| Em 03/03/2021

Rede de pesquisadores desenvolve produtos a partir de plantas medicinais

Equipe do projeto Rennofito (Foto: divulgação)

A riqueza do meio ambiente não é segredo há muito tempo. Muitos sábios, através dos séculos, já conheciam plantas com propriedades que ajudam o ser humano. Dos antigos chineses, passando pelos pajés das tribos amazônicas e chegando a gerações de sertanejos que sempre souberam conviver com a natureza. A fitoterapia surgiu daí: é o estudo das plantas medicinais e sua aplicação no tratamento ou cura de doenças. Uma rede de pesquisadores que reúne profissionais das regiões Norte e Nordeste tem trabalhado em pesquisas para a criação de produtos com base nas plantas medicinais. Essa rede chama-se Rennofito, financiada pelo projeto Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), do CNPq.

O Rennofito tem sede na Paraíba e sua aprovação no INCT é uma conquista de um grupo de pesquisa atuante no Programa de Pós-Graduação em Plantas Medicinais da Universidade Federal da Paraíba, que encaminhou a proposta para a chamada pública INCT-MCTIC/CNPq/FAPs n° 16/2014. A proposta foi contemplada entre mais de 300 projetos apresentados.

O Rennofito está instalado no Instituto de Pesquisa em Fármacos e Medicamentos (IpeFarM) da UFPB e foi contemplado com recursos da ordem de R$ 7 milhões, para desenvolver pesquisas no período de seis anos, de 2016 a 2022. Há também um acordo de cooperação envolvendo o Governo do Estado da Paraíba, por meio da Fundação de Apoio à Pesquisa da Paraíba (FapesqPB) e o Laboratório Industrial Farmacêutico do Estado da Paraíba (Lifesa).

Mais de 130 pesquisadores ao todo fazem parte do INCT Rennofito, coordenado por Marcelo Sobral. Na Paraíba, são 12, lidando desde o ano passado com o novo cotidiano da pandemia para tentar avançar os trabalhos. “A pandemia tem atrasado o cronograma”, afirma Josean Fechine Tavares, que é do corpo de pesquisadores. “Vários pesquisadores são do grupo de risco e estão em trabalho remoto. Os laboratórios estão com poucos alunos, tendo que respeitar o protocolo de retorno que foi instituído”.

Mesmo assim, o Rennofito possui projetos em estágio avançado em vários estados. “Existem várias frentes de trabalho, envolvendo várias universidades com essa temática de produtos a partir de plantas medicinais”, explica o pesquisador. Aqui na Paraíba, um dos destaques, já com depósito de patente, é um estudo que busca um protetor solar a partir de duas espécies de plantas da família Lamiaceae: a hortelã da folha grossa e a hortelã da folha miúda.

“Estamos na fase de incorporação da matriz vegetal à forma de creme – igual aos protetores solares que existem no mercado”, conta Tavares. “A ideia é incorporar no que a gente chama de ‘base’. Numa ‘base’ mais simples possível, desenvolvida por nós, para o produto baratear muito: a intenção é que chegue a quem mais precisa de uma forma mais barata. A incidência solar nossa é muito alta”.

(Foto: Pixabay)

Outra pesquisa com bons resultados é o estudo com substâncias com atividade contra o zika vírus, desenvolvido em parceria com a Fiocruz. Na primeira etapa, trabalhando com produtos isolados de uma planta da caatinga, os pesquisadores conseguiram inibir a proliferação do vírus. “Se fosse pensar num produto farmacêutico chegando ao mercado, seria um medicamento que você tomaria e poderia até pegar a doença, mas ele evitaria que o vírus proliferasse e você pudesse ter os sintomas mais graves da doença”, explica Tavares. “Numa etapa 2, esses produtos serão testados em animais”.

O apoio do Estado envolve uma contrapartida em estudos de controle de qualidade e o desenvolvimento de fitoprodutos específicos, entre eles medicamentos a base de cannabis sativa, planta de onde é produzida a maconha, que pesquisadores estão utilizando para fins terapêuticos em doenças degenerativas.

Na Universidade Federal de Pernambuco, uma das pesquisas avançadas é com o óleo de licuri como um esfoliante. A ideia é que, quando uma pessoa aplicar um medicamento na pele, esse óleo – fazendo parte como adjuvante – melhore a penetração do medicamento, que vai fazer efeito mais rápido.

“Em Sergipe, um estudo já bem avançado é com óleo de uma planta chamada piquí”, conta. “Ela tem uso na medicina popular para inflamação ou dor. Os pesquisadores lá desenvolveram um hidrogel com óleo do piquí para tratamento de osteoartrose. E os resultados são bastante significativos, já em fase de testes em humanos”.

Já na Universidade Federal do Piauí, a novidade é um isotônico produzido a partir do suco do caju. “Tem também toda a função anti-inflamatória e antioxidante, inerente ao caju. Esse produto está bem avançado, já em fase de chegar ao mercado”, conta o pesquisador.

“Pretendemos ao final do projeto apresentar protótipos e/ ou produtos, para, em parcerias com entes públicos e privados, ampliar a produção de fitomedicamentos, fitocosméticos e fitonutracêuticos no país”, afirmou o coordenador Marcelo Sobral.

Segundo ele, o objetivo com os resultados obtidos ao final do projeto é atingir a população usuária do Sistema Único de Saúde (SUS), na perspectiva de fortalecer o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicas com medicamentos de baixo custo. Esse programa foi criado em 2008, para o aproveitamento da biodiversidade vegetal brasileira como fonte de insumos farmacêuticos ativos para o tratamento e prevenção de doenças.

O Rennofito não trabalha apenas o desenvolvimento de produtos, mas também atua na pesquisa de base. Aqui na Paraíba, por exemplo, é o estudo das plantas da caatinga. “A gente tem encontrado uma série de substâncias e compostos inéditos com demonstração de atividade nas mais variadas modelos farmacológicos: antitumoral, citotoxicidade, zika, leshmania”, enumera Josean Tavares.

Essa pesquisa de base descobre novas possibilidades de aproveitamento das plantas medicinais. Daí podem sair novas ideias, que evoluem para novas pesquisas e geram novos produtos. “Tudo isso faz parte de um arcabouço de pesquisa de plantas medicinais que em médio ou longo prazo pode chegar a produtos”, complementa. “E também já gerou cerca de 800 a 900 artigos publicados e uma centena de dissertações e teses defendidas”.

 

Fonte: FAPESQ (Texto: Renato Félix e Helda Suene)

 

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