| Em 27/04/2017

Rio de todos os tons: um passeio pela história da música carioca

Flavia Barreto: co-autora e filha de Sivuca, ela propõe que o livro seja utilizado como ferramenta de apoio pedagógico nas escolas. (Foto: Débora Motta)

Cantado em verso e prosa, o Rio é conhecido mundialmente pela sua musicalidade, pano de fundo para as belezas naturais da “Cidade Maravilhosa”. A força da música popular – representada pelo samba, choro, bossa-nova e diversos outros ritmos imersos nesse caldeirão cultural – está intimamente ligada à vida social do povo carioca. Para contar a história da formação musical no Rio, desde a fundação da cidade de São Sebastião até os dias de hoje, as pesquisadoras Flavia Barreto e Rita Leal, ambas da Faculdade de Formação de Professores, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP/Uerj), localizada no campus de São Gonçalo, lançaram recentemente o livro Cartografia Musical: Rio de Janeiro 450 anos (Ed. Letra Capital, 2016, 144 pág.).

Publicada com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), tendo sido contemplada no edital Apoio à Produção e Publicação de Livros e DVDs Visando à Celebração dos 450 Anos da Cidade do Rio, a obra tem o objetivo de contribuir para a educação musical de jovens, além de ser uma fonte de consulta sobre o tema, com linguagem agradável e didática, para o público em geral. “O livro é um guia da música popular que foi construída ao longo de 450 anos de história do Rio. A ideia é que ele seja utilizado como uma ferramenta de apoio para os professores nas escolas, para a educação musical dos jovens, que deve ganhar mais espaço no processo de aprendizagem. É preciso desenvolver o gosto pela música brasileira e democratizar o acesso ao nosso patrimônio de memória musical”, justifica Flavia. Ela também é autora da biografia Magnífico Sivuca – Maestro da sanfona, dedicada à memória de seu pai, o sanfoneiro, compositor, arranjador e multi-instrumentista nordestino.

Em um passeio pela história dos diversos movimentos que representam a musicalidade “carioca” (do tupi, “cari” – homem branco; “oca” – casa), a narrativa destaca a importância da confluência de diversos povos no processo de formação musical da cidade, partindo da contribuição indígena na época da colonização portuguesa, mais especificamente no período da fundação da cidade, em 1º de março de 1565, por Estácio de Sá. A pesquisadora lembra que a música indígena é diferente da música europeia, entre várias razões, por não seguir o sistema tonal do Ocidente. Mais ainda, por ser um elemento presente em todos os momentos da vida dos nativos, na guerra e na paz, com finalidades de socialização, cura, exorcismo, magia e culto.

Para Flavia, essa musicalidade indígena está na genética da música carioca, embora essa contribuição não seja claramente reconhecida na nossa consciência. “A música é considerada pelos indígenas como um presente dado pelos deuses para os homens, que antes viviam em silêncio. Para eles, existem canções para quase todos os momentos da vida. Os índios podem passar da fala ao canto e retornar à fala, sem que sejam consideradas ambas as expressões como diferenciadas em sua essência. Essa característica nos remete subitamente à sonoridade das torcidas nos estádios de futebol, com sentimentos vocalizados pela coletividade. Seria nosso momento indígena de ser?”, observa.

Manifestação carnavalesca registrada por Debret: escravos vestidos como europeus, em cortejo, à época do Império. (Foto: Reprodução)

O legado musical africano é outro ponto abordado no livro, desde os batuques originários dos escravos até suas derivações rítmicas, como o maracatu, o jongo, o cateretê, o caxambu, o samba de roda, o lundu, entre outros. De acordo com a obra, vêm das civilizações conguesa e iorubana as duas matrizes africanas básicas, que dão sustentação ao que se produz e ao que se ouve no Brasil. “A civilização iorubana, a Fon/Gêje e a angolana, ofereceram a estrutura da música religiosa afro-brasileira. O culto aos antepassados é enriquecido pelo uso do agogô, adjá e xeré, instrumentos utilizados durante os rituais. As maiores influências africanas na construção da música brasileira vieram da diversidade de ritmos, danças e instrumentos”, completa a coautora da obra, Rita.

Na tradição oral africana, responsável por transmitir a história, mitos e costumes de uma geração para outra, tudo ocorria através do canto e da dança, ao som dos tambores, inclusive o contato com as divindades – o transe. “O tambor era o mais importante instrumento musical, em diferentes formatos e tamanhos. Outros instrumentos de origem africana, hoje comuns na música popular brasileira, são o xequerê, o agogô, a cuíca, o chocalho, o pandeiro, o ganzá e o berimbau”, conta Rita. Logo, no Rio do início do século XIX, em que conviviam negros livres e cativos, com a classe média emergente e a Corte, surgiu o casamento entre dois gêneros musicais: a modinha portuguesa e o lundu africano. No final do século XIX que surgiu dessas misturas foi o maxixe, considerado a primeira dança urbana criada no País.

As origens do samba, a formação das escolas e o Carnaval carioca, o choro e a bossa-nova e a música popular brasileira, que despontou também como instrumento de resistência cultural durante o período do regime militar (1964-1985), os ritmos que se misturam no cenário carioca do pop, brega e rock, o funk e a música clássica no Rio são abordados no decorrer da obra, em diferentes capítulos. “Trata-se de uma ode ao Rio de Janeiro. O livro é uma celebração da história, geografia e musicalidade da cidade”, diz Flavia.

Afinal, como ela arremata na conclusão da obra, “a felicidade, original, simples e democrática, é carioca”. A pesquisadora ressalta que, como a cidade acolhe pessoas vindas de vários lugares do Brasil e do mundo, a música que aqui se produz influencia e é influenciada pelas pessoas que acolhe. “Gostar de MPB é gostar da identidade cultural brasileira. É preciso difundir esse gosto entre as novas gerações, que muitas vezes desconhece nossa história musical”, destaca Flavia, que também se dedica, na FFP/Uerj, juntamente com Rita, a ministrar oficinas de apreciação musical para os alunos, que também são professores.

Ela acredita que a MPB poderia entrar na pauta de uma política de Estado, para ser exportada, como importante ativo cultural. “Nos meados dos anos 1950, o então deputado e compositor Humberto Teixeira, que foi parceiro de Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”, e de Sivuca, já tinha essa percepção de que a MPB pode gerar divisas ao País. Na época, ele teve destaque na Câmara, quando se empenhou na defesa dos direitos autorais e conseguiu aprovar a lei que leva o seu nome, que permitia maior divulgação da música brasileira no exterior, através de caravanas musicais financiadas pelo governo federal. Essa política poderia ser retomada”, sugere a pesquisadora e escritora. O livro vem acompanhado de um DVD, que apresenta uma síntese dos ritmos que foram surgindo ao longo dos 450 anos de história da cidade.

 

Fonte: Comunicação Faperj (texto: Débora Motta).

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