| Em 10/09/2018

Digitalização preserva parte das memórias de um dos pais da Etnologia brasileira

Cartas trocadas entre Curt Nimuendajú e Lévy-Strauss estão entre os documentos digitalizados na pesquisa.

O fogo que consumiu o acervo do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ), na noite de domingo, 2 de setembro, destruiu coleções científicas e antropológicas insubstituíveis, que somavam cerca de 20 milhões de itens. Diante das perdas, incalculáveis e irreversíveis, o universo digital é um dos caminhos para tentar reconstituir – ao menos virtualmente, e de forma incompleta – algumas memórias desse vasto acervo. Mesmo representando um pequeno grão de areia nesse contexto, parte do arquivo do indigenista alemão Curt Nimuendajú (1883-1945), que estava armazenado no Museu, foi digitalizada antes do incêndio, durante o pós-doutorado da antropóloga Elena Welper. O arquivo físico, provavelmente perdido no incêndio, era uma rica fonte primária para pesquisas na área da Linguística e Etnografia indígenas. O Programa de Pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional é uma referência mundial no âmbito dos estudos acadêmicos.

A digitalização de uma parte significativa do arquivo Curt Nimuendajú ocorreu durante o pós-doutorado de Elena, realizado de 2012 a 2017 no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu, sob supervisão do antropólogo Carlos Fausto e com o apoio de uma bolsa do Programa de Apoio ao Pós-Doutorado (PAPD) da Faperj. “O arquivo se encontrava na sala do Centro de Documentação de Línguas Indígenas (Celin), que ficava localizada no terceiro andar do Museu Nacional. Ainda não foi possível entrar no local, que está interditado para perícia, mas o mais provável é que não tenha sobrado nada”, disse.

A ideia de digitalizar parte do arquivo Nimuendajú surgiu devido à necessidade de evitar o desgaste natural causado pelo manuseio das peças no processo de pesquisa, e de possibilitar o seu estudo também em casa. “Diante da desolação da perda, lembrar que parte do arquivo foi digitalizada me deixa um pouco reconfortada, por saber que algo foi preservado”, contou Elena. Ela iniciou ainda no mestrado o estudo da vida e obra de Curt Nimuendajú, que dedicou os seus 40 anos de vida no Brasil ao estudo e registro das culturas indígenas, sendo pioneiro na realização de um trabalho de campo que conjugava a “observação participante” e a defesa dos direitos indígenas, quando a Antropologia ainda se afirmava como ciência e nem existia oficialmente a ideia de “trabalho de campo”.

Entre o material digitalizado por Elena, encontram-se manuscritos inéditos do etnólogo alemão, entre os quais diários de campo, produzidos durante viagens e expedições por tribos indígenas, e correspondências com intelectuais considerados expoentes da antropologia internacional. “Ao longo dos meus cinco anos de pós-doutorado, digitalizei muita coisa, entre elas a correspondência de Nimuendajú e o etnólogo Herbert Baldus, que era professor na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, composta por 98 cartas; uma coletânea com mais 300 mitos indígenas coletados por Nimuendajú junto a diversas etnias brasileiras, incluindo 12 mitos da etnia Tembé nunca antes publicados em português; a correspondência dele com o antropólogo Robert Lowie, professor da Universidade de Berkeley (Califórnia, EUA), com quem produziu três célebres monografias sobre os povos Jê – os Apinajé, os Timbiras e os Xerentes –; e sua correspondência com o antropólogo belga Claude Lévy-Strauss e com o antropólogo suíço Alfred Metraux, ambas importantíssimas para a história antropológica no Brasil, entre outros documentos”, detalhou.

“Também consegui digitalizar diários de viagem dos anos de 1911, 1912 e 1913 (produzidos no período em que ele foi funcionário do Serviço de Proteção aos Índios e atuou nos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul; de 1918 (referente a sua expedião pelos rios Iriri e Curuá, no Pará); de 1929 (quando esteve entre os índios da etnia Apinagé, no Maranhão); de 1936 (referente ao seu trabalho de campo junto aos índios Canela, no Maranhão); de 1941 e 1942 (de suas viagens aos índios Tikuna, no Amazonas) e de 1938 (sobre sua viagem pelos estados da Bahia, Minas Gerais e Espirito Santo)”, completou. Os diários, todos manuscritos em alemão, reúnem detalhes do seu cotidiano de viajante, como as datas das viagens, relatos de rituais indígenas, registros da sua saúde e informações sobre diversas línguas indígenas. “Esse arquivo foi adquirido pelo Museu Nacional em 1950 e sempre despertou interesse entre os antropólogos brasileiros, mas talvez por ser constituído majoritariamente de manuscritos escritos em alemão, foi pouco estudado”, explicou.

A vida de Curt Nimuendajú confunde-se com o nascimento da Antropologia enquanto ciência no Brasil. “Ele é tido como o pai da Etnologia brasileira. Os dados produzidos pelas suas pesquisas de campo com os indígenas dos grupos Jê introduziram o Brasil no cenário antropológico internacional”, destacou Elena. Como um dos desdobramentos do seu projeto de pesquisa, foi realizada, em novembro de 2016, a exposição fotográfica Retratando Curt Nimuendajú, que ficou em cartaz no Instituto Martius Staden (SP), em 2016, e no espaço Baukurs Cultural (RJ) em 2014. O catálogo virtual está disponível em https://retratandonimuendaju.wordpress.com

Sobre Curt Nimuendajú
Batizado Curt Unckel (1883-1945), ele nasceu em Jena, na Alemanha, onde viveu por 20 anos alimentando o sonho de viver entre os índios americanos. Em 1906, apenas três anos depois de embarcar para o Brasil, foi formalmente adotado por um grupo Guarani de São Paulo, recebendo nesta ocasião o nome Nimuendajú. Três décadas mais tarde, aquele jovem aprendiz de mecânico óptico se transformaria na maior autoridade em Etnologia brasileira, sendo por isso reconhecido e admirado por grandes americanistas da época, tais como Erland Nordenskiöld, Alfred Métraux e Robert Lowie.

Até a sua misteriosa morte entre os índios Tikuna, sua vida foi marcada por uma série quase ininterrupta de pesquisas etnográficas e esteve diretamente relacionada às principais instituições indigenistas e etnológicas do seu tempo, entre as quais o Museu Paulista, o Serviço de Proteção aos Índios, o Museu Nacional, o Museu Paraense Emilio Goeldi, e o Conselho Nacional de Proteção aos Índios, além dos museus etnográficos da Alemanha, Suécia e Estados Unidos.

Fonte: Comunicação Faperj (texto: Débora Motta).

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