| Em 27/07/2016

Primeira geração de chacretes vira objeto de pesquisa e tema de livro

“Sabe, o tutu é pouco. Uma mixaria mesmo, mas uma coisa é inegável: promove. O Chacrinha é um trampolim”. O depoimento direto e sincero é da ex-chacrete Índia Potira, Glória Maria, concedido ao Jornal Ideia Nova nos anos de 1970 e um dos muitos documentos pesquisados na Biblioteca Nacional pelo antropólogo formado pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Raphael Bispo. O material compõe a cuidadosa etnografia sobre a primeira geração de assistentes de palco do comunicador Abelardo Barbosa, o Chacrinha.

Com o nome de Rainhas do Rebolado: Carreiras artísticas e sensibilidades femininas no mundo televisivo (Editora Mauad X, 388p.), a tese de doutorado defendida em 2013 pelo hoje professor adjunto do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) ganhou o formato de livro este ano, com o apoio do Auxílio à Editoração (APQ 3), da FAPERJ. Através de uma extensa investigação em jornais e revistas da época, documentários e entrevistas pessoais realizadas com 12 das go-go-girls da primeira fase do programa televisivo, que durou três décadas, Raphael mostra as várias facetas da vida antes, durante e após a fama das celebridades-produto da indústria cultural nacional. Histórias conhecidas e desconhecidas do grande público, que trazem um olhar detalhado e, por vezes, carinhoso sobre o mundo glamouroso vivido pelas chacretes.

O estudo, desenvolvido entre os anos de 2010 a 2013, seguiu uma ótica interdisciplinar, conjugando conhecimentos socioantropológicos, históricos, de comunicação social e das pesquisas sobre gênero e sexualidade. É com esse olhar que Raphael analisou a trajetória de vida de um conjunto de dançarinas sensuais, que sem formação técnica e oriundas de camadas pobres do subúrbio carioca, ganhou destaque na televisão brasileira no final dos anos 60 até durante toda a década de 1970. Ao pesquisador, cabia o interesse em saber como essas mulheres, hoje na casa dos 65 anos de idade, vivem, agem, pensam e falam sobre suas próprias existências.

Em destaque, índia Potira no programa do Chacrinha.
Ao fundo aparece o apresentador
 (Fotos: Divulgação)

 

Algumas delas, como Edilma Campos (a Rainha do Palmeiras), Índia Potira (Glória Maria), Vera Lúcia (a Vera Caxias) e Elisabeth Alves (a Beth Boné), concederam extensas entrevistas ao pesquisador, revelando a ele pormenores de suas vidas e intimidade. “Entrevistei 12 ex-chacretes, mas com apenas quatro tive uma aproximação maior, o que chamamos de ‘observação participante’. São delas os depoimentos mais influentes do livro, extraídos por meio de encontros frequentes, seja nas suas casas ou no cotidiano de suas rotinas. Aos poucos, fui conquistando um espaço nas vidas delas, deixando de ser visto como um ‘estranho’. A intimidade me permitiu conhecer suas histórias e perspectivas de vida”, conta.

Entre as principais temáticas reveladas pelo livro, lançado em maio deste ano, estão as experiências das chacretes com o mundo artístico; suas aproximações e limitações morais para com o mercado erótico; as relações afetivo-sexuais que estabeleceram ao longo de suas trajetórias; suas relações com a família; seus processos de conversão religiosa; os dilemas em torno de uma vida sexual ativa; a maneira como experimentam o envelhecimento e, até mesmo, a solidão. Raphael esclarece que, diferente do que se imagina, o sentimento de solidão revelado pelas assistentes de palco de Chacrinha não está exclusivamente associado ao ostracismo em que se encontram suas carreiras artísticas e, sim, a dilemas de suas vidas íntimas.

“Uma marca tão ambígua, quanto humana”, resume o pesquisador para logo acrescentar: “Ao mesmo tempo que se mostravam fatais, sexualmente potentes e ‘empoderadas’ na figura de chacretes, na intimidade elas se mostram frágeis, submissas a constrangimentos e controles familiares, que em alguns casos se revelaram em traição conjugal e violência doméstica”, diz o pesquisador.

O arrependimento também é um sentimento comum a elas. Seja das atitudes tomadas quando novas, como o envolvimento com as drogas e o relacionamento amoroso com um bandido – caso de Índia Potira –, seja da própria opção pela vida artística. “Não foram poucas as que mantêm a posição firme de esquecerem o passado de chacrete. Isso ficou claro para mim nas tentativas, sem sucesso, de contato com algumas. Essas preferem não trazer à tona constrangimentos contemporâneos na relação com o marido, filhos e família”, afirma Raphael.

Raphael Bispo ao lado das entrevistadas Índia Potira (à esq.)
e Vera Caxias no lançamento do livro, em maio deste ano

Por outro lado, a melhor idade deu a algumas das dançarinas de Chacrinha uma espécie de ‘empoderamento’, conforme define o pesquisador. Um estágio de vida em que lembrar o passado de celebridade se transformou em um exercício agradável e gratificante. “É na velhice que algumas delas se encontram donas de si e mais ativas. Menos comprometidas com maridos e filhos. É um momento de reconsideração de esferas da vida, de falar sobre um passado de importância, de reencontrar colegas de palco, dançarinas e produtores. Algumas me disseram, inclusive, que nunca tinham sido tão chacretes quanto agora, aos 60”, diverte-se Raphael.

Entre depoimentos e análise do acervo da época, o pesquisador estabelece uma reflexão crítica acerca das transformações que os programas de auditório promoveram na TV e na sociedade brasileira nos anos 70. Entre o passado e o presente, um conjunto de similaridades aparece, o que mostra ao leitor como a indústria cultural se estrutura, criando padrões de comportamento, beleza e orientando visões de mundo.

“A TV trabalha com a mecânica da ideia da persona, logo, o indivíduo é marcado com uma série de características que, no caso dessas mulheres, são conhecidas por serem dançarinas, sensuais e pouco inteligentes. Assim, o fato de serem apenas vistas como ‘gostosas’, impediriam que fossem atrizes”, diz Raphael,  que frisa: “Ainda hoje as dançarinas de auditório encontram dificuldades para transpor a barreira que separa os palcos de uma vida de maior reconhecimento nas telenovelas”, avalia.

“São poucas as que conseguem ir além. Mas isso não acontece por incompetência e, sim, porque a indústria cultural as marca a certos tipos de ofício. Até mesmo aquelas que conseguem sair da posição de assistentes de palco ou dançarinas para o posto de atrizes, acabam restritas a papeis menores, como os estereótipos da loira-burra ou da gostosa, mulher fatal”, acrescenta.

O desejo de serem mais do que dançarinas da Discoteca do Chacrinha, alcançando uma posição de destaque como intérpretes, ainda é recorrente nas memórias e desejos íntimos das chacretes. Mas em vez de sentirem tristeza pelo sonho não concretizado, o que as ex-assistentes de palco mais têm em comum é a memória viva e feliz de uma época em que estar na TV representava o acesso a um mundo mágico, não só de fama como também de oportunidades e melhoria de condição socioeconômica, para elas e suas famílias. Tal como Índia Potira ressaltou em sua entrevista a um jornal na década de 70, para muitas, o Chacrinha foi um trampolim.

Fonte: Aline Salgado – Ascom FAPERJ

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