liderada pela pesquisadora Marilda Agudo Mendonça Teixeira de Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) referência em coronavírus da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Américas.

“Esse apoio vem num momento perfeito, porque os recursos para os estudos com a Covid-19 não chegavam. E certamente a chamada da FAPERJ para a criação de redes é muito importante porque agrega instituições, amostras do vírus de diversas regiões do estado e pesquisadores com variadas formações, que poderão analisar os dados a partir de sua bagagem científica”, comemora Ana Tereza.  Chefe do Laboratório de Bioinformática do LNCC – que tem sede localizada na cidade de Petrópolis, na Região Serrana –, ela liderou a equipe que realizou em tempo recorde (48 horas), em março passado, o sequenciamento do novo coronavírus. Mas, segundo a pesquisadora, o estudo vinha utilizando recursos de outros projetos em andamento. “Por isso, até mesmo para enfrentar as consequências dos cortes de verbas, que vêm ocorrendo desde 2016, a FAPERJ tem sido fundamental no fomento à pesquisa”, reconhece.

A geneticista, que também recebe apoio da FAPERJ para suas pesquisas por meio do programa Cientista do Nosso Estado, diz que os recursos do edital serão extremamente importantes, não só para a realização da vigilância genômica do vírus, ou seja, para verificar como ele está se dispersando pelo estado do Rio, mas também para a realização de estudos do hospedeiro. Segundo ela, é importante verificar como acontece a interação do vírus com o ser humano, já que os danos provocados pelo vírus variam muito entre diferentes indivíduos. A pesquisa avaliará se preditores genéticos influenciam nos diferentes tipos de evolução da doença, além da idade, sexo e comorbidade dos pacientes. Um dos enigmas a serem esclarecidos é o fato de até mesmo pessoas sem comorbidade evoluírem para estágios graves da doença, incluindo o óbito. “O vírus é muito novo, teve contato com humano há apenas seis meses, por isso precisa ser bem estudado”, justifica Ana Tereza.

De acordo com a pesquisadora, a Corona-ônica é uma rede estadual que além do LNCC inclui o Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), o Departamento de Genética da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o Instituto Fernandes Figueira, da Fiocruz, e a Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A rede desenvolverá estudos a partir de três ômicas: a genômica viral, para entender como o vírus se dispersa geograficamente e se vem sofrendo mutações; o estudo da transcritômica, que permite verificar os diferentes desfechos da Covid-19 em pessoas assintomáticas e nas que desenvolvem sintomas moderados e agudos. “Dessa forma é possível se identificar quais os genes estão sendo modulados em cada indivíduo, fazendo com que a doença se desenvolva de modo distinto”, explica Ana.

O estudo ainda incluirá o sequenciamento do exoma, que é uma fração do genoma de indivíduos, para verificar as variantes genéticas que levam ao desenvolvimento de diferentes desfechos da doença. Além disso, a pesquisa também abrangerá estudos de metagenômica, que estudará a população de microrganismos em geral, a partir da análise de amostras de swab naso ou orofaríngeo ou de outras regiões e órgãos a fim de identificar a microbiota, ou seja, vírus e bactérias circulantes. “Assim, acredito que na parte de genoma viral e de seu hospedeiro  teremos um estudo bem completo do Estado do Rio de Janeiro”, afirma a geneticista.

Graduada em Biologia pela Uerj, Ana Tereza cursou mestrado em Biofísica e defendeu doutorado em Genética, na UFRJ. No LNCC, ela atua com análise de sequências de DNA, com a parte computacional da genética, no sequenciamento de genoma. “Trabalho com genoma de vírus, bactéria, fungo, humano, animais”, conta. Segundo ela, a partir do sequenciamento são gerados bancos de dados, programas, softwares e modelos matemáticos, processados no maior computador da América Latina, o supercomputador Santos Dumont, instalado no LNCC.

Ana Tereza (ao centro) e parte da sua equipe do LNCC e da UFRJ. Projeto liderado pela pesquisadora propõe a criação de uma plataforma computacional que pretende integrar os dados do vírus e do hospedeiro. (Foto: arquivo pesquisadora)

Não à toa, o título do projeto que ela lidera propõe a criação de uma plataforma computacional integrativa. “A plataforma pretende integrar os dados do vírus e do hospedeiro, por meio de técnicas computacionais, estatísticas, uso da inteligência artificial, que extrairão as informações para processá-las de forma rápida”, explica a geneticista. Ao longo dos anos, Ana Tereza já foi contemplada em diversos programas de fomento à pesquisa da FAPERJ, e, em 2019, teve uma proposta de pesquisa aprovada no Programa de Apoio a Projetos Temáticos no projeto “Inteligênciômica saúde: o uso de metodologias de inteligência artificial para identificação de preditores genéticos associados aos casos severos por arboviroses”, em colaboração com outros laboratórios. Prestes a completar 58 anos, mãe de dois filhos, a pesquisadora diz que trabalha em rede desde 2000, quando foi formalizado o Projeto Genoma Brasileiro.

Aprendiz de ceramista nas horas vagas (antes da pandemia, frisa ela), atividade que lhe permite relaxar e descarregar energias, Ana Tereza ainda encontra tempo – mesmo agora – para se engajar em defesa da ciência. Recentemente, auxiliou a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) a lançar a campanha “Democracia pela Vida”, movimento que reúne cerca de 70 organizações, entre entidades nacionais, centrais sindicais, movimentos sociais, articulações pró-democracia e organizações não-governamentais. “Precisamos nos unir em defesa da democracia, para enfrentar os ataques à ciência e às instituições de pesquisa”, defende.

 

Fonte: FAPERJ (Texto: Paula Guatimosim)

 

> Siga o Confap nas Redes Sociais:   

FACEBOOK   /   LINKEDIN   /   TWITTER    /    INSTAGRAM   /   YOUTUBE

Leia também

Em 14/04/2026

Governo de Goiás fortalece estrutura de pesquisa ao investir R$ 5 milhões em equipamentos

O Governo de Goiás, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), lança a Chamada Pública nº 06/2026, com investimento de R$ 5 milhões, para aquisição de equipamentos laboratoriais destinados a projetos de pesquisa científica, tecnológica e de inovação. A iniciativa reforça a estrutura das instituições de ensino superior (IES) […]

Em 13/04/2026

Aquecimento dos oceanos já altera biodiversidade marinha no Espírito Santo, aponta pesquisa apoiada pela Fapes

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) acende um alerta para os impactos das mudanças climáticas nos oceanos do Espírito Santo. A pesquisa identificou o aumento da frequência e da intensidade das chamadas ondas de calor marinhas, fenômeno que já provoca alterações significativas na biodiversidade e na estrutura dos ecossistemas […]

Em 13/04/2026

Pesquisa da Uern, com fomento da Fapern, participa de simpósio dos BRICS na Índia

A Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern) foi representada no III Simpósio de Neurociência dos BRICS, entre os dias 13 e 15 de março, no Instituto Indiano de Tecnologia de Madras, em Chennai, na Índia. A participação da universidade no evento integra a inserção da pesquisa potiguar em redes internacionais de ciência […]

Em 10/04/2026

Professor João Vicente Lima assume presidência da Fapeal

O governador do Estado de Alagoas Paulo Dantas nomeou o professor João Vicente Ribeiro Barroso da Costa Lima como diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa de Alagoas (Fapeal), órgão vinculado à Secretaria de Estado da Ciência, da Tecnologia e da Inovação (Secti). A nomeação se encontra no Diário Oficial do Estado  (DOE) de 3 de […]

Em 14/04/2026

Em parceria com TikTok, SBPC lança premiação para divulgadores especializados em ciência

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em parceria com a plataforma TikTok, anuncia a criação do Prêmio SBPC-TikTok de Divulgação Científica. A iniciativa busca reconhecer e homenagear comunicadores de Ciência e instituições que se destacam na área da popularização científica digital e que utilizam a plataforma TikTok como uma ferramenta para a difusão […]