| Em 14/07/2017

Pesquisa identifica a presença de vírus em aves migratórias no Estado do Rio

Durante o trabalho de vigilância epidemiológica, pesquisadores medem o tamanho das aves, consideradas reservatórios de vírus para outras espécies, e que, por isso, devem ser monitoradas. Foto: Divulgação.

Pesquisa realizada na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) investiga se vírus aviários encontrados em fezes de pinguins resgatados na costa do Espírito Santo podem causar patologias em outras aves e mamíferos. Durante trabalho de vigilância epidemiológica de influenza em aves silvestres migratórias e residentes no estado do Rio de Janeiro, pesquisadores registraram a ocorrência no País dos tipos 2 e 10 (APMV-2 e APMV-10) de paramyxovírus aviários (APMV), considerado um dos agentes causadores de doenças de aves selvagens e de produção. “Trata-se de um trabalho de prevenção de surtos de gripe aviária que podem atingir as aves destinadas ao consumo e as pessoas, gerando prejuízos econômicos e trazendo riscos à saúde pública”, explica o veterinário e doutor em microbiologia Carlos Eurico Pires Ferreira Travassos, chefe do Laboratório de Sanidade Animal da universidade (LSA).

O trabalho de vigilância epidemiológica começou em 2008 e envolveu diversas instituições sediadas no estado do Rio de Janeiro – entre elas a Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro (Pesagro-Rio) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Até 2015, foram analisadas quase 600 amostras de aves que, no período de setembro a maio, costumam deixar o inverno de países do Hemisfério Norte, como o Canadá e os Estados Unidos, em busca de regiões mais quentes. Das amostras fecais coletadas, em nenhuma foi detectada a presença do vírus da influenza A, responsável por causar grandes pandemias. O estudo contou com o apoio da Faperj, por meio do programa Auxílio à Pesquisa (APQ 1).

No entanto, em cinco amostras recolhidas de pinguins-de-Magalhães que se desgarraram de seu grupo e atingiram a costa capixaba, os pesquisadores verificaram a presença de dois tipos de paramyxovírus. O tipo 2 foi detectado em duas amostras, e o tipo 10 do mesmo vírus, em outras duas unidades. Não ficou caracterizado o subtipo de vírus em uma última amostra infectada. De uma maneira geral, os paramyxovírus aviários, com exceção de algumas cepas do APMV-1, não são virulentos para aves selvagens. Entretanto, quando se trata de aves domésticas, como galinhas, algumas cepas podem apresentar graus de virulência, gerando riscos para as aves de produção. É o caso do paramyxovírus 2. “Quando virulentos, os paramyxovírus causam quadros de infecção respiratória, distúrbios digestivos e, em alguns casos, neurológicos”, explica o pesquisador.

Segundo o pesquisador, atualmente a equipe do LSA aplica testes em camundongos e pintos para verificar se os vírus encontrados nas amostras provocam doenças em aves de produção e em mamíferos, para avaliar possíveis riscos aos seres humanos. Nos experimentos já realizados, os resultados das inoculações com APMV-2 e APMV-10, tanto em pintos de um dia de vida quanto em camundongos, demonstraram que os agentes são infecciosos, mas não patogênicos, já que os animais não desenvolveram nenhum sintoma. “Entretanto, vale ressaltar que o risco para mamíferos, inclusive humanos, deve ser considerado, pois no camundongo, os APMV-2 e 10 foram infecciosos, detectados em diferentes órgãos do animal”, alerta o professor, acrescentando: “Em princípio, não há perigo de transmissão de doenças para as pessoas, mas, como o vírus causou infecção em mamíferos, é preciso estudá-lo para avaliar os riscos e, se necessário, tomar medidas de prevenção e controle.”

Consideradas reservatórios de vírus para outras espécies, as aves selvagens devem ser monitoradas constantemente. Segundo Ferreira Travassos, a literatura veterinária demonstra claramente que pode ocorrer a transmissão zoonótica de vírus influenza aviário diretamente para humanos. “Há uma série de registros de surtos ocasionados devido ao rompimento da barreira entre espécies, alertando, dessa forma, para a necessidade de uma vigilância constante da circulação de vírus influenza em aves silvestres, justificada pelo risco em potencial que alguns desses vírus possam causar novas pandemias”, explica o veterinário.

As coletas das amostras foram realizadas nos principais pontos de repouso e alimentação das aves migratórias, nas regiões Norte e Baixada Litorânea do estado do Rio de Janeiro, mais precisamente na Lagoa do Açu, Lagoa Iquipari, Lagoa de Cima, Lagoa Feia, Barra do Furado e Ilhas do largo de Macaé, Atafona e Cabo Frio. Além de recolher material fecal para exame em laboratório, os pesquisadores identificaram, anilharam e registraram os dados biométricos – como idade, peso e tamanho – das aves, a maioria maçaricos-de-praia.

Fonte: Boletim Faperj (texto: Lavinia Portella).

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