| Em 31/07/2019

Estudo lança as bases para o desenvolvimento de um fígado artificial

Foto: Divulgação.

Uma técnica inovadora de bioengenharia pode abrir caminhos para, no futuro, ser possível “personalizar” o fígado aguardado por pacientes que estão na fila de espera por cirurgias para o transplante do órgão. Isso aconteceria a partir da aplicação, no arcabouço do fígado previamente descelularizado, de células-tronco, com capacidade de se diferenciar e passar a desempenhar as funções hepáticas. Essas células-tronco são produzidas a partir dos eritroblastos, que são células sanguíneas coletadas em um simples exame de sangue. Em poucas palavras, essa é a ideia central do trabalho de pesquisa da equipe coordenada pela professora Regina Goldenberg, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IBCCF/UFRJ).

No Laboratório de Cardiologia Celular e Molecular do IBCCF, ela coordena o estudo, que está em fase laboratorial e, futuramente, deve chegar à etapa de testes clínicos, ou seja, em humanos. “Sabemos das dificuldades dos pacientes que aguardam, em longas filas de espera, por um fígado, e do número considerável daqueles que, mesmo após conseguirem o transplante, sofrem com a rejeição do próprio corpo ao novo órgão. Esse número não é baixo, pois há um percentual de 40% a 70% de pacientes transplantados que apresentam rejeição ao novo fígado apesar da terapia imunossupressora. Por isso, pensamos em caminhos para desenvolver um fígado bioartificial, com técnicas modernas de bioengenharia, que evitaria casos de rejeição do organismo”, explicou Regina. “O objetivo é aproveitar órgãos que já seriam descartados, por não cumprirem determinadas exigências médicas para serem utilizados em outros pacientes, e personalizá-los antes do transplante”. Ela vem desenvolvendo seus estudos com recursos repassados pela Faperj, por meio do programa Cientista do Nosso Estado e do edital Apoio a Pesquisa para o SUS, além de receber apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Medicina Regenerativa (INCT-Regenera).

Fazendo uma analogia simples, Regina contou que ela e sua equipe trabalham com o arcabouço do fígado a ser implantado. Trata-se da matriz extracelular do órgão – como se ela fosse a estrutura de um prédio vazio, a ser completada com as células obtidas do sangue do próprio paciente. “Os eritroblastos, apesar de serem células adultas retiradas do sangue do paciente, quando estimulados com determinados genes, assumem o papel de células-tronco de pluripotência induzida. Isso significa que passam a ter a capacidade de se diferenciarem em qualquer tecido. No nosso caso, induzimos a diferenciação em hepatócitos para serem colocadas no arcabouço acelular do fígado, onde se tornam capazes de se adaptar e assumir as funções das células desse órgão”, detalhou.

A capacidade de uma célula adulta não-embrionária ser reprogramada e agir como uma célula-tronco (pluripotente), podendo se diferenciar em células de outros órgãos e desempenhar outras funções, foi observada pela primeira vez pelo pesquisador japonês Shinya Yamanaka, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina em 2012. “Foi a partir da descoberta de Yamanaka que decidimos criar essa linha de pesquisa no nosso laboratório. Ele descobriu que uma célula da pele, o fibroblasto, pode ser induzida a ir para o estágio pluripotente, quando ela pode assumir características de qualquer outra célula. Saber que células maduras podem se tornar pluripotentes foi um divisor de águas para pesquisadores do mundo todo”, lembrou Regina.

Partindo dessa premissa, ela coordena testes para transformar os eritroblastos coletados do sangue em células pluripotentes denominadas de Hepatocitos-like, por se assemelharem aos hepatócitos (as células do fígado). “Nos nossos testes, trabalhamos a partir de eritroblastos coletados em uma simples amostra de 4mL de sangue. Em três meses, em média, essas células sanguíneas são induzidas a se diferenciar e se tornam pluripotentes. Em mais 28 dias, desenvolvemos células semelhantes aos hepatócitos (Hepatocito like). Elas não são idênticas aos hepatócitos, mas assumem funções que só eles  desempenham, como a síntese de albumina, que é a principal proteína do sangue, e a função de detoxicação do nosso corpo”, contou Regina. “Ainda falta bastante para partirmos para testes em pessoas, mas estamos em um caminho realmente inovador para a Medicina. Outras linhas de pesquisa no laboratório do IBCCF investigam a capacidade de transformação dessas células pluripotentes em células cardíacas, por exemplo”, acrescentou.

Depois de quase uma década de dedicação ao tema, Regina vem colhendo os frutos do longo trabalho. Seu aluno de mestrado em Ciências Biológicas – Biofísica, Marlon Lemos Dias, sob sua orientação acadêmica, propõe uma técnica cirúrgica para implantar em ratos esse fígado bioartificial com técnicas de bioengenharia. Juntos, eles desenvolveram o trabalho intitulado “O uso de um arcabouço hepático recelularizado em um modelo de transplante heterotópico em ratos”, que foi o tema da dissertação de mestrado defendida por Marlon em 8 de julho deste ano. Participaram do estudo como coautores Cintia Paz, Lanuza Faccioli e Alexandre Cerqueira. O trabalho foi agraciado com o Merit Award pela International Society for Stem Cell Research (ISSCR). Também recebeu, da mesma associação, o prêmio de Travel Award, que viabilizou a participação de Regina e Marlon na reunião anual do ISSCR, realizada na segunda quinzena de junho em Los Angeles, nos Estados Unidos, onde discutiram o trabalho durante a apresentação do pôster.

Para a pesquisadora, representar o País nesse evento internacional foi importante para reafirmar a importância da pesquisa brasileira. “Fazemos uma ciência de ponta e, nesse momento de redução do orçamento para a pesquisa, é importante mostrar à população a relevância do nosso trabalho. Essa linha de pesquisa vai influenciar a formulação de políticas para a saúde pública, podendo reduzir as listas de espera pelo transplante de um órgão. O estudo também poderá ajudar a indústria farmacêutica a testar a eficácia de novos medicamentos nos hepatócitos modificados dos próprios pacientes de forma personalizada, antes mesmo da realização do transplante”, destacou Regina.

Fonte: Comunicação Faperj (texto: Débora Motta).

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