Uma das três variações da vegetação de altitude da América do Sul, os campos rupestres são ecossistemas naturais de regiões situadas acima de 900 metros e com afloramentos rochosos. Essas formações predominam na Cadeia do Espinhaço – reduto das espécies de mata atlântica e cerrado –, onde, por sua vez, localiza-se a Serra do Cipó. A região, há décadas, caracteriza-se pela morbidez dos mais áridos solos, em razão de intervenções degradantes, tal como a mineração. A região, reconhecida como um dos conjuntos naturais de maior abundância de espécies de plantas no mundo foi eleita como “palco” para intervenções de reabilitação do solo, desenvolvidas por cientistas do Departamento de Botânica do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “As espécies naturais do cerrado com maior ameaça de extinção concentram-se nessa ecorregião. Por isso, priorizamos os estudos com esse tipo de bioma”, explica o professor Geraldo Wilson Fernandes, coordenador do projeto.
Em 2001, ano de início da pesquisa, quase metade do terreno estava comprometida, com perda de espécies exclusivas do local – muitas das quais já à beira da extinção. O prognóstico era desfavorável, pois certos pontos haviam sido analisados, por especialistas, como irrecuperáveis. “Hoje, cerca de 40 hectares de área, o que inclui trechos inférteis há mais de 30 anos, foram revitalizados, e com espécies nativas”, explica Fernandes.
O objetivo central dos estudos era proporcionar condições de restaurar os solos degenerados da área sem aplicação de espécies estranhas ao bioma. “Atualmente, a prática da silvicultura usa, basicamente, as mesmas espécies em qualquer terreno, como pinus, eucaliptos e plantas de origem africana, a exemplo de capim meloso e braquiárias, que, por sua fácil adaptação ao solo e pela ausência de predadores naturais, apresentam comportamentos muito invasivos e descaracterizam o biossistema”, esclarece o professor. Segundo os pesquisadores, a atividade configura, ainda, um reflorestamento ilegítimo, pois a vegetação original não é recuperada.
Etapas de ação
O estudo envolveu mais de 50 espécies nativas da flora na Serra do Cipó, consideradas de tratamento complexo, devido à ausência de estudo pregresso capaz de fornecer embasamento técnico ao emprego desse tipo de vegetação na silvicultura. De acordo com o estudante de doutorado Daniel Negreiros Alves Pereira, que integra a equipe do projeto, as pesquisas partiram do levantamento de dados sobre a arquitetura genética das plantas, assim como da verificação dos nutrientes exigidos e do processo de adequação do solo. “Tratava-se, enfim, de trabalhar o conjunto de condições para cultivo e acondicionamento das espécies”.
Concluída tal etapa, os pesquisadores agregaram os conhecimentos fundamentais à cultura das espécies e seguiram à condução de testes laboratoriais de germinação, que apresentaram resultados promissores. “A partir de então, coletamos as referências necessárias para a manipulação dos vegetais em ambiente natural”, comenta Fernandes.
As pesquisas de campo foram desenvolvidas em área da Serra do Cipó onde se instalou um “laboratório vivo”, que contou com aporte financeiro da FAPEMIG e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Trata-se de estrutura híbrida, com ambientes naturais e laboratoriais e onde os 50 especialistas realizam monitoramento permanente, o que conferiu às pesquisas expertise sem precedentes no campo da reabilitação de terrenos degradados.
Em segundo plano, os pesquisadores concentraram esforços na prática da recuperação, ao usar, prioritariamente, as espécies endêmicas, aquelas com crescimento restrito à Serra do Cipó – e, à época, em risco de extinção. “Agora, temos áreas extensas cobertas por espécies que, há uma década, estavam próximas de desaparecer, como Coccoloba cereifera, Collaea cipoensis, Chamaecrista semaphora, Kielmeyera petiolaris, Diplusodon orbicularis e Velozzia nanuzae, conhecida por ‘canela-de-ema’”, lista Fernandes.
Novos estudos
Em função dos bons resultados relativos à recuperação das áreas, a pesquisa do ICB ramificou-se a outros ramos do conhecimento. Atualmente, em parceria com a Companhia Vale do Rio Doce, o grupo desenvolve, por exemplo, projeto que busca reabilitar terrenos degradados pela prática de mineração, em regiões conhecidas como “campos rupestres ferruginosos”. Outra investigação pretende recuperar área destruída pelo rejeito de ardósias. “Agora, aplicamos nosso conhecimento acerca da fitoecologia de Minas Gerais para verificar a adaptação das espécies vegetais na região, diante das modificações climáticas em curso”, explica o coordenador.
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Assessoria de Comunicação Social / FAPEMIG