| Em 25/10/2017

Pesquisa observa associações que possam contribuir para identificar fatores causadores de neoplasias

Embora considerado raro, o câncer infantil tem se destacado como uma causa de óbito importante nos países em desenvolvimento. Por isso mesmo, ao observar algumas associações entre tumores na infância e adolescência e certas características gestacionais, perinatais e mesmo sociodemográficas maternas, os pesquisadores acreditam que é interessante investigar associações que possam ajudar a rastrear e identificar os fatores etiológicos causadores de neoplasias. “Tudo são hipóteses. Mas algumas dessas hipóteses deveriam ser mais bem investigadas”, diz a pesquisadora Beatriz de Camargo, do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

Os números no Brasil seguem os parâmetros mundiais: de 150 novos casos por milhão para o câncer infantil (até 15 anos completos); e de 200 novos casos por milhão, em adolescentes e adultos jovens (de 15 a 29 anos). “Os sintomas de câncer em crianças são muito inespecíficos. Mas deve-se investigar se a criança é levada ao médico ao menos três vezes, com as mesmas queixas, em um curto espaço de tempo”, alerta a pesquisadora, que é oncologista pediátrica.

“O câncer infantil não tem causas conhecidas. Por isso é importante analisar os dados de incidência e mortalidade para se saber o que acontece no País, identificar quais são as regiões mais afetadas e quais os motivos para que isso ocorra. E também para comparar com a incidência em níveis mundiais. No caso brasileiro, esses números são semelhantes aos computados internacionalmente.”

Não há dados que mostrem que a incidência de câncer é maior nas camadas de nível socioeconômico mais alto ou mais baixo. “Observando-se o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), cujos dados são computados nas capitais do País, concluímos que há poucas diferenças entre eles. Na verdade, sua incidência é semelhante”, diz Beatriz.

No entanto, as diferenças entre pacientes adultos e crianças são bastante acentuadas nos casos de neoplasias. Se no adulto, os tumores costumam ter crescimento lento e ser mais localizados, tanto no adolescente quanto na criança, os tumores em geral têm crescimento rápido e costumam ser mais agressivos. “Isso acontece porque, em geral, são formados por células embrionárias que, por algum motivo, não se tornaram adultas, permanecendo imaturas. Por continuar se multiplicando, sem se diferenciarem para células adultas, terminam formando um tumor. Como, nessas células, a divisão celular é mais rápida, esses tumores também se desenvolvem rapidamente, o que os torna mais agressivos”, explica.

“Entretanto, isso também traz duas possibilidades positivas. A primeira é que exatamente esse rápido crescimento permite um diagnóstico mais rápido. E a segunda é que o mesmo motivo que o torna mais agressivo – a rápida expansão celular –, também o faz responder melhor ao tratamento”, esclarece Beatriz. Por outro lado, nos casos em que não se obtém boa resposta com o tratamento, esse câncer, mais agressivo, também terá maior letalidade.

Como cita Beatriz, de acordo com dados do Ministério da Saúde, o tipo de câncer mais comum na infância é a leucemia. Seguem-se os tumores do sistema nervoso central, depois os linfomas, seguidos por vários tumores abdominais. São os chamados blastomas, que se subdividem em neuroblastomas, que atingem a glândula supra-renal; e os nefroblastomas, que atacam os rins. “Fruto de alteração genética, o neuroblastoma é um dos tipos de câncer de pior prognóstico: tem 50% de cura e é mais resistente ao tratamento. Já o nefroblastoma, ao contrário, é o de melhor prognóstico: suas chances de cura são de 90%”, cita.

Nos adolescentes, essa ordem de incidência é um pouco diferente. Embora o mais comum continue sendo a leucemia e linfomas, seguem-se os carcinomas, depois os tumores do sistema nervoso e tumores ósseos.

Observando certas associações, uma delas sugere que a exposição do bebê a infecções muito precocemente poderia estimular o funcionamento do sistema imune. “Isso termina tornando o sistema imune mais ativo, o que também pode contribuir para eliminar possíveis fatores genéticos predisponentes ao câncer. Por outro lado, quando o sistema imune não é estimulado a agir, pode acontecer que fatores genéticos pré-existentes, predisponentes a um câncer, se desenvolvam”, fala.

Também se observou que a ordem de nascimento dos filhos pode influir na formação de um câncer, o que levou os pesquisadores a uma possível especulação. “Poderia ser o fato de que o marcador de exposição hormonal é maior – ou seja, a mãe tem um maior percentual de hormônio na primeira gravidez. Isso pode estimular alguma alteração em fatores genéticos predisponentes e gerar um câncer”, sugere. Até mesmo o tipo de parto pode ter algum peso nessa conta. “Olhando-se para as regiões Sul e Sudeste do Brasil, onde os partos por cesariana são mais frequentes, é interessante perceber que também é maior a incidência de neuroblastomas. Esta associação entre câncer e o grande número de cesáreas é outra especulação a ser estudada futuramente”, diz.

Com relação ao câncer de colo de útero, a incidência costuma ser maior em dois pontos opostos do País. “No Nordeste, particularmente em Recife, onde se registra o maior número de casos, também chama atenção outra particularidade. A de que a atividade sexual comece mais precocemente naquela capital. Pode haver uma relação entre esses dados. No Sul, por outro lado, é onde as mulheres mais fumam. Como o tabagismo é também um fator predisponente a esse tipo de câncer, pode ser que influencie essa alta incidência”, relata.

A notícia boa é que a mortalidade por neoplasia está diminuindo, embora timidamente no nosso País. “E se, ao contrário, em certas regiões, o número de letalidades pareça estar aumentando, isso pode ser apenas o reflexo de atestados de óbito mais bem feitos, mais detalhados”, afirma a pesquisadora.

“Prevenção para o câncer infantil não há, mas dependendo do tipo de tumor, vemos a importância de usar estudos como este para entender o que está acontecendo no País e traçar estratégias, políticas públicas de tratamento. O que poderia se traduzir, por exemplo, em ampliar a vacinação do HPV em certas regiões, como o Nordeste, como forma de evitar uma das causas para este tipo de câncer”, exemplifica.

Para Beatriz, é preciso não apenas melhorar o diagnóstico, tornando-o preciso e mais detalhado, como, nos casos detectados, fazer um rápido encaminhamento para os centros de tratamento. “É uma questão de melhorar o fluxo de tudo isso, de modo que não só o diagnóstico seja mais rápido, mas que o encaminhamento e a internação do paciente aconteça logo em seguida. Assim, estaremos ampliando as chances do tratamento e, por conseguinte, do paciente. Nesse sentido, é bom frisar que, apesar da falta de estrutura em algumas regiões, alguns estados do Norte e Nordeste estão se organizando para agilizar esse fluxo e o tratamento. O que já é um começo. Essas, afinal, são ótimas notícias”, conclui.

Fonte: Comunicação Faperj (texto: Vilma Homero).

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