| Em 12/05/2015

Projeto de pesquisadora baiana pode auxiliar em questões criminais

Você já pensou no quanto os insetos podem ser importantes em questões criminais? O estudo de insetos como ferramenta para processos criminais, chamado de Entomologia Forense, foi o foco da pesquisa realizada pela bióloga e professora de Zoologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Favízia Freitas de Oliveira. Contemplada pelo Edital de Apoio a Pesquisas para Segurança Pública da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb), Favízia desenvolveu um estudo da bionomia de dípteros (moscas) e coleópteros (besouros) que utilizam carcaças para se alimentarem e depositarem seus ovos.

O primeiro trabalho de Entomologia Forense no Brasil foi realizado pelo pesquisador Roquette Pinto, em 1908, na cidade do Rio de Janeiro. Ele publicou uma pesquisa que é considerada o primeiro registro sobre esse assunto no país. Entre os anos 1914 e 1923, Oscar Freire, professor de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Bahia (atualmente Universidade Federal da Bahia), realizou pesquisas envolvendo sucessão ecológica de insetos em cadáveres humanos. De lá para cá, houve um espaço de tempo grande, sem que fossem feitas pesquisas deste tipo na Bahia. Apesar da grande importância e utilidade da Entomologia Forense na resolução de Crimes, especialmente para o cálculo de Intervalo Post-Mortem (IPM), e do pioneirismo do estado no tema, a Bahia ainda dispõe de poucos estudos na área e, consequentemente, poucos dados acerca da entomofauna característica da região. Isso dificulta bastante os estudos e a utilização dessa ferramenta como atividade corriqueira nos laudos periciais. Para sanar essa lacuna, desde 2008, Favízia, junto com uma equipe formada por alunos da UFBA, UEFS, UCSAL e peritos do Departamento de Polícia Técnica (compartilhando a coordenação com o perito Dr. Torriceli Souza Thé), retomaram essa linha de pesquisa no estado da Bahia, com o apoio da Fapesb.

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Em seus experimentos, a equipe utilizou carcaças de porcos, uma vez que o organismo destes animais se assemelha ao do ser humano. A pesquisa levou em conta situações variadas, utilizando, por exemplo, carcaças expostas ou enterrados em covas rasas. O trabalho também foi realizado em dois períodos, seco e chuvoso, pois a velocidade do processo de decomposição depende das condições ambientais. A cada fase de decomposição, as espécies de insetos colonizando as carcaças foram coletadas e catalogadas.

Por serem os primeiros organismos a localizarem um corpo em decomposição, o experimento com os insetos ajuda a entender como ocorre o processo de sucessão ecológica nos corpos. Segundo Favízia, esses conhecimentos são extremamente importantes porque, caso outros métodos falhem, a presença dos insetos no cadáver pode dar um cálculo aproximado do tempo da morte, bem como onde e como a morte ocorreu.

O ciclo de vida de um inseto começa com a oviposição (ou larviposição), passando pelo desenvolvimento do ovo em larva, pupa e finalmente emergindo em um indivíduo adulto. Fazendo o estudo desse ciclo e da sucessão de insetos que chegam ao corpo – já que nem todos localizam o corpo ao mesmo tempo ou utilizam os mesmos recursos na carcaça – é possível não apenas calcular o IPM, como também descobrir se o corpo foi movido de lugar. Cada região geográfica tem as suas espécies de insetos e nem sempre os mesmos serão encontrados em todos os corpos. Os estudos comprovaram que em áreas litorâneas, próximas ao mar, onde há salinização e maresia, a fauna pode ser totalmente diferente daquela de áreas mais florestadas, ou de caatinga. Logo, se um corpo encontrado em uma floresta estiver sendo habitado por insetos típicos de litoral, é muito provável que ele tenha sido movido de lugar.

Por meio dos insetos, os peritos também podem identificar a morte por envenenamento. Se todas as larvas na carcaça estiverem mortas antes de terem emergido, é sinal de que foram envenenadas. É possível, ainda, fazer testes de DNA por meio dos insetos, caso o corpo esteja muito degradado. Neste caso, analisa-se o conteúdo estomacal da larva, de onde é possível extrair uma porção de DNA. “Através dos insetos, a gente tem uma série de respostas sobre quem é o morto, onde e como ele morreu”, diz Favizia.

Com o fomento da Fapesb, a equipe de pesquisa adquiriu um aparelho chamado Estereomicroscópio, que faz fotomontagens ampliadas em até 120 vezes. Com ele, é possível fazer um perfil fatiado dos insetos, montando uma fotografia em 3D e visualizando caracteres que não seriam vistos em uma foto plana. O apoio também propiciou a compra de material de consumo e a contratação de alunos por meio de bolsa, para que pudessem desenvolver a pesquisa.

A bolsista Leda Naly de Oliveira, formada em Geografia, diz que participar do projeto foi uma experiência enriquecedora: “Essa pesquisa me possibilitou ter um conhecimento diferente daquele que tinha antes, pois eu ficava voltada apenas para o meu campo de geografia, e essas pesquisas me possibilitou agora essa interação biogeográfica, de associar o meu campo com outro, ampliando meus horizontes”. Já Ana Carolina Araújo, também bolsista do projeto, diz que desde a graduação, sempre teve interesse por entomologia forense, e que participar das pesquisas foi a realização de um sonho: “Sem o apoio financeiro e institucional para a execução desse trabalho, seria impossível, pois é um gasto muito grande. A Fapesb nos dá incentivo e a gente dá como contrapartida esse conhecimento, oferecendo ferramentas práticas para que os peritos possam fazer a identificação e toda a análise em relação à Entomologia Forense”.

A pesquisa já foi concluída e gerou três dissertações de mestrado. Os resultados serão publicados em forma de artigo ainda esse semestre. O conhecimento gerado pelo projeto já está sendo utilizado pelo Departamento de Polícia Técnica do Estado.

Fonte: Assessoria da FAPESB

 

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