| Em 24/05/2016

Projeto aborda narrativas midiáticas sobre o câncer no Jornal O Globo

O projeto “Sofrimento, doença e biografia em narrativas midiáticas sobre o câncer”, da pesquisadora do Laboratório de Comunicação em Saúde (Laces) e professora do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS), ambos do Icict, Kátia Lerner, foi um dos 293 projetos contemplados no edital 201/02, do Programa de Auxílio Básico à Pesquisa (APQ 1), da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). O edital, cujo resultado foi divulgado no dia 12 de maio último, prevê a distribuição de R$ 5.462.316,34 entre os selecionados.

Os critérios da escolha são a análise comparativa de aspectos como mérito técnico-científico, originalidade, adequação do orçamento às metas do projeto, adesão aos termos desta modalidade de auxílio, dentre outros. A Faperj também leva em consideração a aplicabilidade e relevância da proposta para o desenvolvimento científico, tecnológico, econômico, ambiental e social das diferentes regiões fluminenses.

Em entrevista ao site do Icict, Kátia Lerner fala de seu projeto no qual analisa o jornal carioca O Globo, em suas matérias sobre o câncer em celebridades e políticos, além de enfocar os blogs feitos por pacientes da doença. Ela também fala do lançamento do site do Observatório Saúde na Mídia, no dia 7 de junho próximo.

Como e por que a senhora decidiu pesquisar esse tema?

Venho desenvolvendo pesquisas sobre os processos de saúde e doença e suas relações com as mídias já há algum tempo, com especial interesse acerca das narrativas de sofrimento de pessoas com câncer. Busco pensar esses fenômenos do ponto de vista das Ciências Sociais e Humanas, cuja produção sobre o tema ainda é tímida, ao contrário do que ocorre no campo biomédico. No caso das Ciências Sociais da Saúde, por exemplo, são poucos os trabalhos que problematizam o lugar da mídia nesse processo, levando em conta seu papel fundamental como ator social e político na produção de subjetividades na contemporaneidade. No caso dos estudos da Comunicação, a grande preocupação é sobre a avaliação da qualidade das notícias. Certamente este é um debate de extrema relevância, mas acredito, no entanto, ser importante alargar o escopo de investigação, pois isso permitirá inclusive trazer mais subsídios para se pensar as práticas e estratégias comunicativas das mídias visando o seu aperfeiçoamento.

 O que mais lhe chama a atenção nas narrativas midiáticas sobre o câncer?

Eu destacaria cinco questões que identifiquei no jornal O Globo. A primeira delas refere-se à profusão de textos sobre a doença de políticos. Muitos pesquisadores desprezam esse material, não entendendo-o como algo “da saúde”. Defendo que, a partir da narrativa sobre esse evento, uma série de questões são levantadas: debates político-partidários, a questão da saúde pública x privada… Quem não se lembra da polêmica sobre o presidente Lula ao se internar em uma instituição privada para realizar o seu tratamento contra o câncer?

Um segundo elemento é a doença das celebridades, cuja cobertura é em geral marcada por narrativas de “superação”, através de “histórias de sucesso”. O terceiro ponto refere-se aos textos sobre saúde pública. Embora eu ache que devamos problematizar essa ideia de que a mídia apenas traz notícias negativas sobre o SUS, no caso do jornal O Globo isso é de fato recorrente. As matérias são pautadas pela polêmica e a denúncia, numa desconstrução da imagem da saúde pública. Certamente devemos levar em conta o fato da linha editorial do jornal ser, desde a sua origem, francamente defensora da lógica privada, seja na saúde, na comunicação e assim por diante.

Há, ainda, os textos marcados pela lógica do risco, pautados pela estreita vigilância sobre o corpo através da alimentação e dos exercícios físicos e pela condenação da obesidade, tabagismo e poluição. Embora certamente seja positiva a divulgação de práticas ditas saudáveis, é preciso estar atento à extrema normatização sobre o corpo e o fato de que o risco presente é um risco individualizado, desvinculado de qualquer reflexão sobre as condições políticas e sócio-culturais mais amplas que os afetam. Há, por fim, os textos que apontam para um grande triunfalismo e otimismo acerca do poder da ciência, que omite suas controvérsias, seus limites, seus erros, promovendo um sentimento generalizado – e muitas vezes artificial – de esperança.

A senhora já tem alguma ideia sobre os desdobramentos de sua pesquisa?

O edital da Faperj me permitirá alargar o escopo de investigação, pois quero dar continuidade a essa discussão trazendo outros atores e espaços comunicativos. Além das narrativas jornalísticas que venho estudando, também busquei identificar o ponto de vista dos doentes e dos médicos. Esta nova fase de pesquisa contemplará as narrativas dos doentes por via dos blogs, um espaço extremamente importante de exposição do sofrimento em relação à doença no espaço público.

A senhora disponibilizará algum texto sobre o assunto?

Desenvolvi essas ideias no texto que escrevi para o site do Observatório Saúde na Mídia, que será lançado no dia 7 de junho de 2016. Convido a todos que tenham interesse no tema a acessar o site, que trará não apenas mais detalhes sobre a minha pesquisa, mas os trabalhos de toda a equipe do Observatório, incluindo aí parceiros de outras instituições e a produção de alunos do PPGICS que compartilharam deste espaço de troca e reflexão.

 

Fine: ICICT – FIOCRUZ

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