| Em 16/05/2019

Pesquisadora da Paraíba relata a importância da pesquisa para o crescimento de um povo

Foto: Diego Nóbrega.

A professora da Universidade Federal da Paraíba, Tatjana Keesen de Souza Lima, Coordenadora da Pós-graduação em Biotecnologia, fez um apelo: “Eu quero pedir um favor: falar, no final dessa reportagem, sobre a importância das pesquisas para o bem-estar da população como a descoberta de novas vacinas, novas drogas, novas tecnologias. O corte de verbas às universidades públicas feito pelo Governo Federal, deixa os brasileiros à deriva. Um país que não faz ciência não se desenvolve.”

Diante do agravo na manutenção do Ensino Superior público no Brasil, o pedido iniciou o texto. Tatjana Keesen coordena doutorandos, mestrandos e graduandos que pesquisam doenças infecciosas, em especial, as arboviroses; entre elas, a dengue, a chikungunya e a zika. O grupo também desenvolve pesquisas em leishmanioses; coletam dados para retratar a doença na Paraíba, que nunca foram levantados; procuram substâncias para o tratamento e tentam entender como as doenças evoluem nos infectados. Os pesquisadores já têm trabalhos publicados em importantes revistas científicas internacionais. Mas esse esforço pode acabar sem chegar ao final, se a política federal de contingenciamento nos financiamentos para pesquisas permanecer.

A maior parte do tempo da doutoranda Rephaany Fonseca Peixoto é empregado na universidade. Seus colegas sofrem a mesma situação, quando até os familiares perguntam se eles passarão a vida estudando: “E quando você começa a trabalhar?” “Eu trabalho, e muito”, esclarece Fany, que é orientada por Tatjana Keesen. “Eu pesquiso. As pessoas precisam saber que medicamentos que estão em farmácias partem de laboratórios como esse, na UFPB, onde trabalhamos. Nosso cotidiano de pesquisa é uma vida à parte – dedicação total – e as pessoas desconhecem isso. Aqui identificamos os mecanismos que causam doenças infecciosas típicas do Brasil, como a leishmaniose ou a dengue. Com isso, é possível elaborar políticas públicas para combater o mal e as pessoas podem viver melhor”, salienta a doutoranda.

Entre os estudos realizadas no Laboratório de Imunologia das Doenças Infecciosas, as pesquisas relativas à leishmaniose tiveram o apoio financeiro do Programa Pesquisas para o SUS (PPSUS), um programa do Ministério da Saúde, CNPq, e Governo do Estado da Paraíba, realizado através da Secretaria de Estado da Educação da Ciência e Tecnologia (SEECT)/Fundação de Apoio à Pesquisa (Fapesq).

O calazar é endêmico no Brasil
A leishmaniose é uma “doença tropical negligenciada”, típica no Brasil. Na Paraíba, desde 2016 até agora, foram registrados 163 casos de leishmaniose visceral e 16 pessoas morreram. Mas as ocorrências das formas cutânea, na pele, não estão nessa conta. É manifestada de formas diversas, que podem ser cutâneas (na pele), ou visceral (quando ataca principalmente o baço e o fígado), também chamada de calazar. É uma doença cara quando tratada no hospital; cara para o paciente que tem efeitos colaterais insuportáveis; e pode levar à morte. É transmitida por um mosquito que é saltitante, com atividade a partir do crepúsculo. Como não ocorre nos países onde ficam as sedes dos grandes laboratórios farmacêuticos, não há pesquisas internacionais para desenvolver tratamentos.

Pesquisadores elaboram o mapa da leishmaniose em JP
A pesquisa coordenada por Tatjana Keesen revelou um retrato da doença em João Pessoa através da análise em cães infectados e em pessoas. O resultado da comparação da contaminação dos humanos e dos animais não bateu: onde tinha muito caso canino, havia pouco ou nenhum caso humano. Por quê?  “Temos duas hipóteses, e acho que as duas são válidas”, explica Tatjana. “Uma delas é que a equipe do Centro de Zoonoses de João Pessoa é insuficiente para cobrir toda a cidade e não registra a identificação em cães em locais onde encontramos muitos pacientes humanos. A outra hipótese é baseada em pesquisas de outro professor, identificando que a leishmania que está no cão é a cutânea difusa, não a visceral. E ainda, foi descoberto que há pessoas com a doença, mas não a desenvolveram”.

O Programa PPSUS possibilitou também a colaboração do professor Pedro Cordeiro, do CCEN da UFPB, que fez uma coleta de morcegos e marsupiais das matas de João Pessoa e descobriu indivíduos contaminados por leishmaniose. “Isso sugere que a doença não sai das matas. Por João Pessoa ter preservado as matas, o ciclo silvestre é mantido lá; a doença não está chegando nos humanos. Ao desmatar, o transmissor passa para o ambiente urbanizado – onde antes era seu habitat. Tatjana conta que no ano passado, depois do desmatamento de uma área para a atividade rural, houve 40 casos de leishmaniose no município de Sapé. “Fato comprovado pelos funcionários da Funasa” (Fundação Nacional de Saúde), garantiu.

A pesquisa continua com a busca por substâncias naturais e sintéticas contra a leishmania, que provoquem menos efeitos colaterais e sejam mais baratos. A triagem começou com mais de 120 substâncias; foram detectadas 10 possíveis de uso que agora passarão para nova fase de testes. Mas a questão que abriu essa matéria retorna agora: será possível que as pesquisas continuem?

Fonte: Ascom SEECT / Fapesq.

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