| Em 05/07/2023

Pesquisa avalia efeito do aquecimento global sobre peixes em estuários

Na Baía de Guanabara a equipe investigou a vulnerabilidade do peixe-rei, que pode tolerar temperatura de até 40°C (Foto: Wikpédia)

No resumo de seu projeto de pesquisa, Joice Silva de Souza alerta que as alterações climáticas globais representam uma das principais ameaças à biodiversidade, visto que projeções iniciais estimam uma perda de 15% a 37% até a metade do século 21. Os peixes, assim como os demais ectotérmicos marinhos, estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos do aquecimento global, o que motivou o desenvolvimento de seu projeto de doutorado sob a orientação do oceanógrafo Luciano Neves dos Santos, coordenador do Laboratório de Ictiologia Teórica e Aplicada (LICTA) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). Parte do material produzido já foi, inclusive, publicado na revista Ecology, uma das mais importantes da área.

Doutora em Ecologia e Evolução na Universidade Federal Fluminense (UFF), Joice contou com bolsa do programa Doutorado Nota 10 da FAPERJ para desenvolver seu projeto, dividido em três fases distintas. No primeiro momento, dedicou-se à revisão da literatura acerca dos impactos da temperatura nos últimos 20 anos sobre as comunidades de peixes em estuários. Estes sistemas foram escolhidos devido à sua baixa inércia térmica e às rápidas trocas entre a temperatura do ar e da água. “De uma maneira geral, mostramos que as comunidades de peixes locais são as mais tolerantes às variações de temperatura da água”, resume a pesquisadora.

A avaliação incluiu a aferição do perfil térmico das comunidades e buscou quantificar a importância relativa das mudanças na ocupação e dominância das espécies para a reorganização temporal da biodiversidade. A pesquisa também identificou tendências de aumento ou declínio nas populações de peixes em 19 estuários situados, majoritariamente, em regiões de clima temperado no hemisfério Norte, e na Baía de Sepetiba, localizada no litoral sudoeste do Estado do Rio de Janeiro.

A análise dos dados mostrou que a reorganização das comunidades em resposta ao aquecimento global é fruto, principalmente, de mudanças na dominância de espécies residentes com perfis térmicos distintos, contrariando expectativas de um papel central da imigração de espécies por alguns experts da área. Além disso, observou-se uma tendência de aumento no número de espécies e indivíduos nos estuários (espécies de água fria declinaram e de água quente aumentaram). A exceção foi verificada em alguns sistemas como a Baía de Sepetiba. Neste local, a emigração de espécies foi o principal processo, sustentando a reorganização da comunidade de peixes em estuários. “Acreditamos que o papel central da emigração em um sistema na região subtropical está relacionado à proximidade da temperatura do ambiente e os limites máximos suportados pelas espécies, o que pode colocar estes sistemas em maior risco de perda da biodiversidade”, esclarece a bióloga.

Joice Silva de Souza, que acaba de defender sua tese de doutorado, recebeu nota dez de todos os integrantes da bancada examinadora

A partir das constatações neste artigo, a segunda parte da pesquisa investigou a vulnerabilidade térmica de populações de peixe-rei (Atherinella brasiliensis) na Baía de Guanabara, região de clima subtropical, considerando temperaturas atuais e previstas para o ano de 2100. O estudo também levou em conta a interação da temperatura com outros fatores locais como a salinidade na tolerância desta espécie residente. Os resultados foram relativamente positivos e indicaram que o peixe-rei teria tolerância a temperaturas da água de até 40°C. “Nossas descobertas mostraram que a heterogeneidade ambiental pode promover plasticidade fenotípica para espécies tropicais, reduzindo o risco de extinção em curto prazo”, explica Joice. Esta pesquisa contou com a participação da professora Catarina Vinagre, da Universidade do Algarve, e seus resultados também foram recentemente publicados na revista Marine Environmental Research.

A terceira etapa do estudo verificou a influência de fatores antropogênicos e ambientais como o clima, especialmente a temperatura e salinidade, sobre a riqueza de espécies exóticas (não nativas) em estuários. A pesquisadora e seus coautores buscaram avaliar se a temperatura poderia agir como uma barreira para a introdução de espécies em escala global. Desta forma, seria possível inferir se as mudanças climáticas irão afetar espécies introduzidas de forma similar às nativas.

Joice conta que sempre se interessou pelo estudo dos efeitos das mudanças climáticas sobre peixes. No entanto, durante sua graduação, entre 2010 e 2014, os estudos sobre o assunto no Brasil – hoje foco mundial – ainda eram escassos. Foi com o auxílio da professora Catarina Vinagre, que Joice e seu orientador definiram os protocolos experimentais adotados em parte da pesquisa desenvolvida durante seu doutorado na Uerj. Defendida no final de abril, a tese recebeu nota 10 por unanimidade da banca examinadora. A partir das discussões durante a defesa, Joice pretende expandir sua atuação nesta área de pesquisa, e faz planos de realizar um pós-doutorado.

 

Fonte: FAPERJ (Por: Paula Guatimosim/ Ascom Faperj)

 

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